Ao iniciar esse subcapítulo, é relevante considerar que, no ano de 2012, o projeto de pesquisa de doutorado foi apresentado no centro (maloca) de reuniões da comunidade indígena Boca da Mata e em assembléia comunitária dos indígenas. Democraticamente, deliberaram a autorização ao desenvolvimento do trabalho de pesquisa (in loco), durante o período do curso de doutorado em Geografia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) como consta em registro de ata (Anexo B).
Conforme decidido em coletivo, as lideranças indígenas expediram duas declarações que autorizam e legitimam a ciência e o valor da pesquisa à comunidade, são elas: Declaração de Autorização da Comunidade Indígena
Boca da Mata e Declaração de Autorização da Associação dos Povos Indígenas da Terra São Marcos - APITSM (Anexo C).
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Nesse sentido, em 2015, iniciou-se a pesquisa na comunidade indígena que se desenvolveu em várias etapas (contextualizada na metodologia), nas quais foram aplicados 42 questionários por família (75% aplicados na Sede, 15% na Paz e 10% no Aeroporto), com 35 perguntas, no universo de 140 famílias, o que representa um percentual de 30% dos questionários aplicados na comunidade, o que garante uma amostragem 95% de nível de confiança28e assegura os resultados
que foram tabulados e transformados em informações percentuais com gráficos. Os questionários apresentaram perguntas estruturadas (com respostas objetivas) e semi-estruturadas (com respostas subjetivas) direcionadas em seis eixos de caráter investigativo, são eles: dados dos entrevistados; escolaridade; habitação; renda familiar; etnia e meio ambiente, como apresenta (Apêndice 01).
Com base na pesquisa e os resultados obtidos sob os eixos investigativos transformados em gráficos com percentuais, a posteriori dar-se a fase de diagnóstico pautado em duas áreas de estudos, são eles: Diagnóstico Ambiental - meio ambiente e uso da terra; Diagnóstico Social - família e educação, emprego e renda; moradia e infraestrutura; etnia e cultura.
6.4.2.1 Diagnóstico ambiental da comunidade indígena Boca da Mata
Pensar no desenvolvimento de uma comunidade de forma equilibrada e justa na relação homem-natureza requer estudo e compreensão de vários elementos, e de diferentes escalas de curto, médio e longo prazos, para que seja possível definir procedimentos de ação dos agentes atuantes. Portanto, fazer o uso sustentável dos recursos naturais, de forma harmoniosa, é imprescindível na nossa atual conjuntura social, tendo em vista que o não conhecimento das práticas sustentáveis é a marca da crise dos nossos dias atuais (LEFF, 2003).
Mesmo que se tenha, por parte de uma pequena parcela da população do globo, o entendimento/compreensão das relações homem-natureza, seja ela de efeito positivo e/ou negativo, é esta segunda que preocupa aqueles que pensam sobre o meio ambiente (RODRIGUEZ E SILVA, 2016).
Contudo, sabe-se que o globo passa por uma grande crise que permeia o entendimento sobre a temática da educação ambiental e a ausência dessa
28 Cálculo disponível no site <http://comentto.com/blog/calculadora-amostral/>, acesso em 08/07/2017.
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compreensão só legitima nos dias atuais o desequilíbrio ecológico. Partilhando desse pensamento, Santos (2008, p. 17) relata que:
A crise ambiental do século XX é uma crise planetária, uma crise de conhecimento e de formas de conhecimentos, um desafio à interpretação do mundo. O resultado dessa forma de conhecimento científico, e sua aplicação tecnológica, nesta última etapa da história da humanidade, tem feito com que a aceleração e a intensidade da pressão das ações antrópicas venha a ser semelhante à depreciação por conhecer os efeitos globais de tais atuações.
É relevante ressaltar que, na comunidade indígena Boca da Mata, o sentimento de apropriação e identidade refletem, na percepção do espaço geográfico, traços da territorialidade que mantêm com o lugar e que evidencia um melhor aproveitamento e (re)conhecimento do meio em que vivem, respeitando a natureza e os valores culturais da população local, observando os níveis de vulnerabilidades e potencialidades do lugar.
