Del II Forslagene
9.9 Avgifter på utslipp av klimagasser
9.9.1 Avgifter i klimapolitikken
A função estrutural e estruturante do desvio presente nos Papéis acentua-se em Desmedida, livro que constitui, no fundo, uma contínua digressão, como, aliás, lhe cabe, por ser um conjunto de crónicas escritas ao longo de uma viagem pelo Brasil. Numas páginas introdutivas, nas quais expõe as razões da escrita, o narrador declara tencionar escrever um livro ―[q]ue remetesse para os domínios em que [se] mov[e], mas admitisse derivas‖ (Carvalho 2006: 42). A ideia de deriva parece apropriada para representar o percurso de um texto que, mais uma vez, é fruto de uma viagem, com todos os imprevistos e desvios que esta pode trazer e que, certamente, terão alguma influência sobre ele: ―Livros, sertões, viagens e famílias... Um programa completo. Fazer do São Francisco um itinerário de observações e de leituras, de acercas e de a-propósitos, uma articulação galopante de casos e de comentários, de ideias e de palavras... Razões bastantes para fazer um livro e aceitar um convite‖ (idem: 44). As continuidades, contiguidades e convergências entre temas, histórias e personagens permitem ao narrador juntar materiais heterogéneos num texto em que a própria ideia de
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A natureza fragmentária do texto perante o desejo de totalidade do livro é várias vezes apontada por Derrida como fonte de uma tensão inultrapassável: ―L’idée du livre, c‘est l’idée d‘une totalité, finie ou infinie, du signifiant. [...] L’idée du livre, qui renvoie toujours à une totalité naturelle, est profondément étrangère au sens de l‘écriture. [...] Si nous distinguons le texte du livre, nous dirons que la destruction du livre, telle qu‘elle s‘annonce aujourd‘hui dans tous les domaines, dénude la surface du texte.‖ (Derrida 1967: 30-31).
centro e de linearidade é rejeitada logo à partida por não ser funcional às exigências da escrita, sobretudo por ser escrita de viagem. E, na segunda metade do livro, esta configura-se, tal como nas outras obras de que temos estado a falar, como uma escrita para alguém, logo calibrada conforme as necessidades do seu destinatário, pois ―[t]alvez a questão seja sempre, afinal, a de tentar não perder de vista para quem se quer falar‖ (idem: 225).
A relação entre o problema da destinação e o do desvio emerge com toda a clareza no episódio que marca a transição da primeira para a segunda metade do livro. De facto, embora Desmedida se possa considerar um conjunto de digressões, cujo fio condutor é a viagem pelo São Francisco acima, acompanhada pela reflexão sobre o Brasil a partir de uma perspectiva angolana – e, por conseguinte, sobre as relações entre os dois países –, a súbita decisão de interromper a viagem e voltar a Angola ―para meter as [...] notas em ordem‖ (idem: 164) constitui um tipo de desvio diferente dos que vimos até agora, por se tratar de uma decisão tomada conscientemente pelo autor e não de um acontecimento inesperado que mudou o curso da viagem – e do livro – malgré lui. Trata-se de um momento fulcral, uma vez que o desejo repentino de regressar a Luanda e de ir ao sul visitar pastores responde não apenas às necessidades do autor enquanto sujeito, mas sobretudo do autor enquanto narrador que precisa de determinadas condições para levar a cumprimento a sua tarefa, pois:
chegou agora para mim, aqui, o tempo de pagar um tributo à minha maneira de me situar na coisa. Poderia talvez tentar passar à frente, de lado ou por cima, e prosseguir o relato desta viagem delegando na sua própria dinâmica a configuração que viesse a tomar. Mas [...] para avançar no livro precisaria não ter que continuar a deter-me na ponderação dos implícitos, na necessidade de não escrever como se o eventual destinatário para aquilo que escrevo estivesse plenamente na posse dos pressupostos da ideia que me levam a ver e a escrever assim. Vou precisar, de facto, sentir-me à vontade para discorrer como bem entendo. (idem: 163, itálico meu).
As expressões que sublinhei nesta passagem remetem para dois pontos centrais e interligados, que examinámos nos capítulos anteriores, o da autocolocação e o da destinação, que voltam com frequência nas obras do autor, mostrando a sua profunda coerência no que diz respeito a problemáticas constantemente referidas na sua reflexão sobre a escrita e sobre a construção do livro. A autocolocação, entendida como necessidade do sujeito da ficção de ocupar um preciso lugar no espaço – bem como nas dinâmicas inter-relacionais que nesse espaço se articulam –, a partir do qual é possível organizar a narração confirma, então, o seu papel enquanto força propulsora dentro da obra de Ruy Duarte.
Neste ponto, parece escusado recordar que a relevância destas problemáticas deriva da sua capacidade de determinarem o destino do livro, que só poderá avançar em determinadas condições, que implicam uma deslocação do autor para terrenos familiares, finalizada à orientação da narração para uns destinatários – os pastores do Sul, entre os quais Paulino –, cujos conhecimentos e potenciais interesses ele pode, à partida, prever, pressuposto que lhe permitirá evitar ponderar os implícitos que o tinham preocupado na primeira metade do livro. A exigência de ter uma relação directa com os destinatários não constitui novidade nenhuma nas narrativas que nos estão a ocupar, sendo, pelo contrário, mais um dos aspectos que, em conjunto com a problemática da autocolocação, caracterizam a obra de Ruy Duarte como uma obra em que a reflexão sobre si próprio e sobre o seu lugar no mundo é sempre acompanhada pela necessidade de se confrontar com o outro, como o episódio do espelho narrado nas Paisagens muito bem demonstra. Neste sentido, como já várias vezes foi repetido ao longo deste trabalho, a relação com os destinatários configura-se como uma relação dialógica em que a reacção do interlocutor, ainda que silenciosa, é a condição essencial para que o acto narrativo tenha lugar.
Para concluir, gostaria de chamar a atenção para o facto que a nova situação, criada pelo regresso a Luanda, causa um desvio que é não só geográfico, mas também temático, pois
Angola aqui passa a funcionar não apenas como termo de comparação da realidade brasileira, mas como verdadeiro objecto da narrativa, cedendo o seu lugar na conversa ao Brasil só na parte final do livro. Desta maneira, a obsessiva inscrição de Angola no panorama do livro acaba por tornar a viagem pelo Brasil uma espécie de pretexto para, na verdade, falar mais uma vez de Angola, que é, como se sabe, o que realmente interessa ao autor. E o desvio, que antes defini como o contraponto do pretexto, desempenha aqui exactamente esta função, porque, afastando o autor do pretexto do livro – o seu falso centro – e leva-o para outros caminhos, que são os que garantirão, tal como nos Papéis e na Terceira Metade, a sobrevivência do livro, arrastado por uma deriva incessante, que é o que o torna possível.