A década de 1980 foi o momento de grande mudança no panorama do fluxo migratório boliviano para o Brasil e, especialmente, para a cidade de São Paulo. Como dito anteriormente, bolivianos que entraram nessa época trabalham, em sua grande maioria, no setor de costura por ser um segmento do mercado de trabalho que não exige experiência e nem idade mínima para ser executado, por isso da incorporação de menores nessa atividade.
O que acontece é que, a partir das ilegalidades em que as relações desse trabalho se estabelecem, uma vez que não existe nenhuma regulamentação das leis trabalhistas, os empregados são expostos às condições insalubres de trabalho.
O modelo pelo qual o exercício do setor de costura se dá é o de acumulação flexível do capital, ou seja, a produção é determinada pela quantidade de peças que o trabalhador é capaz de costurar. A situação em que os bolivianos, ou grande parte deles, estão acondicionados são conduzidas por relações de parentesco, o que promove uma produção em família em que cada um exerce funções distintas, mas todas orientadas para a finalização das peças.
Do ponto de vista da nacionalidade de seus empregadores, grande parte deles são coreanos, brasileiros e até mesmo outros bolivianos e o produto final destina-se às lojas da cidade, sendo que boa parte delas possuem grande notoriedade da população.
Embora o ramo da confecção de vestuário tenha uma significância e grande visibilidade no que compete à ocupação profissional desses imigrantes bolivianos, esta não é a única atividade exercida por eles. Os bolivianos no Brasil, em especial na cidade de São Paulo também podem ser encontrados entre os profissionais liberais como médicos e dentistas. O problema que essas classes enfrentam, todavia, debruça-se nas complicações da revalidação dos seus títulos acadêmicos, sendo processos muitos lentos e custosos. O ramo de
46 serviços e do comércio ambulante também é exercido por muitos bolivianos que são, na sua maioria, indocumentados.
Em números, aproximadamente 44% dos bolivianos na cidade de São Paulo estão inseridos no setor de confecções de vestuário9, sendo que desse
percentual, 38% são operadores de máquina de costura. Todavia, há de se apresentar as outras atividades dessa variante profissional.
Ainda segundo o Censo 2000, são 3,8%, dos bolivianos ativos, que trabalham com comércio ambulante, 5,8% são médicos, 1,8% são dentistas e 1,3% dirigem empresas, como pode ser visto na tabela 2.2-1 a seguir.
Tabela 2.2-1: Ocupação principal dos ocupados bolivianos residentes na RMSP.
Ocupações Frequência %
Operadores de máquinas de costura de roupas 2.045 38,8
Médicos 306 5,8
Vendedores ambulantes 199 3,8
Trabalhadores polivalentes das indústrias de confecção de roupas 158 3,0
Vendedores e demonstradores em lojas ou mercados 158 3,0
Gerentes de produção e operações 143 2,7
Cirurgiões-dentistas 97 1,8
Trabalhadores dos serviços domésticos em geral 77 1,5
Trabalhadores agrícolas 75 1,4
Marceneiros e afins 74 1,4
Dirigentes de empresas- empregadores com mais de 5 empregados 71 1,3
Outros 1.869 35,5
Total 5.272 100,0
Fonte: Censo 2000, IBGE. *Ocupações descritas de acordo com a Classificação Brasileiro de Ocupações.
Conforme a tabela 2.2-2 a seguir, o percentual de bolivianos ocupados que trabalham por conta própria é de 42,2% e os que são empregados sem carteira assinada somam 31% sendo que 17,8% possuem registro de trabalho. Os trabalhadores que não possuem carteira assinada somam 1,4%.
9 As ocupações “operadores de máquinas de costura de roupas”, “trabalhadores polivalentes das indústrias de confecção de roupas” entre outras fazem parte da categoria intitulada “trabalhadores da confecção de roupas”, segundo a Classificação Brasileira de Ocupações, usada pelo Censo 2000.
47
Tabela 2.2-2: Posição ocupacional dos bolivianos residentes na RMSP, 2000.
