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In document Avisåret 2011 (sider 23-27)

Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só pra mim é pouca, talvez não me chegue.

( Riobaldo, Grande Sertão Veredas).

Entre os sacerdotes das religiões afros, principalmente entre aqueles que mantêm contatos com sacerdotes de outras regiões, permeia a certeza de que no norte de Minas Gerais a demanda “corre solta”. Comentam que os habitantes do sertão têm uma “queda” por feitiços, quando não conseguem resolver seus problemas apelam para o misticismo afro. Não é novidade que o homem se direciona para religião quando a razão demonstrativa, esbarrando em seus limites, recua dando espaço para a busca do sobrenatural. No entanto, no norte de Minas Gerais foi verificado que a motivação pelos feitiços que sustenta os terreiros sertanejos são as demandas, as guerras que se instauram na vida profissional e familiar a ponto de não se esperar a ação da razão. Injustiças e

perseguições idealizadas ou não tornam urgente a “manipulação de energia”62 como meio de se encontrar paz e tranqüilidade assim como sua garantia. De acordo com o Tatêto Ricardo Luiz de Freitas Rosa, um dos motivos principais pela procura do terreiro afro no sertão norte-mineiro é “derrubar” pessoas. A sacerdotisa de Umbanda, Quimbanda e Magia Negra, Rosa dos Santos Silva, possui a mesma opinião.

O desejo de “derrubar” alguém certamente possui uma causa ou pretexto. Na época dos precursores da Umbanda Sertaneja, além dos problemas amorosos, a principal causa da procura pelos serviços de um sacerdote de Umbanda era a disputa de terra muito comum na região nas décadas de 50, 60 e 70. Na atualidade, em pesquisa de campo detectamos como causas principais: disputa amorosa, disputa profissional, retaliação e inveja. Mesmo a questão amorosa sendo corriqueira e comum, são as outras causas que demandam mais tempo e esforço do sacerdote. O sacerdote Maurício Pereira de Jesus narra um fato que ilustra a certeza dos sacerdotes sertanejos da existência da macumba e seus perigos. De acordo com ele, um dia, ao abrir o portão de sua casa encontra sobre a calçada um “despacho”. Para se orientar sobre o que fazer consulta os búzios, a entidade Exu ( Candomblé) responde e o orienta a trazer o “despacho” para o interior do terreiro e depositá-lo na casa de Exu ( Quimbanda). Seguindo as orientações da entidade, o sacerdote com a ajuda de médiuns de sua confiança, “desfaz” a magia. O “desfazer”, na verdade, é o retorno da mesma, sob a forma de energia, ao lugar de origem e, conseqüentemente, ao seu autor. Sem ter conhecimento do inimigo, o sacerdote recomendado pela entidade Exu esperou resultados. Passados dias, um homem o procura e lhe confessa ter depositado o “despacho” em sua calçada, revela-lhe o nome dos autores e o motivo: fechar seu terreiro.

Muitos casos semelhantes ao relatado são narrados por sacerdotes, integrantes e clientes dos terreiros. Para os primeiros, a procura por feitiços e a contratação de trabalhos para atacar ou defender no sertão norte-mineiro é superior a outras regiões. Acreditam que a proximidade com a Bahia e o misticismo indígena aliados às baixas condições de vida no sertão e, em menor proporção, a divulgação da existência demoníaca feita pelo simulacro pentecostal nutrem a “natureza” do sertanejo. Esta parece estar eternamente marcada pela violência sempre presente na sua história. Os fatores citados contribuem na manutenção de um quadro místico onde veladamente viver no sertão norte-mineiro é negócio perigoso, a possibilidade de estar sendo perseguido espiritualmente, causando o “desandar” da sua

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vida, direciona o sertanejo, culturalmente místico às religiões afro. Procedentes das mais variadas religiões recorrem aos seus trabalhos em busca de ajuda, defesa e proteção. Entretanto, proteger e defender no sertão pode significar contra-atacar como forma de manter a integridade espiritual e física, ouvimos de muitos sacerdotes se uma mãe tem que chorar que não seja a minha.

Reforçam o mencionado, os resultados da pesquisa que realizamos nas principais casas de comércio63 de artigos de Umbanda em Montes Claros. Detectamos que, sequencialmente, os produtos mais procurados pelos sacerdotes são velas, pólvora, banhos, incenso e imagens seguidos de outros produtos como os charutos. As pessoas que não se identificam como sacerdote ou adepto procuram os seguintes artigos: velas, imagens, incenso, perfumes, defumadores e banhos. Os três primeiros produtos adquiridos pelos sacerdotes revelam que sua clientela se movimenta em busca de defesa, na linguagem mística: do descarrego. Incenso, perfumes e defumadores denunciam a crença do sertanejo na possibilidade de ser atingido por algum tipo de energia negativa que possa atrapalhar sua vida profissional e amorosa, a última primariamente se protege com o extrato de alfazema e lavanda. Entre as imagens mais procuradas destaca-se a de São Jorge guerreiro/Ogum, responsável pelas demandas e orixá da guerra. É importante lembrar que no norte de Minas Gerais, os sacerdotes não se prendem a compra de produtos manufaturados, com exceção das velas, pólvora e incenso, aos banhos comprados costuma- se misturar folhas do sertão. Estas, inclusive, são mais usadas para banho de descarrego do que os banhos comprados.

Acredita-se que o efeito positivo do banho deve-se ás propriedades terapêuticas e naturais das plantas utilizadas e da mística inserida na sua preparação igualmente como ingrediente. Entre as folhas consumidas nos terreiros para tratamento e descarrego, destacamos: folha de mamona, pião roxo, guiné, alfazema, arruda, hortelã, espada de São Jorge, folha de Peregum, Acocô, Gonçalo, Macassá, Assa peixe. A folha ou o pau de Aroeira, próprio do sertão, também é muito empregado em banhos e tratamentos. A cachaça, muito produzida na região, também é utilizada como banho de descarrego ou remédio após ser “preparada” pelo Escora. Os sacrifícios de animais são largamente usados

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Drogaflora São Jorge, vinte e cinco anos de comércio na cidade. Localiza-se à Rua Lafetá, n 85, no centro de Montes Claros.

A Casa Minas Gerais se localiza a avenida F. Ribeiro, 59 B. Segundo seu proprietário existe a mais de 50 anos na cidade.

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