2 En teoretisk ramme
2.1 Autismespekterforstyrrelser og diagnostisering
Sem pretender dar conta das múltiplas experiências tomadas a partir da improvisação, iremos nessa parte do trabalho tentar discutir algumas de suas características, que consideramos importantes, diante de suas maneiras de operar e que atravessam intensivamente a dança contemporânea.
3.2.1. O “deixar-se tomar”: por uma nova presença do corpo
“Penchées tête contre tête, les yeux fermés, les deux danseurs relâchent toute volonté et se laissent guider, ballotter par les forces physiques
qui s’activent au point de contact114”. (DAVIDA, Dena. 1999, p. 101). Aí está
descrito uma experiência das mais comuns nos ateliês de improvisação, e
113
Tradução nossa: “dançar, reproduzir uma dança, apóia-se sobretudo na recordação de um percurso de sensações”.
114
Tradução nossa: “Inclinados cabeça contra cabeça, os olhos fechados, os dois dançarinos liberam qualquer vontade e deixam-se guiar, chacoalhar pelas forças físicas que se ativam a partir do ponto de contato”.
mais especialmente, aqui, de contact improvisation115. Esta experiência nos mostra o “deixar-se tomar”. Um bailarino explica: “j’essaie d’être à l’écoute de
mon corps et de me relâcher dans ma tête116”. (CERTINI, A. 1997, p. 238). De
fato, parece que o bailarino já não sabe onde está (ou tem) a sua cabeça – “e é isso a abertura ao inconsciente; e é isso a intensificação da sua consciência do corpo”; (GIL, J. 2001, p. 139). Continua Certini: “il semble que dans l’improvisation vous devez accepter de vous laisser conduire par quelque
chose que vous ne connaissez pas117”. (CERTINI, A. 1997, p. 238). É o corpo
que se deixa tomar, quer dizer, a subjetividade consciente do bailarino tende a se liberar para que o corporal possa operar.
Como compreender esse corporal? A contact improvisation pode nos ajudar. Segundo Daniel Lepkoff, “contacteur”, esse corporal compreende “la présence d’un être sous-jacent à l’être socialisé, sous-jacent à cette partie de nous-même qui s’exprime par le langage verbal, la pensée linéaire et le
comportement de mouvement adapté aux espaces civilisés118”. (1999, p. 76).
Uma grande parte do trabalho de contato improvisação é, então, consagrado a “lâcher un certain niveau de contrôle et à apprendre à faire confiance à un autre niveau119”. (Id. Ibid., p. 76). Ora, esse deixar-se tomar pode ir ao encontro de uma certa “consciência de si”, que é facilitado por toda uma série
115
A contact improvisation, também chamada de dança contato, ou ainda contact danse
improvisation, é uma técnica e uma prática de dança improvisada, desenvolvida nos EUA,
a partir de 1972, por Steve Paxton, retomada por Nancy Stark e Lisa Nelson. Nasceu de numerosas práticas físicas, tal como Aikido, os exercícios de análise do movimento, entre outras. De uma maneira simplificada, já que veremos com mais afinco posteriormente, trata-se de uma dança entre dois parceiros (no mínimo) que exploram as múltiplas possibilidades de apoios e de contato, jogando com as leis físicas ligadas à força da gravidade. Conectada à contracultura americana dos anos de 1970, a contact
improvisation privilegia as relações entre parceiros, “contacteurs”, às exigências estéticas.
Atualmente, mais e mais bailarinos a praticam, encontrando-a já misturada a outros tipos de improvisações dançadas. Por isso, trataremos da improvisação considerando-a como uma mesma prática corporal.
116
Tradução nossa: “eu tento estar a escuta de meu corpo e soltar minha cabeça”.
117
Tradução nossa: “parece que na improvisação você deve aceitar se deixar conduzir por qualquer coisa que você não conhece”.
118
Tradução nossa: “a presença de um ser subjacente a um ser socializado, subjacente à esta parte de nós mesmos que se exprime pela linguagem verbal, o pensamento linear e o comportamento de movimento adaptado aos espaços civilizados”.
119
Tradução nossa: “a liberar um certo níveo de controle e aprender a confiar em um outro nível”.
de aquecimentos do corpo. Michel Vincenot o analisa: “La perception qui vient juste après l’échauffement met le corps en état d’intensité, en état d’éveil aigu: la presence120”. (1999, p. 65).
Liberando um certo nível de consciência sobre o corpo, permite-se a existência de um nível “subjacente”. O aquecimento faz com que ocorra não uma “consciência de si”, mas, precisamente, uma presença de forças corporais. É assim que praticar a improvisação faz surgir e mover uma certa presença do corporal.