Essa apropriação e identidade construída leva a perceber que o indivíduo, ao territorializar-se no meio natural, cria uma relação íntima e ao mesmo tempo laços são criados, fruto de uma relação sentimental entendida assim como valor cultural (PELLEGRINI, 1993).
O Mapa 07, apresentado anteriormente, revelou os limites da territorialidade da comunidade indígena Boca da mata, fato que contextualiza os valores e necessidades de sobrevivência, a preservação cultural e ambiental manifestadas pelos próprios indígenas. A partir desse entendimento, sobre a territorialidade da comunidade, faz-se necessário analisar o território dos indígenas sob a óptica de obter informações do ambiente vivido.
Nesse sentido, o Mapa 08 a seguir contém informações básicas da comunidade indígena Boca da Mata, são elas: curvas de nível, hidrografias, rodovia e a classificação da vegetação. Estas informações adicionadas às categorias de análise, proposta no Quadro 08, pautada sob a luz dos conceitos teóricos e metodológicos da Geoecologia das Paisagens (RODRIGUEZ ET AL., 2013), corrobora na fomentação do Quadro 10, a Compartimentação Etno-Geoambiental
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Quadro 10 - Compartimentação Etno-Geoambiental da comunidade indígena Boca da Mata Unidades de Compartimentação
Compartimentação Étnica Compartimentação Geoambiental
Sub- região População / Família Indígena Etnia Unidade Geoambiental
Paisagem Relevo e Solo Vegetação Hidrografia e
Clima Fauna Grupo e Ordem Alto São Marcos 584 / 140 Makuxi Taurepa ngW apic hana Sapará Tucano Serra Setentrional da Boca da Mata Paisagem do Relevo Montanhoso e ondulado. Vista da comunidade indígena Tarau Parú, na direção N-S
Fonte: Autor (2014).
Unidade Geoambiental pertencente à Macrozona do Domínio dos Ecossistemas das Florestas Ombrófilas Densas e Estacionais. Alinhamentos Serranos - Formas acidentadas subordinadas ao Planalto do Interflúvio Amazonas –Orenoco, cujas cotas apresentam -se superiores aos 1.000 metros. Representam terrenos de forte a muito forte dissecação, desenvolvidos em rochas graníticas e vulcânicas do Escudo das Guianas. Relevo: Montanhoso e Ondulado.
Solo: Argissolo amarelo; Neossolo litólico; Argissolo vermelho-amarelo; Afloramento rochoso. Floresta densa e aberta / presença da Campinarana. A comunidade indígena Boca da Mata está inserida na porção NE–SE da região hidrográfica da bacia do Uraricoera com destaque aos rios Surumú, Xaperu, Miang e Paricarana. O clima dessa sub- região é marcado por duas características: uma com maior porção um corredor NW para SE da TI São Marcos onde predomina o clima Am (Megatérmico úmido e sub-úmido; com curta estação seca). Em uma menor porção encontra-se um clima de transição na presença do clima Aw (Megatérmico úmido e sub-úmido; com inverno seco). O trimestre mais seco ocorre nos meses de janeiro, fevereiro e março e o trimestre mais chuvoso ocorre nos meses de junho, julho e agosto onde a média de precipitação pluviométrica pode chegar 1.600 a 2.300mm ao ano. O indicador da biodiversidade (IB) da comunidade indígena Boca da Mata, predominantemente, considerado alto e nesse contexto estão inseridos o Grupo e Ordem de animais. Insetos: Orthoptera, Ephemeroptera, Blattodea, Hemiptera, Homoptera, Lepidoptera, Coleoptera, Hymenoptera, Diptera. Anfíbio: Anura. Repteis: Chelonia, Crocodilia. Sauria, Squamata. Aves: Ciconiformes, Pelecaniformes, Falconiformes, Opisthocomiformes Psittaciformes, Anseriformes, Strigiformes, Cuculiformes, Coraciformes, Piciformes, Trogoniformes, Passeriformes, Tinamiformes, Gruiformes, Charadriiformes. Mamíferos: Marsupiália, Rodentia, Chiroptera, Edentada, Carnívora, Primata, Artiodactyla, Perissodactyla. Serra Meridional do Parimé Paisagem do Malocão e ao fundo o relevo Montanhoso, na direção L-W
Fonte: Autor (2014).
