3. INDIREKTE SKATTER 1 Skatter og avgifter for lastebilnæringen
3.12 Avgift på sluttbehandling av avfall, kap. 5546 post 70
Para os investigadores da microssociologia da escola de Chicago, seguidores do modelo teórico de Goffman, a imagem ou ethos (coletivo ou individual) tem sempre como referência um imaginário social, que implica um determinado comportamento que se espera de cada um dos atores sociais que nela participam. No entanto, cada sujeito tem a sua própria forma de atuar, dentro da função social que lhe é atribuída. E uma das componentes pelas quais esta forma pessoal de incarnar um dado papel social é mostrada é pelo discurso. Esta é uma questão que tem interessado, para além dos cientistas sociais, os linguistas no campo da Semântica e Pragmática do Discurso. Toda a representação social é mais ou menos permeável à manifestação da individualidade no sujeito que assume uma função social. Mas a manifestação desta individualidade depende do grau de rigidez das normas pelas quais se rege a sociedade onde vive. Deste modo, o ethos individual do locutor-narrador ou a imagem de si que passa ao seu alocutário, vai sendo construída, melhor dizendo atualizada, à medida que profere aquele o seu discurso, pelo seu alocutário (entidade a quem o narrador dirige o seu discurso) através daquilo a que Amossy (1999:19) chama de ethos discursivo, inspirando-se em Aristóteles. A este ethos discursivo
está subjacente a ideia de “ethos pré-alable” (Amossy1999:19) ou ethos prévio, ou pré-discursivo isto é, a imagem prévia que o auditório, um alocutário – que poderá ser o leitor no caso do narrador de um texto literário –, tem do locutor antes de este proferir um discurso, isto é, no momento antes de usar da palavra (Aguiar, 2013:15). Para Amossy, este ethos pré-alable tem muito a ver com a perspetiva dos retóricos clássicos latinos (Cícero e Quintiliano), que já abordámos no ponto1.1 e que diziam que o
ethos se constrói na mores, isto é, no quotidiano. Para Amossy (2010), cada imagem de si, para usar
agora o termo inerente à área das Ciências da Linguagem, é construída com base na referência a um conjunto de imagens/representações preexistentes do locutor, que vão sendo atualizadas pelo alocutário ao longo do discurso que locutor vai emitindo, modificando o primeiro a sua perceção, à medida que vai incorporando os novos dados que lhe são fornecidos. Mas essas representações mentais assentam em estereótipos. Amossy (2010:46) define ainda estereótipo como «...répresentation collective figée, un modèle culturelle qui circule dans le discours et dans les textes », o qual ajuda o alocutário a pré-definir a imagem do locutor, dentro de um contexto cultural específico. O conjunto destas representações pré- discursivas que ajuda o a construir a imagem de si ou ethos do locutor fazem parte de um determinado imaginário sócio-discursivo comum a uma determinada comunidade, isto é, uma doxa – este é mais um conceito que Amossy vai buscar à retórica clássica o qual se opõe ao conceito de epistheme; ou o equivalente ao conceito de “opinião pública” em oposição ao “conhecimento científico” (Amossy, 2010:46). Este conceito será, depois, articulado com o conceito de “dialogismo”, ao efetuarmos a análise dos diversos pontos de vista presentes no discurso dos quatro narradores nos capítulos II e III. Os diversos pontos de vista presentes no texto literário são dados pelos diferentes enunciadores, quer de forma explícita (discurso direto) quer implícita (discurso indireto, indireto livre, Pris-en-charge ou PEC e Quasi-PEC que explicaremos mais adiante sob a perspetiva de Alain Rabatel) pelo locutor (não nos esqueçamos que o mesmo locutor pode incorporar o ponto de vista de vários enunciadores no seu discurso), podendo afastar-se ou aproximar-se do pensamento estabelecido nesta doxa. Sendo o conceito de estereótipo uma representação coletiva fixa, estilizada, abstrata e generalizante, que poderá ou não provir de uma voz doxal, este apresenta-se como:
«...un modèle culturel qui circule dans le discours et dans les textes. Il favorise la cognition dans la mesure ou il découpe et catégorise un réel qui resterait sans cela confus et ingérable. Le sujet ne peut connaître le monde sans
catégories pré-établies, il ne peut agir dans la vie quotidienne que s'il ne lui est pas possible de ramener la situation nouvelle à un schème d'ores et dejá connu.» Amossy, 2010:46)
Estas “categorias pré-estabelecidas”, estereótipos portanto, tornam-se “úteis” para o alocutário, pois permitem-lhe simplificar a realidade, que passa a ser mais facilmente captada, processada e interiorizada pelos membros de uma dada comunidade, à qual pertencem tanto o locutor como o alocutário e que usam esse mesmo estereótipo como referência em situações análogas. Paradoxalmente, o conceito de estereótipo tem sido alvo de duras críticas precisamente por apresentar a realidade de forma demasiado esquematizada, impedindo, por vezes, a perceção da realidade em todas as suas especificidades ou nuances, podendo por essa razão tornar-se redutor ou mesmo distorcer a realidade:
«...le stéréotypage révèle ses effects nocifs quand il s'attache à l'image des groupes sociaux et même à juger un individu en le reduissant à l'image simplifié, sinon faussée du groupe dont il fait partie. (…) Les dêgats sont plus importants que le stereotype s'avére difficile à eradiquer et que les schèmes collectifs figés sont peu propices au changements.» (Amossy, 2010:46)
No entanto, a categorização de tipos sociais e psicológicos em estereótipos, decorrentes do processo de fixação e representação mental é, apesar das desvantagens referidas, indispensável à construção da identidade do sujeito, uma vez que este processo se desenrola tendo um dado sistema de valores pela qual se rege a comunidade. Estes dois conceitos, estereótipo e doxa, estão subjacentes ao tema central dos quatro textos do nosso corpus, sobretudo nos dois textos narrados em primeira pessoa, no capítulo III, “Azul-cobalto” e “Walker Brothers Cowboy” onde a relação imagem da “mãe” foge ao estereótipo da figura tradicional da mãe, terna e carinhosa, aproximando-se quase da figura das madrastas dos contos de fadas.
Pode-se dizer que o narrador-locutor aufere de uma liberdade relativa ao construir a sua identidade e que essa liberdade de construção da sua auto-imagem varia, porém, em função do género discursivo em que se movimenta (Amossy: 2010:49). No texto literário, que é o nosso objeto de estudo, isto é ainda mais evidente. Na verdade, o mais comum é que, na maior parte das situações, não se verifique a
manifestação de todos os traços ou características que possam corresponder ao estereótipo: é o que passa por exemplo com as mães das narradoras dos contos “Azul-cobalto” e “Walker Brothers
Cowboy”. Nos outro dois, “O Silêncio” e “The Lady in the Looking-glass: a Reflection” dá-se a
desconstrução de uma perceção da realidade assente numa visão do mundo estereotipada que não corresponde à realidade.
É necessário ter em conta ainda as dimensões para-verbais no discurso do locutor-narrador e que podem vir também mencionadas no texto literário como a mímica, linguagem corporal ou o tom de voz, que podem vir a reforçar ou não uma determinada imagem de si, passada pelo locutor-narrador.