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A promoção da alimentação saudável é uma questão muitas vezes esquecida no planeamento e implementação de programas que visam a melhoria das condições de trabalho, quanto à segurança e saúde ocupacional. Estudos indicam que estas intervenções específicas podem levar à adopção de hábitos alimentares saudáveis dos trabalhadores no local de trabalho, transpondo estas aprendizagens para o ambiente familiar e social.

As cartas e declarações desenvolvidas neste âmbito apresentam falhas relativas à descrição de estratégias específicas para as acções de promoção de estilos de vida saudáveis. Torna-se assim importante a definição de recomendações alimentares específicas para os vários tipos de actividade profissional, discussão do papel dos empregadores e de acções que resultem na obtenção e manutenção de estilos de vida saudáveis.

Foram desenvolvidas declarações que visam sensibilizar para a importância das acções na saúde no local de trabalho, mas que não focam a importância da alimentação e da actividade física para obtenção deste objectivo, designadamente

a Declaração de Lisboa. (15) No entanto, a promoção de hábitos alimentares saudáveis e da prática de actividade física são tão importantes para a saúde e segurança no local de trabalho, como as acções que protegem contra os riscos e perigos existentes neste local (químicos, poeiras, barulho, etc.). Desta forma, será possível prevenir os problemas de saúde, aumentar o bem-estar e a moral dos trabalhadores, bem como a produtividade e competitividade das empresas.

A legislação portuguesa ainda é escassa no sentido de regular e promover estas acções, com a agravante de a sua consulta ser ainda de difícil acesso.

O papel do ferro no aumento da actividade laboral, permite compreender a importância dos micronutrientes na alimentação dos trabalhadores. Assim sendo, o apoio à alimentação saudável deve passar não só pela limitação de alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sal, mas também pela promoção de alimentos com maior valor nutricional.

Embora o abuso de bebidas alcoólicas tenha efeitos significativos na saúde e produtividade, muitos empregadores contam apenas com normas escritas, em vez de programas de educação que sensibilizem e combatam o problema, de modo a solucioná-lo. A legislação portuguesa sobre o álcool permite o consumo de 1 bebida alcoólica no momento da refeição principal (25 cl de vinho ou 33 cl de cerveja), (40) no entanto, está provado que, o consumo moderado de bebidas alcoólicas, tem uma relação com a incidência de acidentes laborais, (41) devendo por isso ser equacionada a sua proibição, principalmente nas actividades de trabalho de maior risco.

Estudos efectuados em diferentes zonas do mundo demonstraram que as refeições realizadas fora de casa contribuem para uma alimentação menos saudável. (26, 57, 67) Geralmente, nestas circunstâncias, os consumidores têm

pouca influência na porção servida e na composição nutricional dos pratos. Adicionalmente, o tamanho das porções tem vindo a aumentar significativamente, ao longo dos anos. Este facto pode encorajar uma maior ingestão através de vários mecanismos psicológicos. (57) A relação quantidade/preço é muitas vezes menor, induzindo os consumidores a realizarem as suas escolhas baseados no preço e não em necessidades nutricionais. (57)

As refeições servidas fora de casa apresentam, na maioria das vezes, uma composição nutricional com altos teores de gordura, sal e açúcar, tornando-as organolepticamente mais apetecíveis. (57)

Actualmente, a maioria dos trabalhadores realiza as suas refeições fora de casa. Assim, é necessário adoptar medidas que combatam esta tendência, passando pela diminuição das porções servidas, aumento dos preços das refeições menos saudáveis e diminuição dos mesmos nas opções alimentares mais saudáveis.

O estabelecimento de guidelines claras nos locais onde os trabalhadores realizam as suas refeições é essencial para a promoção de hábitos alimentares saudáveis.

Segundo Mcabe-Sellers et al menos de 50% da população norte-americana pratica realmente o nível recomendado de actividade física. Menos de 25% consome 5 ou mais peças de fruta e hortícolas por dia e 58,9% ingerem mais do que o teor recomendado de gordura saturada, apesar da vasta disseminação de informação, através dos órgãos de comunicação social. (68) Torna-se assim essencial desenvolver os programas de promoção de saúde que promovam a adopção de hábitos alimentares saudáveis. Segundo o Nutrition Resource, 70% dos empregados apoiam o envolvimento dos seus empregadores em programas

de promoção da saúde no local de trabalho e 85% acreditam que estes programas podem aumentar a saúde e diminuir os gastos relativos a esta. (2)

