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O MICROCOSMO DO CORPO HUMANO

Das concepções acerca do corpo, uma das que marcou profundamente o saber médico em Portugal foi a do microcosmo. Em seu Portugal médico Brás Luís de Abreu definia o homem nos seguintes termos: ele é “aquele animal [...] a quem os gregos chamam microcosmos, dicção derivada de micro, que quer dizer pequeno, e de cosmos, que significa mundo”.Diversas correspondências uniam o homem ao mundo e seus órgãos à natureza.

É o coração, sol daquele abreviado mundo, porque também o sol da esfera, é o coração do homem. Nele os olhos são estrelas, as vistas meteoros, as iras raios, os mugidos trovões, os flatos ventos; as lágrimas chuveiros, as palpitações terremotos, e tempestade as aflições.

De tais comparações, chegava-se à conclusão de que “tudo o que se encontra disperso pelo mundo, se encontra resumido no homem”.1 Bluteau não só incorporava as concepções de Brás Luís de Abreu, como também informava que a analogia entre o “mundo pequeno” e o “mundo grande” se conhecia por três modos: “pela disposição das partes em geral, pela comparação das propriedades, e faculdades naturais, e pela combinação das partes individuais”.

Na disposição das partes em geral, o universo compunha-se de três partes — mundo intelectual, mundo celeste e mundo elementar —, no homem “a cabeça, que é a região superior, responde ao mundo intelectual, donde assistem as inteligências, e espíritos angélicos”. No mesmo homem “a região do meio, que é o peito com o coração, e outras partes vitais, responde ao mundo celeste, que é o domínio dos planetas e das estrelas”. A região interior do corpo humano, “donde se fazem gerações, e corrupções”, correspondia, por sua vez, “ao mundo sublunar, e elementar, em que tudo com recíproca alternação se

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gera, e se corrompe”. Em comparação com as propriedades do mundo natural, o homem “tem como as pedras o ser, como as plantas o vegetar, como os animais o sentir, e como os anjos o entender”. Na combinação das partes individuais, outras relações podiam ser estabelecidas entre as partes do corpo e a natureza,

porque na figura da cabeça se representa o esférico céu, nos olhos as estrelas, nos cabelos as ervas, nos ossos as pedras, no cérebro a lua, no coração o sol, e nas mais partes, a que chamam nobres, e principais, os mais planetas; nos quatro humores se vem os quatro elementos, nas veias, os rios; nos dentes, pérolas; nas faces; rosas; corais, nos lábios; ventos, nos flatos; montes, nas partes mais eminentes; nas concavidades, cavernas; e nas quatro idades do homem, as quatro estações do ano.2

Contemporâneo de Brás Luís de Abreu e Raphael Bluteau, Francisco da Fonseca Henriques, afirmava que no “homem microcosmo” a parte intelectual estava representada na cabeça, “fortaleza do entendimento”, “superior oficina da memória”, “divina habitação do juízo”. O mundo sublunar correspondia à região epigástrica, umbilical, hipogástrica. Nessa parte se localizava o ventre, em cujas “circunsferições residem as partes destinadas para nutrir, e propagar, de tal sorte não havermos de negar, que na admirável fábrica do corpo humano se acha tudo quanto adorna o mundo-universo”.3 Ao conceber a imagem do corpo humano à semelhança do cosmos, Fonseca Henriques acabava por estabelecer uma hierarquia dos órgãos do corpo humano, de forma a privilegiar as partes superiores em detrimento das partes inferiores, como o ventre. A perspectiva do médico português aproximava-se da do médico Ulisse Aldrovandi que, um século antes, sustentava a idéia de

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Verbete “Microcosmo” In: BLUTEAU, Raphael. Vocabulário portuguez e Latino, p. 478.

3

HENRIQUES, Francisco da Fonseca. Medicina lusitana: socorro delfhico aos clamores da natureza humana, p. 3.

