A colonização de um lugar específico no interior do país, para ser contada nas suas passagens históricas, precisa ser garimpada nas livrarias, nos sebos, nas bibliotecas, encontrar o diário de um frei... É assunto de uma ou duas linhas no meio de um livro. Vez ou outra aparece perdida em alguma nota de rodapé. Um indício aqui, uma informação ali. Ora alguma coisa bate. Ora não bate.
E foi assim que Esmeraldo Lopes Gonçalves escreveu Opara – formação histórica e social do submédio São Francisco58, publicado em 1997. Quem é Esmeraldo
57 Neste caso, a Figura não é o retrato, o que sobressai a um fundo. É uma torção que aciona a paisagem ao mostrar-se. O corpo só se revela quando deixa de ser sustentado pelos ossos, quando a carne deixa de recobrir os ossos, quando ambos existem um para o outro, mas cada um em seu lugar, os ossos como estrutura material do corpo, e a carne como material corpóreo da Figura. A Figura em Bacon precisa atingir essa tensão pictórica da carne e dos ossos. Ora, é a vianda [o pedaço da carne animal] que realiza essa tensão na pintura, inclusive pelo esplendor das cores. (...) Na vianda, é como se a carne ‘descesse’ dos ossos (DELEUZE: 2007, p.74).
Lopes? O livro foi impresso em uma gráfica de Petrolina, cidade do interior pernambucano, na margem do rio São Francisco. Uma tiragem pequena, distribuição limitada. De modo que pouca gente de fora conhece Esmeraldo Lopes e pouco se ouve contar nas escolas da formação histórica e social dessa região.
Ao que parece, num primeiro momento, esse livro veio atender a uma carência, suprir as escolas, apoiar os professores de história. Inclusive, algumas passagens soam bem didáticas, coisa de conversa de professor com aluno. Esmeraldo Lopes sabe bem como é isso.
Na orelha do livro, o jornalista Marcelino Ribeiro59, nascido e criado em Juazeiro da Bahia, escreve:
Entre o início e a finalização do livro, lá se foram cinco anos. Finais de semana, férias consumidas em leituras, redações, reflexões solitárias exasperantes, conversas, discussões. Não bastasse conjugar esse esforço com a labuta do dia-a-dia de professor e pai, Esmeraldo ainda bateu-se contra o descaso de prefeitos das cidades da região para com a memória de seus municípios. Os prédios, com nomes que sugerem bibliotecas, não abrigam livros que falem da história da região. Muito da bibliografia consultada só foi possível com a boa vontade de amigos de São Paulo e Recife. Na consulta bibliográfica, o lapidar meticuloso de quem sabe de uma triste verdade: aos índios, vaqueiros, beiradeiros, oprimidos, não foi dada a chance de contar sua parte da história. A finalidade deste OPARA é contar esta HISTÓRIA.
Além dos problemas de fonte de informação, de divulgação da pesquisa, outro problema: o que é possível contar com uma história regional?
Albuquerque Júnior (1999) critica a pretensão da historiografia regional, argumentando o quanto o campo identitário no qual essa pretende se inscrever – a região – já é produto dos processos históricos mais amplos, é uma noção que nos envia a um espaço sob domínio, comandado. (...) Ela nos põe diante de uma política de saber, de um recorte espacial das relações de poder (p.25). Uma preocupação atenta para as configurações do saber-poder.
Todavia, sua perspectiva de uma história sem mais adjetivos pode também se limitar a mostrar a cara dessa identidade, a invenção do nordeste, por exemplo, como produzida nessas configurações. Cai como uma máscara o feixe imagético e discursivo e tornam-se visíveis as forças dominantes que o sustentam e são sustentadas por ele.
Na época em que escreveu Opara, já chegando o ano 2000, quando a destruição de Canudos (Belo Monte) completava cem anos, ainda se encontravam, ao relento, vestígios 58 Publicado originalmente conforme a referência: GONÇALVES, Esmeraldo Lopes. Opara – formação histórica e social do submédio São Francisco. Juazeiro: [s.e.], 1997. As páginas citadas referem-se ao livro, mas atualmente, com poucas alterações, Opara está disponível para download em http://www.esmeraldolopes.com/?pagina=download
59 A apresentação do livro foi feita pela historiadora Odomaria Bandeira e a capa pelo artista plástico A. C. Coêlho de Assis, ambos também nascidos e criados em Juazeiro da Bahia.
impressionantes daquela guerra, pedras perfuradas por balas, casco da garrafa usada por um soldado, coisas assim, espalhadas pelo lugar onde hoje é o município de Canudos. Aquela paisagem parecia esquecida, apesar dos inúmeros pesquisadores do tema. Há algo sempre ignorado na região.
