A partir do estudo sobre cultura, buscamos no seu correlato, cultura popular, as nuanças para entendimento de como o cordel, poesia narrativa em verso, expressão da produção do conhecimento do saber popular, tem expressado os saberes em torno do Nordeste. Por isso, neste item, deslocaremos nosso olhar para a cultura popular, seus sentidos, levando em conta o quadro teórico que aportamos, bem como as discussões que se tecem sobre ela.
Assim como cultura detém uma multiplicidade de sentidos, o termo “cultura popular” também suscita uma heterogeneidade muito grande de sentidos. Os estudos sobre cultura popular oscilam entre uma visão mais folclorista até uma concepção abordada a partir da história cultural.
À medida que, no âmbito das pesquisas concernentes à cultura popular, foi ampliado o campo de enfoque e interesse de seus estudos, o próprio conceito de cultura popular recebeu outras significações, sobretudo a partir da abordagem centrada no micro social, que possibilitou que muitos constituintes da vida cotidiana passassem a fazer parte do campo de análise da cultura popular.
A teoria proposta por Certeau (1995) acerca da cultura popular procura dar visibilidade à cultura de homens e mulheres comuns, pois, para o autor, os sujeitos sociais, oriundos das camadas populares, devem ser vistos como homens comuns que, através de suas artes de fazer, inventam e reinventam a cultura no cotidiano. O que lhe interessa (CERTEAU, 1994) são as práticas culturais e sociais produzidas no cotidiano, a representação que esses indivíduos assumem no social.
No nosso ponto de vista, não podemos nos reportar à cultura popular e lhe dar um sentido único, porquanto ela é produzida em diferentes lugares sociais e por diferentes sujeitos sociais. Reduzir a cultura popular a uma única definição é atribuir- lhe uma condição unívoca, sem perceber as diversidades que a marcam e sem reconhecer que ela mesma é fecunda de sentidos que podem ser ressignificados.
Não concordamos com posturas teóricas que acreditam no resgate da cultura popular. Se ela é resgatada, significa dizer que não se dinamizou através dos tempos. Por isso, acreditamos que a cultura popular se reinventa, por ser dinâmica, criativa e não amorfa. Ela recria-se através dos tempos nas experiências e produções cotidianas.
Guinzburg (1987), em seus estudos sobre cultura, tomando o itinerário e as proposições desenvolvidas por Bakhtin, chama à atenção para a reciprocidade e a influência entre a cultura considerada dominante e a das camadas subalternas, um processo a que ele denominou de circularidade cultural.
Guinzburg (1987), assim como Certeau (1996), parte da observação do cotidiano num momento historicamente definido e das práticas culturais nele realizadas pelos sujeitos sociais para pensar a cultura popular e como ela é construída no cotidiano da história dos grupos sociais em diferentes sociedades. Esses estudiosos trazem os sujeitos sociais comuns para o centro, procurando, a partir de uma minuciosa leitura de suas ações, refletir a respeito dos seus costumes, das relações de sociabilidade e, registrando como individual e coletivamente, eles criam e recriam suas práticas culturais, além dos espaços de resistência para a cultura popular.
Na construção da realidade social, a cultura está relacionada a um modo de vida e varia de acordo com questões lingüísticas, espaciais, ambientais e conforme os modos de fazer e de agir. A cultura popular é, portanto, diversificada tanto material como simbolicamente. Sendo assim, através de suas práticas culturais diárias, cada grupo social implementa sua idéia de cultura popular e a representa no conjunto do tecido social.
Ao discutir sobre essa problemática, faz-se mister analisar a contraposição existente entre cultura popular e cultura erudita. Nos seus trabalhos, Certeau (1995) e Guinzburg (1987) chamam à atenção para o fato de que a cultura popular, ou melhor, as culturas populares têm uma lógica funcional diferente da cultura letrada, mas isso não implica que ela exerça uma condição maior no âmbito da importância.
Sob nosso ponto de vista, tanto o relativismo cultural em relação à forma como se pensa e se discute sobre cultura popular, quanto o etnocentrismo, que impera no que concerne à cultura erudita, denotam uma visão dependente da cultura popular em relação à cultura erudita.
A percepção relativista de cultura e a abordagem etnocentrista têm visões diferenciadas da cultura popular. Enquanto a primeira a concebe enquanto autônoma, a segunda a percebe dependente da cultura de elite. Na realidade, acreditamos que existe uma circularidade entre ambas as culturas.
