Uma leitura rápida da Terceira Secção da Fundamentação pode nos dar a impressão de que, neste texto, Kant não avança propriamente no terreno da filosofia prática. Pois, à medida que a liberdade vai sendo afirmada mais e mais como condição (ratio essendi) da moralidade, mais se “evidencia” a impossibilidade de explicar a realidade objetiva da liberdade. Ora, que a realidade da liberdade não pode ser explicada o leitor da Crítica da razão pura já sabia. Não obstante, para defender a liberdade prática, Kant precisa do resultado da Crítica no que diz respeito à solução da antinomia “necessidade x liberdade”. Com efeito, na Crítica da razão pura, Kant mostra que não há verdadeira contradição entre liberdade e necessidade natural. Aliás, este argumento é de competência exclusiva da filosofia especulativa. Então, no contexto da fundamentação da moralidade, Kant pressupõe que entre liberdade e necessidade natural não se encontra nenhuma verdadeira contradição. Por assim dizer, ele “acrescenta” à definição negativa da liberdade a vontade como faculdade positiva, como causalidade dos entes racionais, como “[...] faculdade de agir de tal modo que o princípio das ações seja conforme ao caráter essencial de uma causa racional, quer dizer, à condição da validade universal da máxima como lei” (FMC, BA 119). Mas, mesmo com este elemento adicional, Kant não pode explicar ainda como a razão pura pode determinar a vontade de um ente racional finito independentemente de toda e qualquer condição sensível, ou matéria da vontade. E, assim, a liberdade “vale somente como pressuposto necessário da razão num ser que julga ter consciência duma vontade, isto é duma faculdade bem diferente da simples faculdade de desejar (a saber, a faculdade de se determinar a agir como inteligência, por conseguinte segundo leis da razão, independentemente de instintos naturais)” (BA 120/121). O próprio subtítulo introduzido na última parte
da Terceira Secção da Fundamentação indica o reconhecimento de Kant do “Limite Extremo de Toda a Filosofia Prática”, e, no texto correspondente, Kant nota a impossibilidade de “explicar como é que a razão pura pode ser prática, o que seria a mesma coisa que explicar como é possível a liberdade” (BA 120).
Contudo, o que pode a primeira vista parecer uma fraqueza no argumento kantiano mostra-se cada vez mais claramente como a única resposta possível da Filosofia Prática com relação à fundamentação de um princípio prático puro - ainda que, neste contexto, Kant não tenha ainda isso claro e suficientemente estabelecido -, e à demanda da razão por unidade. A não explicabilidade da liberdade é o único modo de Kant permanecer com a razão, mesmo em seu uso prático, dentro de limites já previamente estabelecidos (Cf. Crítica da razão pura e Prolegômenos). Embora Kant defenda que, com a razão prática nos transpomos para uma ordem inteligível, “uma ordem de coisas totalmente diferente da dos [nossos] apetites no campo da sensibilidade”, ele deixa claro que esta operação da razão ocorre apenas em pensamento. Assim, se, por um lado, o puro pensamento de uma ordem inteligível, a qual podemos representar apenas pela idéia da liberdade (da vontade), pode parecer, a princípio, muito pouco para admitirmos a validade do imperativo categórico, por outro, este pensamento é tudo o que a filosofia prática pode oferecer para defender a validade de um princípio moral, pois, do contrário, a razão mesmo em seu uso prático, ultrapassaria seus próprios limites, criticamente estabelecidos, e recairia num uso dogmático . A seguinte passagem é significativa a este respeito.
[Pois] nós nada podemos explicar senão aquilo que possamos reportar a leis cujo objeto possa ser dado em qualquer experiência possível. Ora, a liberdade é uma mera idéia cuja realidade objetiva não pode ser de modo algum exposta segundo leis naturais e, portanto, em nenhuma experiência também, que, por conseqüência, uma vez que nunca se lhe pode subpor um exemplo por nenhuma analogia, nunca pode ser concebida nem sequer conhecida” (FMC, BA 120).
Por isso ao “introduzir-se pelo pensamento num mundo inteligível, a razão prática não ultrapassa em nada os seus limites [como razão pura]; mas [que] ultrapassa-los-ia se quisesse entrar nesse mundo por intuição, por sentimento” (BA 118). E o que pode parecer uma deficiência do argumento da dedução do princípio moral, uma falha na própria tentativa de Kant de apresentar uma dedução para o imperativo categórico, mostra-se, afinal, como mérito da Filosofia Crítica, e manifesta
a coerência do pensamento de Kant expresso na Fundamentação e na primeira Crítica.
