A Literatura de cordel é uma forma de expressão popular que fez relativo sucesso no Brasil durante a primeira metade do século XX. Apesar do seu apogeu ter sido vivido neste momento, ainda hoje é possível adquirir essa literatura que continua sendo produzida no país. Tal cultura se desenvolveu principalmente no Nordeste, mesmo assim, se disseminou pelo resto do país, inclusive, chegando a terras paraenses.
A introdução e divulgação dos folhetos de cordel no Pará ocorrerá pela migração nordestina. Dois momentos serão significativos para esses migrantes: a segunda metade do século XIX e o período da Segunda Guerra Mundial. Nestes dois momentos ocorrerá a valorização da economia da borracha e muitos serão aqueles que irão em direção a Amazônia em busca de melhores condições de vida . Muitos serão aqueles que irão para os seringais e outros se adaptando ao meio citadino belemense e, assim, permanecendo morando na capital211.
Os folhetos, em todos os lugares, possuem, ainda hoje, um certo padrão em sua estrutura. Esta é fundamental para pensar a sua importância dentro do contexto. Uma das características dos livretos seria o seu baixo custo de produção. Visando atingir um publico menos abonado, intencionando baratear o produto final, algumas medidas eram propositalmente tomadas. O papel utilizado, por exemplo, era tipo jornal. As capas costumavam ser feitas com um papel melhor do tipo que é usado em embrulho comum. O seu tamanho, geralmente, segue as medidas de 11cm por 16cm. Seria como pegar uma folha de papel A4 e dividi-la em quatro pedaços. É por isso, portanto, que o número de folhas na poesia geralmente são múltiplos de oito212.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os folhetos ganham notoriedade por sua estrutura com rimas, a poesia falada, musicada que chamava a atenção. Muitos daqueles que seriam de camadas menos abonadas da sociedade e que, muitas vezes, correspondiam a analfabetos, acabavam dando mais atenção ao cordel do que propriamente pelos jornais para entender os fatos da Segunda Guerra. Devido à ausência de capacidade leitora, os iletrados possuíam como recurso a memorização, dessa forma, ao escutar os cordéis em seus repentes conseguem, ao mesmo tempo, conhecer um pouco da história da Segunda Guerra, seus personagens, ideais, e objetivos em disputa. Contudo, é preciso lembrar que o grande meio para se obter informações da guerra ou dos confrontos que se davam no outro lado do atlântico seria por meio dos periódicos que circulavam na capital213. Dessa forma, os poetas cordelistas obtinham a informação nas páginas dos jornais, se apropriavam do conhecimento de fatos e repercussões acerca do tema e depois escreviam seus versos das formas que lhes convinha.
211 MENEZES NETO, Geraldo Magella de. A Segunda Guerra Mundial nos folhetos de cordel do Pará. Monografia. Ufpa, Belém, 2008. p.3.
212 LUYTEN, Joseph. O que é literatura de cordel. São Paulo: Brasiliense, 2005. p.45
213 LACERDA, Franciane Gama. Imprensa e Poesia de Cordel no Pará nas primeiras décadas do século XX. Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, violência e Exclusão. ANPUH/SP – USP, 2008. p.3
Devido seu valor, essas poesias poderiam ser compradas por grupos dos mais variados poder aquisitivo. Segundo Geraldo Menezes Neto, os grupos populares possuíam preferência por essa literatura devido ser barata e, portanto, mais acessível. Afinal, os cordéis com sua produção menos onerosa eram vendidos a preços mais módicos do que jornais e revistas. Havia também a possibilidade da compra por analfabetos214. Mesmo sem ter a instrução necessária para fazer a leitura da poesia, deve-se levar em conta que a poesia teria certo ritmo e seria lida em voz alta, quando não, cantada. Com versos sendo entoados, a população iletrada poderia ter contato com o conteúdo carregado no livro. Além disso, é bom lembrar que o livreto, ou melhor, o folheto deve ser visto como um símbolo de conhecimento e cultura. Ter um livro, não significava necessariamente que o seu dono o tenha lido, mas, representava a valorização de determinada cultura material.
Elucidar o papel da oralidade é importante à medida que a leitura dos cordéis é feita em voz alta dentro de uma estrutura poética conhecida como repentes. Estes, devido suas rimas e jogo de palavras favorecem a memorização de quem os ouve. Essa característica é fundamental para pensarmos a importância do cordel neste contexto. O folheto é produzido essencialmente para grupos menos abonados da sociedade – não que isso implique dizer que tenha produzido exclusivamente para eles – onde predomina a população analfabeta. Como faltam os recursos para a leitura, ouvir o livreto contribuía para o conhecimento e discussões acerca da guerra e do que ela provocava215.
Como o Cordel pode ter atingido parte da população paraense nesse momento? Ora grande parte da população era composta por pessoas que não possuíam a competência da leitura. No ano de 1940 existiam cerca de 206 mil habitantes somente no município de Belém. Destes, cerca de 59% dos homens e 46,55% das mulheres, no Pará, não sabiam ler nem mesmo escrever, podemos inferir que esse número na capital também seria elevado216. Uma das hipóteses que podem ser criadas para justificar a aceitação em relação ao cordel é a sua forma de expor o tema. A linguagem de mais fácil compreensão, a forma fragmentária como
214 MENEZES NETO, Geraldo Magela. Os japoneses nos folhetos de cordel do Pará no período da Segunda Guerra Mundial. IV simpósio nacional estado e poder:intelectuais. São Luís, 2007.p.4
215 No século XIX, artesãos, charuteiros e alfaiates revezavam-se, quando não, contratavam alguém para ler jornais ou livros enquanto os companheiros trabalhavam. A leitura coletiva em alto e bom som, assim, acabava funcionando também como um entretenimento dos trabalhadores. Nesse momento, aqueles que exerciam o ofício de sapateiros eram envolvidos com o mundo da leitura, eram figuras intelectualizadas e politizados. Tal processo também pode ser compreendido para os leitores do ou ouvintes do Cordel. Cf. Darnton, Robert. O Beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução São Paulo: Companhia de Bolso, 2010, p. 183. Ver também: HOBSBAWM, Eric. Pessoas extraordinárias: resistência, rebelião e jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998. p.47 216 MENEZES NETO, Geraldo Magella. Por uma história do livro e da leitura no Pará: o caso da Guajarina, editora de folhetos de cordel (1922 – 1949). Dissertação. Belém. Ufpa, 2012. p. 85.
expunham as notícias tornavam o cordel mais atrativo que os próprios jornais da época que traziam um linguajar mais rebuscado, sem falar, que as poesias possuíam um custo menor que os periódicos sendo mais um fator de atração217.
Neste contexto, é possível perceber alguns fatores que levaram a literatura de cordel possuir um relativo sucesso na capital paraense. Os folhetos eram vendidos na capital geralmente em caixotes onde o consumidor poderia escolher o que lhe fosse mais interessante. Para pensar este item foi escolhido o livreto de Zé Vicente O Brasil Rompeu com eles que fez parte de uma coleção de uma série de folhetos dedicada a Segunda Guerra Mundial. Antes de adentrarmos a poesia em si, é necessário pensar o que está por trás da poesia, seu contexto, seu autor.