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A indústria farmacêutica tem hoje um carácter global, mas é um fenómeno muito recente, dado a sua internacionalização só ter começado a ser dinamizada após a II Guerra Mundial. A implantação desta indústria à escala mundial seguiu o padrão tradicional do desenvolvimento das empresas multinacionais, tidas como as empresas que produzem, comercializam ou prestam serviços em vários países.

A passagem à qualidade de multinacionais, por parte das farmacêuticas, também seguiu as motivações gerais das restantes indústrias. Como primeiro factor, destaca-se a procura de novos mercados, por parte de empresas com uma forte vantagem competitiva interna, tipicamente relacionada com a tecnologia e com o reconhecimento da marca, e que se encontravam limitadas a um pequeno mercado nacional, como era o caso das empresas europeias. Acresce a estes factores a busca de custos de produção mais baixos, os quais podem ser conseguidos pela combinação de três factores, simultâneos ou não, a saber, redução de taxas aduaneiras, mão-de-obra mais barata e incentivos públicos ao investimento estrangeiro. (Bartlett, Ghoshal e Beamish, 2008)

Vários autores se dedicaram a justificar os motivos da internacionalização. Vernon (1966) desenvolve uma teoria que explica a maioria das internacionalizações feitas no período pós II Guerra Mundial. Estabelece a relação entre as motivações tradicionais para a internacionalização e o ciclo de vida dos produtos. Nesta teoria, uma empresa inicia o seu processo de internacionalização a partir de uma inovação que criou no seu país. Numa primeira fase, a empresa investe em fábricas locais para manter juntas a I&D e a produção, sendo a exportação residual. Com a maturação do produto, a sua estabilização e a melhoria do processo de produção, as exportações para outros países desenvolvidos aumentam e passam a ser uma fonte importante de receitas. Com o intuito de preservar a posição competitiva e servir de forma mais eficiente o mercado estrangeiro, a empresa inovadora instala unidades de fabrico nesses países. Por último, o produto normaliza-se e muitos concorrentes entram no mercado. A concorrência passa a basear-se no preço, e por inerência, foca-se também no custo, o que leva, então, as empresas a deslocalizarem a produção para países em desenvolvimento, com salários baixos. Estes últimos tornam- se os exportadores e os países desenvolvidos passam a ser os importadores.

Na indústria farmacêutica a competição pelo preço aumentou com a introdução dos estudos de avaliação farmacoeconómica, os quais permitem quantificar a vantagem económica dos novos medicamentos, comparativamente com os restantes medicamentos de igual indicação terapêutica. A necessidade de conter o aumento da despesa em medicamentos, sem limitar o acesso à saúde da população, levou a que alguns países introduzissem “…mecanismos legais que levaram a indústria farmacêutica a apoiar os seus pedidos de comparticipação e, nalguns casos, de aprovação dos preços em estudos de avaliação económica.” (Pinto, 2010, Pag.414) Portugal e Finlândia foram os primeiros países da Europa a desenvolverem orientações metodológicas oficiais, tendo a avaliação económica de medicamentos sido institucionalizada, em Portugal, em 1998. (Pinto, 2010) Para a maioria das empresas, a globalização da indústria farmacêutica levou ao aumento do tempo que medeia entre o fim da investigação e o início da comercialização dos medicamentos. Como um novo medicamento necessita de autorização de introdução no mercado e os países têm diferentes requisitos, mesmo ao nível dos ensaios clínicos, quanto maior o número de países alvo que a empresa considera, mais tempo é necessário para a comercialização do novo medicamento, forçando as empresas a pensarem na sua organização a nível global. (Mosquet e Blaxill, 1996)

Inicialmente as operações internacionais eram vistas como um apêndice da empresa mãe e eram geridas oportunistamente, caso a caso. Com o desenvolvimento do negócio internacional e o aumento da sua complexidade, essa visão vai sendo alterada e as

empresas desenvolvem operações globais. As motivações primárias que levaram à internacionalização amadurecem ou deixam mesmo de existir e os mercados internacionais passam a ser geridos como parte de uma estratégia global.

A globalização permite a obtenção de economias de escala, ao nível da produção ou outro, possibilitando a diluição, tanto do aumento exponencial das despesas em I&D, como do encurtamento do ciclo de vida dos produtos. A internacionalização pode também ser motivada por uma capacidade de pesquisa e aprendizagem a nível global ou por um posicionamento competitivo de defesa em relação aos concorrentes, não só nacionais, mas também dos mercados concorrentes externos.

Para Bartlett e Ghoshal (2008), na indústria farmacêutica os segmentos mais lucrativos são os que requerem maior sofisticação das capacidades de I&D, distribuição e marketing por parte das empresas, para competirem no mercado. Há uma curva de valor dos medicamentos, que traduz a sua sofisticação tecnológica e que pode, muitas vezes, explicar o posicionamento dos intervenientes no mercado internacional, vendo-se que muitas empresas multinacionais de países periféricos entram no mercado global pelo fundo da curva de valor, e mantêm-se em último, por dificuldade de passarem para os estádios mais evoluídos.

Figura n.º 9 – Curva de Valor da Indústria Farmacêutica

Adaptado de Bartlett, Ghoshal, Beamish (2008, Pag.76)

A internacionalização é muitas vezes feita com produtos dos segmentos baixos da curva de valor, mesmo que no mercado interno a empresa concorra, com êxito, nos segmentos

falta de vontade. “Aos gestores falta a confiança nas capacidades da organização para escalar a curva de valor ou falta a coragem de afectar recursos a esse desafio.” (Bartlett, Ghoshal, Beamish, 2008, Pag.78) Na evolução da empresa, os gestores adoptam, por vezes, uma postura de defesa da sua posição pessoal, porque o sucesso da empresa na subida da curva de valor na inovação dos seus produtos aumenta o risco de takeover da empresa, podendo pôr em causa a sua sobrevivência pessoal. Noutros casos, falta à empresa a capacidade financeira para desenvolver a investigação necessária.