Seria o caso de incluir justamente no currículo uma formação para isso? Quer dizer que, faça parte do currículo do aluno também, haja um espaço entre uma disciplina e a aula específica para essa orientação. Considera isso interessante?
- Lia
Eu acho interessante, mas eu acho que se você for pensar em currículo, pensa um pouco no currículo de escola pública e nos outros currículos de escolas todas? É acho que falta tanta coisa, falta tanta coisa, entendeu. Então, não se valorizam tantas áreas do conhecimento, as inteligências múltiplas que a gente tem e ficam defasadas. Faltam coisas de cidadania, de conhecimento dos povos, faltam coisas sobre sexualidade. Falta tanta coisa, por exemplo, economia doméstica, economia pessoal.
Pode-se encaixar tanta coisa! Mas eu acho que de verdade só vai ter efeito se for alguma coisa em longo prazo. Um conhecimento meio seqüencial. Eu acredito que essas intervenções. Por exemplo, vamos chamar alguns alunos para o curso. Acho que é válido, entendeu. Mas acho que o ideal seria se fosse algo mais. Porque é difícil, porque o Estado é muito grande. As escolas públicas são muito grandes e se for um projeto com começo, meio e fim, que não pare no meio, que não seja abortado em certo momento. Pois temos a tendência de fazer isso, começa empolgado e depois interrompe.
- Laurindo
Lia, obrigado Claudia pela sua participação. - Lia
Ok.
3. Entrevista realizada com a professora Ana - Laurindo
Ana, obrigado por você participar dessa conversa, dessa entrevista, de sua contribuição também com a pesquisa. Na semana passada, quando conversávamos, você que há alguns anos você trouxe algum trabalho sobre educação sexual para a escola. Curiosamente estava com a diretora e me mostrou a produção de materiais de produção feita por alunos. É oportuna essa idéia de desenvolver a reflexão, a pesquisa, com os alunos. Queria saber de você: como é esse trabalho da educação sexual na escola. Conte um pouco.
- Ana
Na verdade depende de cada série em que o aluno está. Tenho muito prática em trabalhar com a 5ª série. Há 14 anos que eu leciono para essa série. A gente fala sobre a higiene do corpo, as partes do corpo, a sensibilidade com que o organismo reage sobre alguns estímulos do ambiente. Certas reações são iguais para todo mundo. Na 8ª série também se trabalha mais. Entramos na parte do sistema nervoso junto com o sistema endócrino. Envolve relacionamentos, também. Eles começam a ter desejos pelas colegas - se bem que ultimamente, também na 5ª série já começa. As meninas passam a utilizar batonzinho.
- Laurindo
Isso é planejado? Você coloca no seu planejamento, no seu plano de aula? Como é isso? Quanto tempo você trabalha com essa temática?
- Ana
No planejamento tem lá, por exemplo, dos itens relacionados com a água em Ciências na 5ª série, e, você acaba fazendo como se fosse uma atividade extra, como um tema transversal. Depois volta quando se fala em qualidade de vida e acaba falando sobre o assunto higiene.
E os alunos te procuram para conversar, tirar dúvidas. Querem saber como é isso. Eles perguntam mais para os colegas. Você percebe que eles fazem.
Às vezes surge um apelido que alguém dá na sala de aula. Nessa faixa de idade eles se apelidam muito por qualquer coisa, quando não encontram algum defeito no colega, pegam do defeito da mãe. Acabam dando o apelido para ele e aí se trabalha aquela palavra. Tem alguém que faz alguma pergunta ou outra, mas não me procurando para esclarecimento.
- Laurindo
E, normalmente onde você acha que eles buscam respostas às questões deles, nesse desenvolvimento?
- Ana
Acho que entre eles, lendo revistas, na televisão. - Laurindo
Na família? - Ana
Na família acho que muito pouco
Pouco, porque a gente tem casos na escola de alunos que vêm, a gente percebe, cheirando mal. Acho que a mãe nem liga muito. A aluna descobre a menstruação na escola, a mãe nem sabe. A gente percebe que ainda não foi conversado, que um dia aconteceria e a menina descobre na escola. Leva um susto, e se pergunta: será que estou ferida com alguma coisa.
- Laurindo
Entre os professores seus colegas, você acha que eles são procurados? Os alunos também tiram algumas dúvidas com alguns professores?
- Ana
Alguns colegas acham que sim. Não sei qual é o diálogo que eles têm. Há professores que têm filhos, que não é o meu caso, então eles perguntam se é casado, se têm filhos. Sempre perguntam. Aí eles preferem unir o perfil que gostariam de perguntar.
- Laurindo
Quando você faz uma abordagem planejada, ela tem mais efeito. Surge uma questão, aí você trabalha. O que pensa disso: uma coisa muito planejada ou menos planejada?
- Não é muito planejada. É mais planejada para o Ensino Médio porque têm um planejamento, por exemplo: doenças sexualmente transmissíveis. Faz parte do Plano. Então, é uma coisa planejada. Quando é uma coisa maçante, repetitiva, eu procuro montar grupos, que vão desenvolver os temas e eles apresentam.
- Laurindo E eles gostam? - Ana
Aqui na escola há uma semana que é tradicional, que é a Semana Cultural, na qual se desenvolvem vários temas. Envolvemos os alunos para participar e eles aderem muito a esse projeto. Às vezes eles escolhem os temas. Agora com nova proposta veio o tema câncer para desenvolvermos. Então, um assunto vai puxando outro. - Laurindo
Quando no ano você trabalha isso? Segundo semestre, primeiro? - Ana
Sobre o câncer, será abordado quando tratar do útero, câncer de mana na mulher e câncer de próstata nos homens. Aí acaba falando um pouquinho do corpo. A parte de comportamento é pouco trabalhada.
- Laurindo
Você acha que a escola pode desenvolver mais a formação da educação sexual? Como você percebe? É o suficiente?
- Ana
Eu acho que a escola pode desenvolver mais, e acho que as escolas precisariam ter mais alguns parceiros assim para ajudar, porque têm pessoas que têm mais práticas em estar conversando, pois só fazem isso. São pessoas que têm materiais adequados. A gente trabalha no que é possível. Pedem para que tragam imagens. Eles gostam muito de fazer em DVD, de produzirem um trabalho.
- Laurindo
Eles lidam bem hoje com essas questões? - Ana.
Eles gostam. Essas questões, por exemplo, de sexualidade, têm algumas questões que espantam os alunos. Em sala, na relação entre eles, surge alguma coisa diferente, eles estranham.
- Laurindo
Eles lidam numa boa todas as questões que aparecem. - Ana
Percebo que se eles se aceitam muito bem pelo menos ali na sala de aula, depois em casa, individualmente, como cada um pensa, eu não sei como dizer. Mas acho que entre eles, eles se respeitam, não tem nenhum problema. Aqui eu não vejo uma pessoa que fica isolada, hostilizada por algum o motivo, eu não vejo isso não.