É necessário, então, ressaltar que o termo cultura popular não foi uma construção oriunda das camadas populares. Ele foi elaborado a partir da visão da
elite sobre as manifestações populares. Isso porque nunca se enquadrou no que elas querem definir, visto que a cultura popular sempre ultrapassou todas as fronteiras que lhe foram postas e impostas. Para Hall (1998), é no palco da cultura popular onde se operam e se orquestram lutas contra a elite ou a favor dela, mas também se elaboram consentimentos e resistências.
Cultura popular é uma invenção das elites, portanto, é um termo que, ao ser criado, foi externo ao povo. Mas este lhe deu um fluxo muito grande de sentidos, não lhe pôs fronteiras, acrescentou-lhe ancestralidades históricas, concepções, formas de organizações. Isso foi possível, porque a cultura escrita se apossou da cultura oral, o que ocorreu, por exemplo, com o cordel, que se situa no espaço entre a oralidade e a escrita.
Entretanto, a cultura popular não foi pensada pelo povo, sujeitos sociais comuns que a produzem. Pelo contrário, foi pensada a partir de um corpo do tecido social, a elite, para a qual a cultura popular era homogênea. Ao agir assim, a elite esquecia que a cultura popular é dinâmica e está em constante transformação, porque é refeita e refabricada. Vista por essas lentes, “cultura diz respeito aqui à criação, ao artifício, à ação, em uma dialética que a opõe e a associa à natureza” (CERTEAU, 1995, p. 194).
Nesse sentido, podemos dizer que cultura popular é fruto da elaboração de sujeitos anônimos que lhe acrescem seus saberes, seus fazeres, sua gama de valores. Por isso pode ser comparada a um caleidoscópio, visto que é multifacetada na forma e, no seu conteúdo, denota a essência de quem a elabora: o povo.
Por isso discordamos de certas opiniões que vêem a cultura popular como conservada e resgatada, como se ser conservada lhe desse a condição de inerte, em termos de temporalidades e espacialidades, como se, no decurso da História, ela não tivesse dinâmica própria. Por outro lado, o sentido dado de resgate à cultura popular lhe imputa uma condição de “morta”, um “morto” que é preciso reviver, é a beleza do morto que precisa ressurgir (CERTEAU, 1995). Contrários a esse pensamento, acreditamos que a cultura popular se adapta de diferentes formas ao cotidiano e às práticas que a definem.
No âmbito do espaço público, a cultura popular construiu possibilidades de contenção das estratégias disciplinarizadoras e dominadoras do seu saber-fazer, redefinindo seus territórios e tentando produzir unidade dentro da diversidade que lhe identifica. Todavia, alguns setores da elite, têm visto as manifestações populares,
muitas vezes, como espetáculo, “teatralizando” suas formas e procurando perceber as manifestações, as práticas e os elementos culturais como meios folclóricos (CERTEAU, 1995).
O poeta de cordel Rubênio Marcelo, fazendo alusão à cultura popular nordestina, assim a define:
A Cultura possui bens inigualáveis, Arraigados com valores infinitos... Nosso nobre populário e seus ritos Representam expoentes mais louváveis!
Suas celebrações inesgotáveis, Seus cordéis, cantorias e os mitos... Suas lendas, seus fabulosos ditos, As canções, de movimentos notáveis,
São os pilares criativos, a raiz Da memória genuína do país, Cultuada pela nossa tradição.
E tudo é sabedoria de um povo; Flama ardente emanada do renovo Que habita nosso espírito em profusão!
(MARCELO, 2005)
Através dos seus versos, o poeta nos mostra que a cultura popular nordestina é um misto de vários elementos que fazem parte de sua composição. Esses elementos, congregados, a definem e a delineiam, pois eles se constituem em “pilares criativos” resultantes de um saber vindo do povo e que está sempre se renovando: “E tudo é sabedoria de um povo; flama ardente emanada do renovo”.
Para o poeta popular Gustavo Dourado (2005)4, a cultura popular nordestina lhe dá expressividade:
A cultura nordestina-se Transcende o regional Xaxado-maracatu Xote, frevo, carnaval Sanfona de Gonzagão Forró-baião sideral...