Posição Frequência %
Trabalhador doméstico com carteira de trabalho assinada 14 0,2 Trabalhador doméstico sem carteira de trabalho assinada 73 1,4
Empregado com carteira de trabalho assinada 939 17,8
Empregado sem carteira de trabalho assinada 1.665 31,6
Empregador 356 6,7
Conta-própria 2.225 42,2
Total 5.272 100,0
Fonte: Censo 2000, IBGE.
Quantos aos seus rendimentos, a maioria dos bolivianos ocupados (40,3%) recebem até 3 salários mínimos. Ainda que se apresente uma condição de baixa renda, muitos bolivianos enviam boa parte de sua renda para familiares que moram na Bolívia.
Tabela 2.2-3: Rendimento na atividade em salários mínimos dos bolivianos residentes na RMSP, 2000.
Faixas de rendimento em salários mínimos Frequência %
De 0 a 2,99 SM 2.125 40,3
De 3 a 4,99 SM 1.239 23,5
De 5 a 9,99 SM 902 17,1
Mais de 10 SM 1.005 19,1
Total 5.271 100,0
Fonte: Censo 2000, IBGE.
Como já visto anteriormente, a década de 1980 foi marcada pela intensidade do fluxo migratório de bolivianos para o Brasil, sobretudo para a cidade de São Paulo. Concomitantemente, os anos de 1980 também foram marcados por grandes transformações de caráter econômico, podendo ser exemplificadas pela diminuição do processo de concentração industrial.
A cidade de São Paulo, bem como toda a Região Metropolitana (RMSP) na década de 1970 concentrava metade da força industrial de todo o estado. Em 1991 essa realidade passou para um terço, e atrelada a isso, o desenvolvimento do setor terciário.
48 Embora existam alguns autores que considerem essa condição como um processo de desconcentração, a cidade de São Paulo e toda a RMSP não perderam o status de centro financeiro e industrial do país.
É a partir dessa nova estruturação, ou reestruturação, do processo produtivo da economia de toda a RMSP que mudanças relevantes alcançaram o que tange à indústria da confecção10: sua produção, disposição de mão-de-
obra e distribuição espacial.
Historicamente, pode-se dizer que o ramo da confecção, que data por volta dos anos de 1950, tem seu destino ligado a três importantes vertentes: o desenvolvimento de grandes projetos industriais, a instauração dos bairros centrais da cidade, como Brás e Bom Retiro e a chegada em massa de imigrantes11 que se concentraram nessas regiões centrais.
Os bairros centrais Brás e Bom Retiro tiveram suas bases econômicas atreladas à produção têxtil e o fluxo migratório que se apresentava nesse momento foi o grande responsável por esse desenvolvimento e, mais tarde, pelas adaptações do espaço (regionalidade) e para o abarcamento dos próximos fluxos (FELDMAN, 2009, KONTIC, 2007 apud XAVIER, 2010).
Os anos de 1970 para a indústria têxtil, do ponto de vista organizacional, foi o momento em que novas formas de produção foram adotadas, diferentemente daquelas que se baseavam na verticalização da produção nas fábricas. Essa década apresenta significativas transformações tais como: a diminuição dessas fábricas, (passando de grande para pequeno ou médio porte), e mais interessadas no processo de criação, modelagem, cortes de
10 Embora a atividade industrial na cidade de São Paulo como em outros municípios da RMSP obteve uma desconcentração, o setor de confecção ainda é o segmento industrial que mais emprega na cidade.
11 Os primeiros imigrantes chegaram na cidade de São Paulo ao final do século XIX e início do século XX, sobretudo na década de 20. Entre suas nacionalidades destacavam-se italianos, judeus, espanhóis e portugueses, além de grupos menos expressivos como os sírios e libaneses (Xavier, 2010).
49 tecido e comercialização do produto final e a terceirização da mão-de-obra do processo de costura (serviços prestados por oficinas externas12).