Tentar perceber e influenciar positivamente as escolhas alimentares é um processo extremamente complexo. A alimentação é essencial para a vida e constitui um papel integrante das diferentes culturas. É um dos comportamentos relacionados com a saúde, mais pessoal e potencialmente privado do ser humano. Ser capaz de perceber, com precisão, como o ambiente envolvente afecta as decisões relacionadas com os alimentos e com a alimentação, constitui uma tarefa muito complicada e provavelmente impossível. (56, 69, 70)

As escolhas individuais são influenciadas por uma grande variedade de factores ambientais e individuais. (56) Existem três dimensões relacionadas com as escolhas alimentares: as características organolépticas, o valor (que inclui a relação entre o preço e o tamanho da porção) e a composição nutricional/calórica da refeição. Os alimentos variam muito ao longo destas dimensões, bem como a importância delegada por cada indivíduo a cada uma delas. Por exemplo, indivíduos com baixo poder económico podem dar uma maior importância ao valor, enquanto que aqueles que dão mais importância à saúde terão em conta a qualidade nutricional dos alimentos. (57)

Existe assim a necessidade de alertar os consumidores para a escolha de alimentos/refeições com boa qualidade nutricional.

A educação nutricional permite aos consumidores realizarem escolhas informadas. (26, 46) Existem evidências científicas que comprovam o aumento do consumo de determinados alimentos saudáveis, após a sua promoção através de intervenções de educação alimentar. (57, 71) Verificou-se também que os utentes consideram a informação nutricional útil e muitos deles a utilizam no seu

quotidiano, na realização de escolhas alimentares. (72) Sugere-se que, tal como existe informação nutricional no rótulo dos alimentos pré-embalados, também exista nos menus de restaurantes, ementas, produtos presentes em máquinas de venda automática, bares, etc. Só assim o trabalhador/consumidor poderá fazer uma selecção informada dos alimentos que ingere.

Para além dessa informação relativa à composição dos produtos alimentares, as instalações destinadas ao consumo alimentar podem constituir um bom local para comunicação de outras informações úteis para as escolhas alimentares. (72)

Um estudo realizado por Buscher provou que as escolhas dos utentes são influenciadas quando estes conhecem a informação nutricional relativa às suas escolhas alimentares. (73) Os consumidores podem tolerar melhor as alterações relacionadas com o sabor dos alimentos quando estes são rotulados como “saudáveis” e a informação nutricional é disponibilizada. (74)

Campbell et al demonstraram que a adaptação e individualização das informações melhora a eficácia das mensagens. (49) Bowen e Beresford comprovaram que, de modo geral, o aconselhamento individual realizado por profissionais resulta em maiores níveis de mudança, do que estratégias destinadas a grupos populacionais. (56) No entanto, este método não é viável no combate e prevenção das doenças relacionadas com a alimentação, nomeadamente as DCNT, devido ao número limitado de indivíduos abrangidos e às suas restrições económicas. As intervenções de educação, baseadas no uso de recursos tecnológicos, demonstraram ser mais eficazes uma vez que, através do uso de software, é possível adaptar a informação transmitida aos indivíduos, assegurando que as mensagens são do seu interesse e estão adaptadas às suas necessidades. Porém, esta estratégia pode funcionar em pessoal administrativo

que trabalha diariamente com computadores mas, em trabalhadores de uma unidade de produção, como por exemplo, uma fábrica é necessário equacionar outros veículos de comunicação colectivos.

Estudos relatam que a informação nutricional pode ter um efeito benéfico em escolhas alimentares mais saudáveis, quando estes realizam refeições fora de casa, embora este efeito seja limitado em magnitude. (75) Este resultado reflecte a natureza multifactorial das escolhas alimentares. A educação nutricional por si só não é suficiente para que ocorram alterações nos hábitos comportamentais dos indivíduos, é necessário realizar mudanças ambientais que permitam facilitar a escolha de alimentos saudáveis. A utilização de listas de verificação para avaliar as condições ambientais é uma ferramenta útil, que poderá ser equacionada, desde que adaptada à realidade de cada empresa.

Está provado que a distribuição gratuita de fruta, pode incentivar o seu consumo. (26, 48, 57, 76) Em Portugal, esta prática já se verifica em várias empresas, devendo ser uma acção apoiada pelas empresas, em conjunto com a distribuição de outros produtos alimentares como por exemplo, lacticínios ou snacks de vegetais. (77-79)

Reduzir os preços das opções alimentares saudáveis é comprovadamente um bom método de apoiar o seu consumo. (57, 75) Contudo, é necessário encontrar, em conjunto com as empresas de restauração colectiva, uma solução viável para a redução dos preços que satisfaça ambas as entidades envolvidas. (57) Torna-se assim necessário adoptar medidas que promovam a manutenção ou aumento dos lucros, através da adopção de novas estratégias.