Literatura de Cordel Improviso e embolada Ciranda, boi e reisado Praia, arte, luarada Lobisomem à meia-noite
4
A maioria dos cordéis produzidos pelo poeta Gustavo Dourado estão no seu site http://www.gustavodourado.com.br, do qual esse poema foi extraído.
Em busca da madrugada.
São João em Campina Grande Castro Alves condoreiro Ariano Suassuna-nos Cordelisa o Romanceiro Auto da Compadecida: Sucesso no mundo inteiro (DOURADO, 2005).
Nesses três primeiros versos do cordel, o poeta vai matizando os constituintes da cultura nordestina. Ele mostra que essa cultura vai além do recorte regional Nordeste, pois outras regiões brasileiras e outros povos têm acesso à produção cultural nordestina, posto que ela “Transcende o regional” e é uma cultura rica em polifonia. Ainda segundo esse poeta, a cultura popular nordestina é marcada por uma profusão cultural:
Science e Chico Cezar Paulo Freire Educação Cangaço, Lucas de Feira Vaqueijada, Azulão Na peleja e na rima Malazarte e Canção...
Asa Branca Acauã Petrolina Juazeiro
Cordel do Fogo Encantado Um encanto brasileiro Quarteto Armorial Mestre Pinto de Monteiro
Tem Quinteto Violado O Barro de Vitalino Mágico Antonio Nóbrega Tem sorriso de menino Ivanildo Vilanova Um orgulho nordestino. (DOURADO, 2005).
Expressando sua sensibilidade poética na leitura da cultura nordestina, o poeta popular Gustavo Dourado representa não apenas o que vê e sente em relação à cultura produzida no Nordeste. No seu olhar de leitor arguto das coisas e gentes nordestinas, ele corporifica pessoas e coisas que dão representatividade à região.
O poeta Moreira de Acopiara, comentando a importância do cordel e o papel do poeta no seio da cultura popular nordestina, afirma:
O poeta, tanto o popular quanto o erudito, coloca beleza e emoção nas coisas mais simples. Faz o leitor refletir sobre as questões sociais e conscientiza o cidadão em relação a seu papel na sociedade e no mundo. A literatura de cordel está presente em muitos momentos de nossa cultura. É só prestar atenção na música de Zé Ramalho, Alceu Valença, Chico
César, Tião Carreiro e Pardinho e todos os demais cantores e duplas verdadeiramente caipiras. As modas de viola mais bonitas que conheço são todas na linguagem do cordel. A música que mais Luiz Gonzaga gostava de cantar e que mais o emocionava e mais emociona até hoje, inclusive a mim, chama-se A triste partida, que é, na verdade, um cordel de Patativa do Assaré (MOREIRA DE ACOPIARA,).
Podemos observar que, no contexto da cultura popular nordestina, de acordo com o que enfatiza o poeta Moreira de Acopiara, o cordel tem influenciado ou está presente em várias expressões culturais, tanto na música quanto no teatro. Enfim, o cordel tem exercido expressiva importância.
Em termos históricos, ressaltamos que o cordel tem acompanhado a história da sociedade brasileira e da nordestina, contribuindo para a construção da identidade de nosso povo, que está sujeita às injunções do tempo:
A identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. As partes “femininas” do eu masculino, por exemplo, que são negadas, permanecem com ele e encontram expressão inconsciente em muitas formas não reconhecidas, na vida adulta. Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a “identidade” e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude (HALL, 2004, p.38).
Podemos enfatizar que a identidade está sempre em construção. Ela não é fixa nem sólida: temos nossa identidade enquanto pessoa, nossa identidade de gênero, de raça, de grupo social, de comunidade e sociedade, daí a variância de nossas identidades. Por isso, analisar a identidade sob a ótica da cultura lhe dá uma dimensão ainda maior, porque não existe uma cultura, mas muitas culturas e muitos produtores de culturas, assim como são múltiplos os sujeitos sociais que, por sua vez, apresentam múltiplos saberes e diferentes olhares a interpretar a vida, o mundo
e as pessoas que nele habitam. Esse aspecto, segundo Hall (2004), faz com que a identidade seja descentrada.
Analisando a categoria identidade pelo prisma do cordel, veremos que este, sendo uma arte que é fruto de saberes individuais, mas que forma memórias coletivas, apresenta, implícitos, diferentes valores, modos de pensar e ver o mundo. Daí que o cordel, além de formador de visões de mundo e de identidades, também consiste num documento histórico e poético do Nordeste. Consiste numa fonte histórica que pode ser estudada e analisada, pois revela e registra acontecimentos sociais e históricos que tiveram grande magnitude entre o povo nordestino e os brasileiros, de modo geral.
