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Avgrensning, nøkkelbegreper og definisjoner

Uma abordagem interessante que é necessário fazer, diz respeito aos relacionamentos entre o migrante recém-chegado no bairro Cidade Aracy, e os moradores já residentes nele. Para isso, nada melhor do que recorrermos aos pressupostos teóricos de Norbert Elias. Elias (2000), em “Os Estabelecidos e os Outsiders”, descreve uma comunidade da periferia urbana, na Inglaterra, em que mostra uma forte divisão em seu interior, entre um grupo estabelecido há tempos e um grupo mais novo de residentes, que era tratado pelos primeiros como outsiders. O grupo dos estabelecidos estigmatizava sobremaneira o grupo dos outsiders e o representava como pessoas de menor valor humano. De acordo com Elias, membros de grupos mais poderosos que outros entendem-se como humanamente superiores, enxergam-se como pessoas melhores, dotadas de uma espécie de carisma grupal e de virtudes que faltam aos outros. Pior do que isso, os indivíduos que se acham superiores, podem fazer com que os outros indivíduos vistos como inferiores se sintam carentes de virtudes ao ponto de se julgarem, de fato, humanamente inferiores. No estudo de Elias, aqueles que se achavam superiores, recusavam-se a manter contatos sociais com aqueles recém-chegados, tidos por eles como inferiores, exceto o exigido por suas atividades profissionais. Como diz Elias,

Juntavam-nos todos num mesmo saco, como pessoas de uma espécie inferior. Em suma, tratavam todos os recém-chegados como pessoas que não se inseriam no grupo, como ‘os de fora’. Esses próprios recém-chegados, depois de algum tempo, pareciam aceitar, como uma espécie de resignação e perplexidade, a ideia de pertencerem a um grupo de menor virtude e respeitabilidade (ELIAS, 2006: p. 20).

A explicação sociológica dada por Elias para tal fato está na característica de coesão dos grupos e no conjunto de regras e normas estabelecidas entre eles. Os estabelecidos, grupo de antigos residentes, era um grupo bastante coeso que se conhecia havia muitos anos e, por isso, estabelecera para si um estilo de vida comum e um conjunto de normas. Todos observavam e seguiam certos padrões e se orgulhavam disso. Por outro lado, os recém-chegados ao bairro eram pouco coesos, eram desconhecidos não apenas dos antigos residentes, mas também entre si e, por isso, não conseguiam revidar aos estigmas lançados pelo grupo estabelecido. Para estes, os recém-chegados eram vistos como uma ameaça a seu estilo de vida.

Por sua vez, essa relação entre os moradores mais antigos do Cidade Aracy e os migrantes recém-chegados, talvez pela existência de fortes redes sociais (sobretudo de parentesco, instaladas no bairro, que proporcionaram um confortável acolhimento aos recém- chegados, talvez pela própria falta de coesão dos moradores mais antigos, em razão novamente das diversas redes sociais existentes ali, como as redes de paranaenses, as redes de mineiros, as redes de pernambucanos, as redes de alagoanos, etc.) não foi conflituosa e, por isso, os recém- chegados não sofreram com os estigmas e a discriminação lançados pelos migrantes estabelecidos.

Como se vê, apostamos fortemente que as redes sociais de migrantes, não só a calcada na relação de parentesco, mas também na de amizade, na de vizinhança, na de conterrâneos, dentre outras, contribuíram decisivamente para com a instalação do migrante recém-chegado no bairro, evitando conflitos com os moradores mais antigos. Acreditamos que a diversidade de redes sociais, não apenas acolheu confortavelmente o migrante recém-chegado, como também impossibilitou que se desenvolvesse uma profunda coesão entre os moradores já estabelecidos e, consequentemente, um estilo de vida próprio. Como boa parte das famílias moradoras do Aracy é migrante, com intenso contato com as redes sociais ali existentes, não se criou uma coesão no bairro, gerando um estilo de vida próprio, que pudesse ser ameaçado pelos migrantes recém-chegados. Desse modo, a chegada e a inserção destes no bairro, ocorreram sem

conflitos e traumas. As narrativas das mulheres migrantes, sejam paranaenses, sejam nordestinas, demonstram que elas, e suas respectivas famílias, foram muito bem recebidas pelos moradores mais antigos do bairro:

Mulheres Nordestinas:

Fui muito bem tratada pelo povo daqui do Aracy quando cheguei aqui. Não tenho nada a dizer deles não. O povo não me tratava mal (Tereza, 67 anos,

nordestina).

Quando eu cheguei aqui, foi bom viu. Muita gente falava: “você vai gostar”. Via que eu estava procurando emprego, eles me incentivavam. A maioria do pessoal daqui é da Bahia, Sergipe (Sílvia, 38 anos, nordestina).

Mulheres paranaenses:

Fomos tratados muito bem quando cheguemos. Nunca tivemos problemas com os vizinhos. (Josefa, 60 anos, paranaense).

Sempre fomos muito bem tratados. Porque aqui tem muita pessoa de outro estado. Tem gente do Paraná, de Pernambuco (Cida, 32 anos, paranaense).

Fomos bem tratados, bem recebidos. Nossa, as pessoas receberam a gente super bem. Não fomos discriminados (Marisa, 43 anos, paranaense).

É importante afirmar que este agradável acolhimento dos recém-chegados pelos moradores mais antigos do Cidade Aracy gerou, em consequência, boas amizades e um grande respeito entre as famílias. Por isso, hoje, segundo os depoimentos das mulheres migrantes entrevistadas, a relação entre as pessoas do bairro, bem como entre os vizinhos, em geral, é muito boa. As depoentes afirmam que eles sempre os ajudam quando podem e vice-versa. As famílias mais pobres, que vivem em situação de miserabilidade no bairro, sejam elas paranaenses ou nordestinas, afirmaram que são gratos aos vizinhos e outros moradores do bairro, pois eles ajudam no orçamento doméstico ou com a alimentação e vestuário, doando alimentos e roupas.