... os habitantes da Caatinga não são percebidos na dimensão concreta de suas vidas, pois não são ouvidos em suas falas e nem vistos em suas ações, assim como também a ideia que formam sobre a Caatinga não passa de um amontoado de suposições, algumas com base em algum conhecimento parcial, outras como fruto de pura imaginação (GONÇALVES: 2012, p.2).
Para quem, apesar do esforço que demanda, insiste em escrever sobre uma região qualquer, o que está em jogo é algo mais complexo. Talvez desmanchar uma identidade regional – como Albuquerque Jr. aponta ser necessário fazer – mas mostrar outra coisa ali. Algo que parece esquecido. Isso é o que de mais imediato ocorre. De qualquer modo, é preciso contar.
José de Souza Martins (2012) abre outra perspectiva ao ‘regional’, ao considerar que a História não será corretamente decifrada pelos pesquisadores se não estiver referida a esse âmbito particular que é o do sujeito e o da história local, isto é, ao modo de viver a História (p.117). O nexo entre a História e a vida cotidiana nem sempre está claro. Não se pode reduzir uma à outra. Para descobri-lo, sua pesquisa segue pela margem da sociedade, pela particularidade aparentemente insignificante dos homens comuns – e que como insignificantes são tratados pela ciência (p.120) – por onde passam as formas e conteúdos dos grandes processos históricos, quase sempre ocultos e invisíveis. Desse modo tanto enriquece a compreensão da História como enriquece a consciência histórica daqueles que anseiam encontrar o seu destino no destino do gênero humano (p.117).
Desse ponto de vista, faz-se a crítica da história que se baseia na leitura economicista dos documentos e, com isso, perdem-se outros dados que mediatizam a inserção do homem comum nos processos históricos. A história da escravidão nos canaviais e cafezais, por exemplo, reduz a realidade do negro em cativeiro exclusivamente ao trabalho escravo, pela sua inserção no processo de produção não capitalista do capital. Há sempre outros tantos aspectos da realidade profunda que se distribuem nas atividades produtivas e não produtivas. E ainda,
Se entendermos que a memória não é apenas a recordação verbalizada, então há muito mais a considerar. A memória do passado, isto é, das experiências sociais passadas e dos antepassados, se inscreve nos gestos, nos gostos, na audição, nos sotaques, no paladar, no olfato, nos cheiros (MARTINS: 2012, p.129).
Opara era o segundo livro de Esmeraldo Lopes Gonçalves e, depois desse, escreveu outros, embrenhando-se cada vez mais na região. Como que retornando, adentrou Curaçá, na Bahia, município da margem do rio São Francisco, onde ele nasceu e se criou. Mas do ponto de vista da série cronológica dos livros, afasta-se cada vez mais da experiência própria para, transformar a si e a sua escrita capazes de deixar vir o trançado do lugar. Quando escreveu Caminhos de Curaçá, em 1999, e que na cidade, no beiral das portas, e no interior, num banco sob um pé de pau60, as pessoas liam e comentavam o livro, pensou meio atônito: parece que escrevi um livro de ‘autoajuda’.
Se desfazer o rosto é um grande feito, é porque não é uma simples história de tiques, nem uma aventura de amador ou de esteta. Se o rosto é uma política, desfazer o rosto também o é, engajando devires reais, todo um devir-clandestino (DELEUZE & GUATTARI: 1996, p. 58).
As geopolíticas do conhecimento, que Castro-Gómez e outros (2002) abordam, se articulam a partir de uma consciência de um lugar distinta da inconsciência do lugar nas teorias que se creem universais61. Com a emergência do sistema moderno colonial global, que coincide com a expulsão dos muçulmanos da península ibérica e a conquista das Américas, outros modos de ver o mundo foram subalternizados. E esclarecem, como fruto dos últimos 500 anos
...a escrita alfabética e o domínio colonial constituíram uma narrativa dominante da realidade cuja perspectiva representa a si como universal, ainda que se trate de conhecimentos particulares, resultantes dos interesses e contextos histórico-sociais em que o conhecimento se produz62.
O avanço do capitalismo na Europa exigia normalização dos corpos e dos espíritos para torná-los produtivos. E é aí que se insere o colonialismo. O perfil do sujeito “normal” (homem, branco, proprietário, trabalhador, letrado, instruído, heterossexual,...) requeria a imagem de um “outro” situado fora do espaço europeu. O normal como contraponto do selvagem das Américas, África, Ásia. Os que estão fora ainda estariam vivendo o espaço da barbárie. O Renascimento, pois, não pode ser considerado como um fenômeno europeu, nem separado da economia-mundo. Constituiu-se numa linha de fuga frente à cultura teológica medieval, mas não ao capitalismo.
60 Pé de pau é uma expressão corriqueira na região, quando se quer referir a uma árvore qualquer, independentemente de qual seja.
