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[...] Quem trabalha direto no policiamento ostensivo está sujeito a se corromper por influência da remuneração que recebe, por ganância ou até por necessidade. (grifos meus).

(PM 03- Cabo - Feminino -17 anos de serviço).

[...] Hoje é extremamente hostil, reticente, tenso, sujeito à violência, impaciente com exacerbação do sentimento de ódio tanto por parte do poder público quanto por parte daquele que está sendo abordado ou daqueles que praticam o delito.

(PM 02- Coronel RR - 23 anos de serviço).

O universo da rua tem um significado importantíssimo na ação policial, aliás, é o lócus privilegiado da sua ação, mas é um espaço pouco pensado e refletido. Um universo repleto de tensões, de valores, de representações, onde cada segundo na ação policial pode representar uma vida, e toda vida pode passar em um segundo, tanto quando se está com uma arma na mão ou na mira de uma dela.

[...] É na rua, em meio às situações conflituosas que policiais militares tomam decisões sob uma forte pressão psicológica, decisões essas que vão dar rumo as suas vidas que podem ser positivas causando alivio ou negativas trazendo transtorno para si e para os seus. De certa forma a condição das situações são colocadas de forma cruéis e desafiadoras a condição humana deste policial.

(PM 04- Soldado - Feminino- 03 anos e 07 meses de serviço).

Muitos policiais relatam que o universo da rua há pouco tempo para pensar, ele remete para a ação, que o coração começa a bater mais acelerado ao ouvir o chamado para atender uma ocorrência pelo rádio. Ou quando no momento de ronda, com olhar cauteloso identificam as pessoas que irão abordar. Quem está preparado para viver isso diariamente e tão intensamente? Como manter a saúde mental?

Uma ação não refletida e não analisada tende a repetir-se, e a não-reflexão da ação na vida policial pode resultar no ferimento e morte de pessoas. Sem pensar, essas mortes podem tornam-

se banais. Com diz um oficial que já respondeu judicialmente por 15 homicídios: “[...] depois do

primeiro, você se torna insensível [...] É como aquela cena do filme Tropa de Elite, você está falando: oi, amor, com sua mulher ao telefone e acabou de matar alguém”. Pode-se dizer que o próprio sistema judiciário colabora para essa banalidade, quando nesse exemplo o policial diz que

foi absolvido em todos os casos e que “não dá em nada, porque era tudo ladrão”.

Esse mesmo policial conta que uma vez estava em uma ocorrência com refém, e lembrou que tinha feijoada no quartel. Como a ocorrência com refém está no processo de negociação, ele

chegou com o comandante da operação e perguntou: “[...] Chefe, posso logo acabar com isso?”

policial, ele diz que depois percebeu que precisava sair da unidade onde estava trabalhando, pois tinha matado só para comer feijão.

Ele ainda completa que muitos policiais são heróis nas comunidades, devido ao número

de “bandidos” que eles já mataram e cita um caso de um oficial que já respondeu mais de 40

processos, sendo absolvido em todos e acrescenta que se ele se candidatar a vereador seria prontamente eleito, porque “ele só elimina vagabundo” e deixa a comunidade satisfeita.

Outros policiais vão indicar que atividade de rua brutaliza os policiais:

[...] Muitas vezes, o policial em serviço reproduz a cultura da rua, ou a cultura da marginalidade, aquela que ele convive dia a dia, está presente diariamente na rotina policial, possibilitando inclusive maior desenvoltura policial, quando utilizada na melhor forma, o trabalho da PM está localizado numa fina linha entre o lícito e o ilícito, logo, a polícia fatalmente passa por lá.

(PM 09 - Major - 16 anos e 10 meses de serviço).

Existe uma falsa máxima que a rua influencia a atividade operacional em uma via de mão única. Precisamos trabalhar para conscientizar os policiais no sentido de que também a sua atuação influencia no universo da “rua”.

(PM 08 - Major- 15 anos e oito meses de serviço).

Arendt (2004, p.158) diz que a maneira mais segura para um criminoso nunca ser descoberto e escapar da punição é esquecer o que fez e não pensar mais no assunto. Também por isso, pode-se dizer que, “[...] antes de mais nada, o arrependimento consiste em não esquecer o

que se fez, em voltar ao assunto”.

Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram. Sem lembrança, nada consegue detê-los. Para os seres humanos, pensar no passado significa

movimento, atividade de reflexão, pressupõe “[...] mover-se na dimensão da profundidade,

criando raízes e assim estabilizando-se” (ARENDT, 2004, p. 159).

O maior mal não é radical, não possui raízes e, por não ter raízes, não tem limitações, pode chegar a extremos impensáveis e dominar o mundo todo [...] Em outras palavras, ao conceder o perdão, o que se perdoa é a pessoa e não crime; no mal sem raiz, não resta nenhuma pessoa a quem se poderia perdoar. (ARENDT, 2004, p. 159-160).

Refletir sobre a sua atividade é essencial, visto que para muitos PMs a rua é lugar de aprendizagem, como relata o entrevistado:

[...] A rua é a verdadeira escola, quem não passou pela rua não pode ser considerado policial de verdade.

[...] Transforma-se num cotidiano perigoso onde o policial, ao se acostumar com a violência, acredita ser aquilo uma coisa normal, o que nem sempre é.

(PM 24 – Soldado- 1 ano de serviço).

[...] Somos poucos para atuar dentro desse universo, somos poucas estrelas dentro de uma constelação de problemas a serem resolvidos, não somos super-heróis.

(PM 22- Cabo – 15 anos e 3 meses de serviço).

É necessário pensar as pausas na ação policial, um policial não pode estar “direto na rua”, deve existir uma política de remanejamento de espaços de trabalho e de locais, assim como espaços de acompanhamento e reflexão da sua ação profissional, mas não como algo punitivo, como já foi determinado por meio de uma resolução do Conselho de Segurança Pública do Estado, onde cada policial que estivesse envolvido em ocorrência que resultassem em mortes, deveria ter um atendimento psicológico, mas que fracassou como medida. A reflexão deve ser motivada como necessária para a preservação da saúde mental do policial, permeada por uma postura democrática, participativa e dialogada para ter boa receptividade e efeitos produtivos.