Unidade Geoambiental pertencente à Macrozona do Domínio dos Ecossistemas das Florestas Ombrófilas Densas e Estacionais. Colinas - Superfícies colinosas associadas ao Planalto Dissecado do Norte da Amazônia, esculpidas em rochas graníticas do Escudo das Guianas. Representam terrenos de dissecação fraca e média, localmente com a presença de morrarias. Cotas variam no intervalo de 250 a 600 metros. Relevo: Montanhoso.
Solo: Neossolo litólico; Argissolo amarelo; Afloramento rochoso.
Floresta densa e Estacional.
Colinas Orientais do Rio Xaperu
Paisagem de relevo colinoso com a vegetação da Savana estépica parque, na direção W- L
Fonte: Autor (2014).
Unidade Geoambiental pertencente à Macrozona dos Ecossistemas das Savanas Estépicas. Alinhamentos Serranos, Escarpa Erosivas e Morrarias Intercalada com Colinas - Formas de relevo subordinados em rochas vulcânicas e graníticas no Escudo das Guianas, cujas cotas variam de 200 a 1.200 metros. Representam intercalações entre áreas acidentadas de forte dissecação (alinhamentos serranos, escarpas erosivas e morrarias) e áreas rebaixadas de fraca a média dissecação (colinas).
Relevo: Montanhoso.
Solo: Afloramento rochoso; Neossolo litólico.
Savana estépica parque. Pediplano Setentrional do Rio Xaperu e Planície Fluvial do Rio Xaperu
Paisagem de relevo suave e ondulado com presença de afloramentos rochosos e vegetação de Savana estépica parque, na direção W -L.
Fonte: Autor (2014).
Unidade Geoambiental pertencente à Macrozona dos Ecossistemas das Savanas Estépica (Porção Ociental). Alinhamentos Serranos, Escarpa Erosivas e Morrarias Intercalada com Colinas - Formas de relevo subordinados em rochas vulcânicas e graníticas no Escudo das Guianas, cujas cotas variam de 200 a 1.200 metros. Representam intercalações entre áreas acidentadas de forte dissecação (alinhamentos serranos, escarpas erosivas e morrarias) e áreas rebaixadas de fraca a média dissecação (colinas).
Relevo: Suave e Ondulado.
Solo: Neossolo litólico; Plintossolo háplico; Afloramento rochoso.
Savana estépica parque; Savana estépica arbórea.
Paisagem de relevo plano com formações serranas e vegetação de Savana graminosa, na direção W -L.
Fonte: Autor (2014).
Unidade Geoambiental pertencente à Macrozona do Domínio dos Ecossistemas das Savanas Úmidas (Porção Oriental). Superfície Pediplana de Relevo Plano a Levemente Ondulado com Formas Residuais Subordinadas - Formas de relevo subordinadas à Depressão Marginal do Norte da Amazônia e localmente à Depressão de Boa Vista, com cotas variando no intervalo de 100 a 150 metros. Representam superfícies planas a levemente onduladas, com dissecação variando de muito baixa a baixa, esculpidas sobre rochas ígneas/metamórficas do Escudo das Guianas, e localmente em rochas sedimentares da Formação Boa Vista. Ocorrem com freqüência inúmeras formas de acumulação (planos arenosos) e residuais subordinadas (campo de blocos, colinas isoladas, pequenos alinhamentos serranos, morros residuais e inselbergs).
Relevo: Plano.
Solo: Planossolo háplico; Plintossolo háplico.
Savana graminosa.
159 Continuação do Quadro 10 Pediplano Meridional do Rio Surumu e Planície Fluvial do Rio Surumu
Paisagem de relevo suave com presença de montanhas e vegetação de Savana estépica parque e arbórea, na direção W -L
Fonte: Autor (2014).