Na avaliação da eficácia dos programas, onde se implementam a redução dos preços ou a disponibilização de alimentos mais saudáveis, é necessário verificar

se o aumento das vendas se deve a uma alteração dos comportamentos dos utentes habituais ou a uma adesão de novos consumidores (por exemplo, quando se introduz um prato vegetariano numa ementa, podem aderir ao mesmo pessoas que anteriormente trariam a sua alimentação de casa).

Estabelecer intervalos de trabalho adequados é fulcral para garantir uma boa nutrição dos trabalhadores. Definir intervalos de tempo simultâneos para toda a comunidade de trabalhadores poderá resultar numa grande afluência às instalações destinadas à aquisição ou consumo de refeições, levando a que o tempo determinado para a pausa do trabalho, seja dispendido no período de espera e não na alimentação, ao contrário do que seria desejado. Uma das soluções apresentadas passaria pela divisão dos horários dos trabalhadores, para que as refeições fossem realizadas em horários desfasados.

Os intervalos curtos levam a que estes os funcionários não tenham tempo para despender na linha de aquisição ou distribuição de alimentos, assim como na procura de um local adequado para a realização da refeição. Estas limitações de tempo conduzem muitas vezes a aquisição de alimentos prontos a comer, designadamente sandes, que geralmente não cumprem as necessidades nutricionais dos trabalhadores. Em alternativa, os indivíduos podem trazer os alimentos de casa, o que poderá ser prejudicial no que concerne à segurança alimentar, no transporte e armazenagem dos mesmos.

A escassez de tempo pode incentivar o consumo de refeições, prontas a comer, no próprio local de trabalho. Este factor pode constituir um risco em termos de segurança alimentar devido à contaminação das superfícies.(80) Deve ser apoiado a criação e venda, no local de trabalho, de produtos prontos a comer com melhor qualidade nutricional e salubres.

O número limitado de empregados a laborar em determinado turnos, nomeadamente no nocturno, não permite que seja viável o funcionamento constante das cantinas, refeitórios e bares. Estes são obrigados a recorrer às máquinas de venda automática, levando a que a predisposição para o consumo de alimentos com maior densidade energética aumente. (59) Existe assim a necessidade de criar opções mais saudáveis, que incluam refeições quentes (como por exemplo sopa), hortícolas e frutas. (2, 48, 56) A necessidade da criação destas mudanças ambientais está aumentada, uma vez que para este regime de trabalho o recrutamento e a permanência dos indivíduos se tem verificado difícil.

(59)

Harrington identificou as melhorias nos serviços de catering e nas instalações recreativas como sendo factores de melhoramento, a curto prazo, nos problemas nutricionais causados pelos trabalhos por turnos. (59)

As escolhas alimentares dos trabalhadores em regime de trabalho por turnos são obviamente influenciadas por factores externos, assim como os horários e a disponibilidade da comida.

As características das empresas poderão influenciar o tipo e a eficácia do programa. Estas podem diferir quanto ao tamanho, número de trabalhadores, localização, poder económico e interesse que eventualmente poderão ter na melhoria das condições de trabalho e da saúde dos seus trabalhadores.

A sensibilização das empresas para a importância de intervenções para a promoção da saúde é essencial, pois sem a sua aprovação e colaboração, não é possível garantir a sua implementação e sucesso. A intervenção deverá ser sempre realizada por um especialista em nutrição, podendo integrar uma equipa mulltidisciplinar constituída pelo médico do trabalho, enfermeiro, responsável dos

recursos humanos, psicólogo, representante dos trabalhadores, ou outros. Quando as empresas têm serviços organizados de higiene, saúde e segurança no trabalho, este tipo de intervenção poderá ser também integrada no programa de saúde ocupacional.

Os locais de trabalho com um número reduzido de trabalhadores têm menor probabilidade de oferecer programas de promoção da saúde, sendo essencial desenvolver estratégias adequadas e atractivas para os empregadores e funcionários deste tipo de empresas. As limitações económicas e a ausência de instalações destinadas à alimentação podem ser alguns dos entraves encontrados para a implementação destes programas.

Os horários das refeições são por norma mais organizados nos grandes locais de trabalho, uma vez que os trabalhadores podem substituir-se mutuamente sempre que necessário.

São necessários mais estudos que avaliem quais os incentivos e acções que promovem a implementação deste tipo de programas em pequenas empresas.

Nas empresas sem limitações económicas ou geográficas, as cantinas poderão constituir a melhor opção. Estas representam um espaço onde a qualidade das refeições e as condições de ambiente podem ser controladas.