O trabalho, basicamente, condiz à especialização, por parte dos estilistas, de um dado modelo de roupa e uma vez que os tecidos já estão cortados são distribuídos, em lotes, para várias oficinas de costura. Finalizadas, as peças voltam para as fábricas para que então sejam comercializadas.
A mão-de-obra constituinte da indústria de confecção de São Paulo era feminina e quem compunha o quadro eram migrantes internos (mulheres em sua maioria) que já dispunham de experiência do ramo da costura por virem de trabalhos das antigas fábricas desses bairros centrais.
A malha da distribuição das oficinas de costura na cidade de São Paulo hoje vem do processo de transporte do trabalho para o campo doméstico, conferindo, dessa maneira, um espalhamento da produção de roupas e um novo arranjo produtivo.
Grande característica desse novo arranjo é a participação veemente de grupos de migrantes internacionais, sobretudo coreanos, que são considerados os primeiros nessa atividade.
Os coreanos13, inicialmente, contratavam outros coreanos para
trabalharem em suas pequenas oficinas e o bairro do Bom Retiro também se transformava em região autossuficiente para a produção de roupas.
Quantitativamente, na cidade de São Paulo e outros municípios da RMSP, em 2000, foram contabilizados 150 mil costureiros (boa parte nordestinos) e dentro dessa representação, apenas 5 mil eram de origem latino-americanos.
A partir de tais dados parece, em um primeiro momento, irrelevante a presença boliviana no setor da costura, no entanto, vale salientar que desses 5 mil costureiros latino-americanos, 98% são bolivianos.
12 Com a terceirização do processo de costura, a lógica do trabalho assalariado dá lugar à forma de prestação de serviço. Consequência disso é a diminuição dos empregos formais nesse setor.
13 A apropriação da produção têxtil por parte dos coreanos vêm da transferência da base material econômica instalada por outro grupo migrante anterior a eles: os judeus.
50 Os bolivianos iniciam seus trabalhos nas oficinas de costura na década de 1980, como já foi dito, cujos proprietários ainda são os coreanos.
Posteriormente, os bolivianos passam a ter maior responsabilidade na produção quando os coreanos se voltam para outros setores (design) e com isso muitos coreanos acabam vendendo suas oficinas para os bolivianos.
A nova situação de proprietário de alguns bolivianos podem trazer certas contradições. Embora a propriedade sugira autonomia do processo produtivo, afrouxamento do tempo de trabalho e até mesmo certo status social, os bolivianos deparam-se com vulnerabilidades e pouca rentabilidade. Consequência desse sistema é a exploração cíclica14, ou seja, bolivianos
exploradores de outros bolivianos.
A hierarquização presente na relação entre coreanos e bolivianos está organizada em cadeias funcionais: os bolivianos recebem dos coreanos as peças a serem costuradas que então pagam por cada peça produzida. A função dos coreanos é a elaboração das peças (tendências, modelos etc), distribuição e comércio das mercadorias.
Alguns bolivianos também exercem o papel de comerciantes, em barracas, próximos ao Largo da Concórdia, na Feirinha da Madrugada e em outros pontos do bairro do Brás.
Quanto ao conhecimento básico do processo de costura exercida pelos bolivianos na cidade de São Paulo, o mesmo vem da experiência prévia nesse setor (cursos de costura) na cidade de El Alto, ainda que seja difícil dizer o que precedeu: a especialização em El Alto ou a demanda na cidade de São Paulo. Ainda que alguns venham com certo conhecimento do trabalho exercido nesse setor, muitos bolivianos ainda vem sem nenhuma experiência.
A principal característica que marca a diferença entre brasileiros e bolivianos é a participação ativa e intensa de homens bolivianos no processo de produção. As bolivianas também exercem tal atividade, mas competem a elas também o serviço de comercialização dos produtos, cuidar da casa e o café servido para os costureiros.
14 Embora haja pouco conhecimento, há exploração de outras etnias latino-americanas como paraguaios, peruanos e equatorianos.
51