Unidade Geoambiental pertencente à Macrozona dos Ecossistemas das Savanas Estépicas (Porção Centro-Ocidental). Alinhamentos Serranos, Escarpa Erosivas e Morrarias Intercalada com Colinas - Formas de relevo subordinados em rochas vulcânicas e graníticas no Escudo das Guianas, cujas cotas variam de 200 a 1.200 metros. Representam intercalações entre áreas acidentadas de forte dissecação (alinhamentos serranos, escarpas erosivas e morrarias) e áreas rebaixadas de fraca a média dissecação (colinas).
Relevo: Suave e Ondulado, com presença de Montanhas. Solo: Neossolo litólico; Plintossolo háplico; Afloramento rochoso.
Savana estépica parque; Savana estépica arbórea.
Paisagem de relevo plano com formações serranas e vegetação de Savana graminosa, na direção W -L
Fonte: Autor (2014).
Unidade Geoambiental pertencente à Macrozona do Domínio dos Ecossistemas das Savanas Úmidas (Porção oriental). Superfície Pediplana de
Relevo Plano a Levemente Ondulado com Formas Residuais Subordinadas - Formas de relevo subordinadas à Depressão Marginal do Norte da Amazônia e localmente à Depressão de Boa Vista, com cotas variando no intervalo de 100 a 150 metros. Representam superfícies planas a levemente onduladas, com dissecação variando de muito baixa a baixa, esculpidas sobre rochas ígneas/metamórficas do Escudo das Guianas, e localmente em rochas sedimentares da Formação Boa Vista. Ocorrem com freqüência inúmeras formas de acumulação (planos arenosos) e residuais subordinadas (campo de blocos, colinas isoladas, pequenos alinhamentos serranos, morros residuais e inselbergs). Relevo: Plano.
Solo: Planossolo háplico; Plintossolo háplico.
Savana graminosa.
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Fazer alusão e refletir sobre o meio ambiente e a sustentabilidade, segundo Sachs (1997) dentro das cinco dimensões (social, econômico, ecológico, espacial/geográfico e cultural), nas comunidades tradicionais, é pensar em um processo que visa atender o manejo dos recursos naturais e desenvolver a “partilha
social”29 com a comunidade presente e as futuras gerações, sua eficiência
econômica, associada à eficiência ambiental e social, observação à aplicação e utilização de um mínimo de custos que significa um trato dos recursos disponíveis que proporcione melhorias na qualidade de vida, sem comprometer as possibilidades das próximas gerações que é, sem dúvida, a maior ansiedade da maioria das sociedades humanas.
Nesse sentido, a partir das unidades geoambientais (Mapa 09) foi possível a execução de um diagnóstico geoambiental (Tabela 16) fundamentado, pela CPRM (2002), no estado ambiental em que se encontra o meio, aceitando analisar mais do que apenas componentes da Geografia Física (solos, relevo, vegetação, clima, exploração biológica etc.), mas também uma dada realidade local que, segundo Christofoletti pode ser caracterizado por:
[...] sua organização, composição e fluxos de energia e matéria, podendo ser medido através das variáveis. Os valores relacionados com as variáveis do sistema, em determinado momento, descrevem o estado do sistema naquela oportunidade (1979, p. 32).
Conforme Tricart (1977), estudar a organização do espaço é afirmar como uma ação se insere na dinâmica natural para minimizar/reparar os prejuízos ao ambiente e facilitar a exploração dos recursos que a natureza oferece. Assim, a identificação das potencialidades pode indicar a exploração dos recursos naturais de forma sustentável de acordo com a visão geoecológica.
Para a identificação das classes de vulnerabilidades, no entanto, é preciso considerar o conceito de “unidades ecodinâmicas” discutida por Tricart (1977). Esta concepção classifica o ambiente em unidades estáveis, instáveis e unidades intergrades, ou de transição, e foi utilizada na (Tabela 16) tendo como pilar o diagnóstico elaborado pela CPRM (2002).
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Tabela 16 - Vulnerabilidade e diagnóstico das unidades geoambientais da comunidade indígena Boca da Mata
UNIDADES