Por isso, o trabalho do poeta tem grande significado para a cultura popular nordestina e a brasileira. A operação cultural que ele realiza faz com que, através de suas produções e de sua linguagem, transmita à cultura que ele produz seus sentidos. Explicitando o trabalho realizado pelo poeta popular, Marcos Aurélio Gomes de Carvalho, poeta de cordel, afirma:
Para mim, existem dois pontos altamente importantes em relação ao trabalho do poeta popular, e mais precisamente no cordel. O primeiro ponto seria o fato de provocação à alfabetização, ou seja, é imensurável o que o cordel provocou no Nordeste, em se falando de vontade popular, em saber ler um folheto sem a precisão de uma pessoa alfabetizada. O segundo ponto seria a imensurável força sociabilizadora que o cordel propiciou quando de sua leitura em grupo. A sala, o terreiro, ou a calçada, cheia de gente a ouvir de um mais velho, ou de quem soubesse ler, as tramas e registros sociais. (MARCO AURÉLIO GOMES DE CARVALHO).
Segundo Marco Aurélio, o grande legado do trabalho do poeta popular para a cultura nordestina tem sido não apenas no âmbito da cultura. Valendo-se do sentido educativo do folheto, o poeta de cordel tem dado contribuições consideráveis, tais como: “o fato de provocação à alfabetização” e “a imensurável força socializadora que o cordel propiciou”. Dessa forma, além de meio educativo, o cordel propiciou a criação de laços de sociabilidade, pois, em muitos grupos que se juntavam para ler ou ouvir os folhetos, ampliavam-se os laços de amizade e mesmo de compadrio.
O poeta popular João Batista Campos de Farias, analisando a relevância do trabalho realizado pelo poeta em prol da cultura, além dos aspectos culturais, assinala também aspectos subjetivos que norteiam o labor poético:
Para a cultura, seja ela popular, erudita, clássica, lírica ou de qualquer outro segmento, é, primordialmente, servir com dignidade, zelo, honradez, ética, seriedade e profundo respeito aos elevados princípios de sublimação da
auto-estima humana, enriquecendo a cultura do nosso povo hodiernamente tão abalado pelas cenas de violência, de corrupção, de injustiça, de insegurança, de desemprego e da exclusão social. A sociedade brasileira é carente dos estímulos literários luminosos. Ela não necessita mais de tanta vulgaridade caótica e depressiva. O trabalho do poeta popular e da literatura de cordel pode e deve ser fértil e brilhante campo aberto para semearmos e cultivarmos apenas ensinamentos nobres, enriquecedores de conhecimentos, de soerguimento da auto-estima e propagador dos mais variados temas universais. Esta é a minha luta incansável. Eu vivo com o povo simples e conheço as carências de afetividade do povo, através de um modesto verso cultural. Por isso, escrevo para o povo, leio nos olhos da criança, nas faces dos idosos e nas reações da sociedade, inspirado pelo mais profundo trabalho com amor (JOÃO BATISTA CAMPOS DE FARIAS).
O discurso elaborado pelo poeta João Batista sobre a importância da cultura popular, no trabalho realizado pelo cordelista, é um discurso pautado em elementos éticos. Na realidade, verificamos que ele chama à atenção para questões que são fundamentais para esse trabalho, tais como: eticidade, diálogo e respeito para com o Outro. Aliás, a ética ocupa parte bastante significativa nas ações e atitudes do poeta de cordel. Segundo João Batista, compete ao poeta popular “servir com dignidade, zelo, honradez, ética, seriedade e profundo respeito aos elevados princípios de sublimação da auto-estima humana”.
Tudo isso é uma atitude relevante, pois conduz a posturas e ações consideradas por ele como corretas: “campo aberto para semearmos e cultivarmos apenas ensinamentos nobres, enriquecedores de conhecimentos, de soerguimento da auto-estima e propagador dos mais variados temas universais”. Nesse sentido, não basta agir moralmente, ter uma atitude ética diante das pessoas, da vida e do mundo; mas imprimir isso no que realiza. Para o poeta de cordel, tecelão de cultura, isso é possível, e ele o faz através do cordel.