61 Tradução livre de: ... se articulan entonces desde una consciencia del lugar distinto a la inconsciencia del lugar em las teorías que se creen universales (Castro-Gómez e outros: 2002, p.12).
62 Tradução livre de: ... la escritura alfabética y el dominio colonial constituyeron una narrativa dominante de la realidad cuya perspectiva se representa como universal aunque se trate de conocimientos particulares, resultantes de los interesses y contextos histórico-sociales en los que el conocimiento se produce (SCHIWY, Freya. In: CASTRO-GÓMEZ e outros: 2002, p.105).
Só que a história da colonização continua até hoje, por outros meios. A Europa trata de deixar no passado a exploração colonial. A produção material associada à industrialização, para quem os conhecimentos tradicionais eram um entrave ao desenvolvimento, já não é mais o centro estratégico do capitalismo. O capital vale-se da produção imaterial, baseada nos símbolos e informações, e impõe-se sobre a diversidade cultural, genética, de enunciação e produção de conhecimento. O crivo agora é outro, o que interessa ao capital é válido, o resto assume o lugar da “doxa”. Uma estratégia universalizante, não exclui mais o “outro”, pelo contrário, o incorpora à sua perspectiva, essa é a referência (nada mais do que aquilo que interessa a reprodução do capital).
A compreensão dos processos que condicionaram e condicionam a hierarquização do conhecimento tece-se por uma rede de estudiosos das ciências sociais. Boaventura Sousa Santos, português; Catherine Walsh, americana; Santiago Castro-Gómez, colombiano; Freya Schiwy, alemã... Junto com as populações colonizadas, fazem a crítica ao seu campo teórico – as ciências sociais – e experimentam metodologias, linguagens, tecnologias de produção e apresentação dos discursos, como por exemplo, a possibilidade de um diálogo crítico entre diferentes comunidades interpretativas, buscando deixar para trás o estabelecimento de uma hierarquia entre elas e assim conectar os conhecimentos e as ciências sociais com sujeitos reais63.
São muitos, então, os que se debatem nesse meandro do saber dominado, colonizado, silenciado. Certas iniciativas são um furo n’água, como aponta Albuquerque Júnior (1999), quando a história regional está presa à dizibilidade regionalista e à rede de poderes que sustenta a ideia de região como referencial válido para instituir um saber, um discurso histórico (p.29). Nesse caso não haveria outra história, pois o estatuto regional não deixaria de reproduzir as formas do saber e poder dominantes.
Há, por outro lado, o desafio de decifrar a História em meio a uma sociedade dividida de muitos modos, um mosaico de tempos e espaços sociais. Uma explicação dos processos históricos pelo todo concreto será sempre pobre e incompleta. Assim compreendendo, impõe-se como necessária a história local.
Outras iniciativas têm ainda que se ver com as suas próprias ciências:
Na opinião do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, as ciências sociais contemporâneas se encontram frente ao desafio de realizar uma segunda ruptura epistemológica. Se a primeira ruptura, realizada nos séculos XVIII e XIX, se deu frente à
63 Tradução livre de: ...la possibilidad de um diálogo crítico entre diferentes comunidades interpretativas, buscando dejar atrás el estabelecimiento de uma jerarquia entre ellas y así conectar los conocimientos y las ciencias sociales con sujetos reales (Castro-Gómez e outros: 2002, p.15).
“doxa” dos saberes tradicionais, a segunda deve fazer-se frente à primeira, quer dizer, frente à hierarquia dos conhecimentos produzidos pela episteme moderna64.
Diferentes perspectivas vão lançando expedições pela história. Esmeraldo Lopes não participa de nenhum grupo de estudiosos. Já tentou, mas por algum motivo a sua “independência” criou dificuldades. Seguiu sozinho e diz por aí que é melhor assim. Não é que seja um autodidata pura e simplesmente. Seus aliados são outros.
Tenho a certeza que ela [sua última obra] também não é nada, porque embora a maioria das pessoas tenha a capacidade de fazer nada com remuneração e sem muito sacrifício ou sacrifício nenhum, e ao mesmo tempo pegam o nada feito para apresentá-lo como feito grande, eu fiz este feito com muito sacrifício e tenho certeza que ele é alguma coisa. E a coisa, feita exclusivamente à custa de minhas disponibilidades financeiras e materiais, de cortes em minha própria carne, do roubo do meu tempo de descanso, do meu tempo de ócio, do meu tempo para conversar coisas sérias e besteiras, para beber cerveja e para o mais que pudesse ter sido. Inclua-se aqui também o tempo que pedi emprestado aos caatingueiros que me concederam entrevistas, dispuseram-se a jogar conversa fora, acataram a solicitação ou se ofereceram para caminhar pelos chãos de seus lugares mostrando as coisas, respondendo perguntas, aturando minhas inconveniências e que me receberam ou me agasalharam em suas casas (GONÇALVES: 2012, p.6).