3.2.2. O devir-corpo do bailarino-improvisador: a lógica corporal
Steve Paxton expõe o objetivo da contact improvisation: “cette méthode avait pour but de récupérer des possibilités physiques qui avaient pu devenir inactives, réactiver les sens que nous avons été entraînés à ne pas
prendre en compte121”. (1999, p. 115). Paxton pergunta: “A quoi cela pourrait-
il nous conduire en réalité? Qui deviendrons-nous?122” (Id. Ibid., p. 116). Essa pergunta parte das impressões de Steve Paxton ao observar que os exercícios perceptivos e sensoriais de contato improvisação modificam os bailarinos. Exercitando os sentidos adormecidos do corpo-dançante – reativando os corpos, por exemplo, com exercícios que conduzem a liberação de um certo controle de si – os bailarinos-improvisadores encontram o corpo, o corporal. José Gil descreve o momento de dois corpos em contato improvisação:
(...) les corps glissent les uns sur les autres, s’enroulent, se jettent uns sur les autres, roulent par terre, se tiennent dos à dos, etc. Tout le mouvement a son origine dans le poids et l’équilibre des corps ou, dans le déséquilibre imminent des
120
Tradução nossa: “a percepção que vem exatamente após o aquecimento põe o corpo em estado de intensidade, em estado de atenção aguda: a presença”.
121
Tradução nossa: “Este método teve como objetivo recuperar as possibilidades físicas que se tornaram inativas, reativar os sentidos, que temos sido treinados a não levar em conta".
122
Tradução nossa: “A que isso poderia nos conduzir em realidade? Quem nos tornaríamos?”.
positions : le mouvement d’un danseur crée cette demande à laquelle le corps de l’autre donnera une réponse selon la pente du poids et de l’énergie qui lui conviendra le mieux123. (2000, p. 69).
Das tensões e desequilíbrios do corpo nascem os movimentos. É precisamente isso que entendemos por encontrar o corporal. Com efeito, encontrar o corporal não significa, de um lado, que o bailarino escute seu próprio corpo ou sua interioridade. Ao contrário, na improvisação faz-se necessário ter uma postura de escuta e de abertura. Essa postura deve ser larga e infinita; e não reduzida a sua própria esfera corporal. De outro lado, significa que os bailarinos improvisadores encontrem o corporal não somente através de seus corpos, mas também no corpo-dançante do outro, do parceiro, e, enfim, em tudo que um corpo-dançante pode se agenciar. É nesse sentido que podemos pensar o conceito de devir de Deleuze e Guattari. No devir, como nos diz Zourabichvili, “on n’échange pas ce qu’on était contre ce que l’on serait sensé devenir”, mas envolve “une autre sensibilité”, ou seja, que “nous sentons fugitivement d’une façon autre que la notre, comme sentirait un autre que nous ; et nous en recueillons les effets sur nous-même124”. (1997, p. 14-15). A sensibilidade dos bailarinos na improvisação é a dos corpos, do corporal, ou mais precisamente, o que eles captam. Assim, podemos dizer que desse encontro do corporal, os bailarinos improvisadores entram numa espécie de devir-corpo. Em outros termos, os improvisadores se deixam atravessar pela lógica do corporal, fazendo-se surgir no instante da dança improvisada.
O corporal segue uma lógica bizarra que em nenhum caso é estritamente física. De fato, como mostra Steve Paxton, o corporal parece constituído de uma complexa rede de informações sociais, físicas,
123
Tradução nossa: “os corpos deslizam uns sobre os outros, enrolam-se, lançam-se uns sobre os outros, rolam por terra, têm-se costa à costas, etc. Todo o movimento tem sua origem no peso e equilíbrio dos corpos ou, antes, no desequilíbrio iminente das posições: o movimento de um dançarino cria essa pergunta a qual o corpo do outro dará uma resposta de acordo com a inclinação do peso e da energia que lhe convirá melhor”.
124
Tradução nossa: “não se muda o que era contra o que seria sensato devir”, mas envolve “outra sensibilidade”, ou seja, que “sentimos fugitivamente de uma maneira outra que a nossa, como sentiria um outro que nós; e recolhemos os efeitos sobre nós mesmos”.
geométricas, glandulares, políticas, íntimas e pessoais que não é fácil perceber e levar em conta. O corporal passa longe da representação anatômica do corpo humano. Ele é o corpo vivido de todos os dias e constituído, portanto, de múltiplas e infinitas experiências.
Com efeito, essa lógica do corporal não pode ser estritamente física. O que se percebe de hábito como a lógica física se revela repentinamente muito complexa. De um lado, o corporal inclui elementos tão heterogêneos e de planos e níveis tão diferentes que se torna difícil obedecer à estrita causalidade. De outro lado, o corporal não sofre apenas de maneira causal o mundo que o cerca, mas entra em interação com ele. Daí nos parecer que o corporal é regido por uma lógica do afeto, mais flexível e baseado no encontro de elementos envolvidos. Vejamos agora, como o corporal, que atravessa e dirige o corpo, pode, na improvisação, criar em dança. Resumindo, vejamos como o corpo-dançante pode ser um vetor de linhas novas na dança.