Eva Roos et al demonstraram que a realização de refeições nas cantinas dos trabalhadores está associada com uma melhor qualidade da sua alimentação. As cantinas dos locais de trabalho servem refeições quentes e incluem hortícolas na sua composição, servindo regularmente pratos de peixe, podendo apoiar o consumo destes alimentos. (67)

De forma a aumentar a eficácia dos programas implementados é necessário trabalhar com as empresas que distribuem as refeições, para que estas cumpram

as recomendações estabelecidas pelos programas, em matéria de composição nutricional das refeições, (81) variedade de alimentos saudáveis disponibilizados e regulação de preços das refeições. Quando se trata de empresas de restauração colectiva subcontratadas, este tipo de obrigações devem ser incluídas nos requisitos dos cadernos de encargo, assim como capitações adequadas à população alvo.

Contudo, é necessário fazer algumas considerações sobre o tipo de serviço apresentado nas cantinas. Segundo um estudo que comparou as cantinas com serviço de buffet e à la carte, verificou-se que as primeiras encorajam as pessoas a combinar diferentes opções, incluindo saladas, frutas e snacks de hortícolas, podendo assim aumentar a variedade da refeição. (48) Este estudo apresenta limitações, pois não se encontra descrita a forma como os hortícolas foram consumidos pelos participantes, os métodos de confecção, se lhe foi adicionada gordura e qual o tipo e quantidade adicionada, que molhos estavam disponíveis, etc. As cantinas com um serviço a la carte podem promover a ingestão de frutas e hortícolas, utilizando como estratégias a venda de uma refeição, em conjunto com uma salada ou fruta, a preço fixo, podendo este ser menor, do que nos outros pratos. No entanto, existem evidências científicas que relacionam a variedade (das cantinas com serviço do tipo buffet) com uma maior ingestão de alimentos. Este aumento deverá ser desprezado caso corresponda a uma maior ingestão de fruta e hortícolas, devido à composição nutricional destes alimentos (grande volume, alto teor de água e baixa densidade energética). (48)

Os refeitórios e as kitchenettes apresentam uma variedade alimentar geralmente menor do que as cantinas, uma vez que o equipamento disponível é mais limitado do que numa cozinha de maiores dimensões, podendo

comprometer a qualidade organoléptica dos alimentos (sabor, textura, aroma e cor). Se estas instalações não se adequarem às características da empresa (número de trabalhadores, locais reservados, sem ambientes poluídos, poeiras, barulho, odores, etc.) não atingirão o objectivo desejado, levando à fraca adesão por parte dos trabalhadores. (2)

O comércio local pode constituir uma alternativa nutritiva e económica. Estas opções são boas para o sector de trabalho informal, como o da construção civil ou outras actividades laborais semelhantes que não tenham infra-estruturas de trabalho. A Food and Agriculture Organization (FAO) e a OMS têm levado a cabo acções que visam melhorar a segurança alimentar do comércio de rua. (2) Nestes casos, a localização do trabalho está em constante mudança e as condições em que se efectuam as refeições variam de local para local, conforme o tipo de estabelecimentos e serviços disponíveis. É necessário ter este factor em atenção, pois se estas não apresentarem equipamento confortável e limpo, e um ambiente agradável, poderão afectar de forma negativa a qualidade da refeição.

No caso de grandes empresas de construção civil, por exemplo, justifica-se a utilização de “cantinas móveis”, adequada do ponto de vista de segurança alimentar e com condições de conforto para os seus trabalhadores realizarem as suas refeições.

Para que as acções de promoção da saúde alcancem a eficácia desejada é necessário garantir a adesão e participação dos indivíduos ao longo do programa.

(56, 82)

A escolha da população alvo e sua caracterização poderão servir para o planeamento de estratégias, assegurando que estas atinjam as necessidades, interesses e prioridades dos trabalhadores. (4, 52)

Existem algumas características dos trabalhadores que podem afectar a sua participação nos programas. Vários estudos comprovaram que os indivíduos do sexo masculino demonstravam menor preocupação com questões de saúde, quando comparados com os seus pares do sexo feminino. O nível de formação académico e o estrato social também parecem influenciar a sua participação nestas iniciativas e, consequentemente, determinar o seu sucesso.(52, 82)

Sorensen G. et al sugeriram que a abordagem de outras questões relacionadas com a saúde no local de trabalho nestes programas (como por exemplo, a exposição potencial a riscos ocupacionais) poderia constituir um bom método para aumentar a participação dos trabalhadores. (52)