Por esse caminho, é mesmo melhor chegar só.
Interessa neste momento trilhar a escrita de Esmeraldo Lopes. Como sociólogo, graduado em São Paulo e mestre em Recife, guardou interesse e domínio sobre as teorias estudadas. Preza a análise do campo social dividida em infra e superestrutura; a preponderância das relações de produção, coisa e tal. Como catingueiro, leva um jeito meio desajeitado e rude dentro das formalidades dos ambientes e mais à vontade lá pelos matos. Esmiúça as informações65, pois ao que parece, quer deixar tudo como foi bem contado, antes que seja tarde demais. Nisso é mesmo pessimista. Segue por um lado aquelas condições do poder/saber que distribuíram e fizeram uma região geográfica, sociocultural, e, ao mesmo tempo, vai atrás de algo que se bate na aspereza da paisagem sem nunca conquistá-la.
A cada vez é como se se aproximasse mais e mais e tocasse, pegasse, vagasse nesse chão. Quando menos se espera, num certo ponto do caminho, parece que a tristeza o abate, como quem andou, andou e não acha que tenha saído do lugar numa história sem
64 Tradução livre de: en opinión del sociólogo portugués Boaventura de Sousa Santos, las ciencias sociales contemporáneas se hallan frente al desafió de realizar una segunda ruptura epistemológica. Si la primera ruptura, realizada en los siglos XVIII y XIX, se hizo frente a la “doxa” de los saberes tradicionales, la segunda debe hacerse frente la primera, es decir, frente a la jerarquia de los conocimientos planteada por la episteme moderna (Castro-Gómez e outros: 2002, p.12).
65 O livro Opara..., é bom lembrar, serviu de prova, por volta do ano de 2000, ao processo judicial em que
remanescentes indígenas reivindicavam a posse de umas terras. Esmeraldo Lopes foi obrigado a depor como testemunha.
futuro. Em outro ponto, se joga com fúria contra os vetores da trama histórica, chora dois choros, o que foi e o que não foi e poderia ter sido. Mas de um jeito ou de outro persiste.
Nem sempre os acontecimentos se desenrolam obedecendo o limite de bitola e o ordenamento de caminho, e muitas vezes são fruto de contingências várias que se combinaram sem prévio acordo dos fatores que lhes fizeram possíveis e que se sucederam no tecer caótico dos jogos de força, no enfrentamento das intempéries, na convivência entre arrumados e situações variadas. E quando buscamos compreendê-los, acabamos organizando-os e tomando-os em feitio e feição fabricados pelo nosso ver. Depois, a mutilação dos acontecimentos por novas ocorrências, o seu desfalque pela ação do tempo. No fim, o que se avista são os vultos de destroços depositados pela história, às vezes sob a forma de partículas mínimas, esbandalhados nos caminhos. Olhando-se para eles, defronta-se com o desarrumado, desconexo, isolado. Impossível recompô-los, reordená-los na integridade de suas ocorrências, combinações e situações (GONÇALVES: 2012, p.4).
A tarefa árida e espinhosa é como adentrar na caatinga, é preciso estar atento às suas nuances.
Seu caminho de escritor vem se desenhando e desenhando e aí vão aparecendo Figuras. E, por escrito, vai achando jeito de dizer o tempo do lugar. Para a Figura não há um espectador, mas uma testemunha do seu acontecimento.
É narração, descrição, análise e interpretação impregnada de impressões, costuradas e alimentadas com imaginação, pois não tratei apenas do que vi, ouvi ou deduzi, mas também do que percebi pelo caminho do sentimento, do que pode ter sido. Também não é uma obra literária. É outra coisa que não sei o que é66.
De certo modo, o autor testemunha algo que não decorre dessa formação histórica e social, dessa estrutura, mas que atua para se derramar nela, tomar seu próprio rumo. E como autor, e como escrita, por sua vez, aqui e ali vem escorrendo das estruturas gramaticais e analíticas, atuando como as Figuras, criaturas testemunhas de seus escritos, que o têm conduzido na pesquisa, na língua, na sustentação de uma outra perspectiva diferente da historiografia predominante, aquela que torna o tempo do lugar secundário, primitivo, arcaico, pobre, enfim, desinteressante e o ignora.
Agora, é reunir forças, tomar um ar, para imergir na longa história de Opara e rapidamente atravessá-la tendo avistado as Figuras que acompanharão o que virá a seguir, neste trabalho de tese. (Para evitar uma poluição gráfica, as citações do livro Opara... aparecerão apenas com o número da página do exemplar impresso. Os demais livros desse autor e de outros serão devidamente referenciados).
66 Em seu último livro, Catingueiros e caatinga – a agonia de uma cultura, embora bem diferente do primeiro, Esmeraldo Lopes apresenta seu trabalho deixando mais claro o que ali em Opara já era possível vislumbrar.