No contexto da Fundamentação, o que Kant oferece ao seu leitor não é, propriamente, a explicação da realidade da liberdade, mas apenas sua defesa, a qual pressupõe, primeiramente, a repulsão das objeções daqueles que pretendem ter visto mais fundo na essência das coisas e, por isso, atrevidamente declaram a liberdade impossível” (BA 121). Mais do que refutar as possíveis objeções acerca da possibilidade da liberdade, é preciso afirmar positivamente esta possibilidade. Mas, afirmar positivamente a possibilidade da liberdade é tudo o que Kant pode fazer, já que nenhuma explicação ou demonstração da liberdade é possível. E como a liberdade é condição da moralidade, também a dedução do imperativo categórico consiste apenas em poder “[...] indicar o único pressuposto de que depende a sua possibilidade, quer dizer a idéia da liberdade”, e igualmente poder “aperceber a necessidade deste pressuposto, o que para o uso prático da razão, isto é para a convicção da validade deste imperativo, e portanto também da lei moral, é suficiente” (BA 124). Kant conclui a Terceira Secção da Fundamentação da Metafísica dos Costumes afirmando que nós não podemos saber como é possível a liberdade prática enquanto “princípio causal” das ações morais, posto que mesmo a razão prática (pura) pode contar apenas com a idéia (transcendental) de liberdade, da qual nada podemos saber.
Uma vez mais, podemos questionar: se não há dedução da liberdade, e se a validade do imperativo categórico depende da possibilidade de nos considerarmos como livres, é de se perguntar pela legitimidade da (pretendida) dedução do imperativo categórico. Como resposta a isto, Kant aponta para o limite da filosofia prática, que coincide com o limite da própria razão pura em geral, e assim vislumbramos que a liberdade prática, pressuposto do qual depende necessariamente a possibilidade do imperativo categórico, encontra-se justamente no limite da razão, pelo que pode ser indicada sem riscos como pressuposto racionalmente fundado para a lei moral. Se reconhecemos, no limite da razão, o “lugar” da liberdade prática, isto é, o “terreno aplainado” no qual ela repousa, podemos entender por que para responder como é possível um imperativo categórico, Kant argumenta não só a partir da solução da dialética da razão necessidade/liberdade, mas, principalmente, com a condição sine qua non desta solução, a saber, a distinção (transcendental) de todos os objetos em phaenomena e
noumena aplicada aos próprios entes racionais. Esta distinção possibilita a Kant o recurso legítimo ao “mundo inteligível” como o lugar da (causalidade pela) liberdade da vontade sem ultrapassar os limites da razão.
Contudo, esta incursão de Kant pela filosofia especulativa para poder indicar, pelo menos, o lugar da liberdade prática no sistema da razão pura parece não ter sido bem compreendida pelos contemporâneos de Kant. No Prefácio da segunda Crítica, Kant ressalta a acusação que pesou sobre ele de incoerência com relação à doutrina exposta na primeira Crítica: a incoerência de defender a validade objetiva de princípio supremo da moralidade com base no pressuposto da liberdade prática, posto que o uso supra-sensível das categorias foi terminantemente contestado pela razão teórica. É certo que, na Fundamentação, o argumento de Kant não é suficientemente claro para que o leitor possa facilmente separar o uso prático do uso especulativo da razão. E, então, o limite da razão especulativa que deveria ser visto como um resultado altamente favorável à filosofia prática é considerado como um obstáculo à própria liberdade prática, provavelmente por não ter sido compreendido em toda sua extensão (por ser entendido não como limite, mas, como barreira - conforme distinção de Kant que encontramos no § 57 dos Prolegômenos). Kant, então, na Crítica da razão prática procura esclarecer como ele pôde “contestar realidade objetiva ao uso supra-sensível (teórico) das categorias e, contudo, conceder-lhes essa realidade com respeito aos objetos da razão prática pura” (CRPr, A 8). O filósofo mostra-se consciente das dificuldades implicadas nesta questão, as quais são mais inerentes à própria natureza de um princípio prático incondicionado do que à argumentação esotérica de Kant.