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que os “espíritos angélicos” residiam na cabeça, enquanto a parte inferior do corpo representava os lugares infectos do mundo, o inferno e as suas trevas.4

A concepção do corpo-microcosmo, presente na medicina portuguesa do século XVIII, ancorava-se em uma tradição bastante eclética. Tal como observa Gianni Micheli, a noção de macrocosmo/microcosmo “constitui o instrumento operativo que está na base da riquíssima tradição filosófica, astrológica, mágica, alquimista, médica”, consolidada no âmbito da cultura greco-romano, com “uma larga difusão no mundo árabe medieval e sobretudo no Renascimento”, apesar das críticas filosóficas e censuras que a teoria cristã lhe dirigiu.5 Em torno dessa herança, que reunia tanto as ciências ocultas quanto o pensamento racional grego, no Renascimento constitui-se a tradição hermética de interpretação da natureza segundo a qual o mundo estaria repleto de simpatias ocultas, de modo que entre o macrocosmo e o microcosmo existiriam correspondências exatas.6

O conhecimento por meio de correspondências e analogias constituiu-se, de certa forma, a base do conhecimento no período anterior ao século XVIII. Ao analisar essa questão, Michel Foucault chamou atenção para o fato de que, antes que a taxonomia se impusesse na ordem do saber, classificando e separando os objetos do conhecimento, foi a idéia de semelhança que predominou na epistémê pré-clássica e serviu de base para o conhecimento acerca das coisas e do homem.7 Embora a perspectiva do microcosmo possa remeter a uma percepção do corpo totalmente esotérica se comparada à ciência atual, no

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FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas, p. 31

5

MICHELI, Gianni. Macrocosmos/Microcosmos, p. 293.

6

A fonte da tradição hermética seria os quatorze tratados do Corpus hermeticum, que remontam ao século II depois de Cristo e que Marsílio Ficino traduziu, entre 1463 e 1464. O saber hermético elaborava os textos da cultura grega de forma bastante eclética e serviram de inspiração para os cientistas amantes das ciências ocultas, como também para os filósofos místicos e naturalistas. Sobre a tradição hermética ver, entre outros: MICHELI, Gianni.Op. cit., p. 291-292; ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa, p. 46- 53.

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contexto em que foi formulada dizia respeito a um determinado “estilo de pensamento” científico.8 A ciência médica do passado lançava mão de uma série de alegorias e símbolos que adquiriam significados específicos na cultura em que estavam inseridos.

Em decorrência da inexistência de fronteiras rígidas entre as ciências, considerava-se que, para conhecer o homem, o médico deveria olhar a natureza e o mundo; devia ser acima de tudo filósofo, astrólogo e alquimista.9 Ao afirmar que o médico devia possuir as qualidades e “filósofo natural, racional e moral” e também as de “astrônomo, geômetra, aritmético, cosmógrafo,”10 Brás Luís de Abreu incorporava-se a essa perspectiva de saber. Nesse contexto, a medicina não se encontrava separada da alquimia, da magia e da astrologia, conhecimentos necessários ao entendimento das correspondências ocultas da natureza.

Uma das explicações para a permanência dessa concepção de saber médico no Reino deve ser buscada, em parte, na própria formação, leituras e visão de mundo compartilhada pelos médicos. Como já se comentou no capítulo anterior, parte considerável dos médicos em Portugal formavam-se ainda com base na leitura das obras de autores como Hipócrates e Galeno. Além desse fator, a Inquisição também atuava no sentido de perseguir as idéias consideradas heterodoxas, a exemplo da filosofia de Descartes. Embora as descobertas da medicina e da anatomia européias ocorridas a partir do século XVI não fossem

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Ludwik Fleck, ao comentar o processo de formação de um fato científico, enfatiza que a observação científica difere em razão de diferentes “estilos de pensamento”. Segundo ele, as concepções científicas devem ser historicizadas e compreendidas a partir dos pressupostos e conceitos da época em que foram formuladas. Dessa forma, ao longo da história da ciência existiram vários “estilos”, conceitos e formas de objetivação do conhecimento. Tais questões são analisadas por Fleck a partir do estudo do conceito de sífilis. Antes de ser uma “entidade nosológica” específica no século XIX, a sífilis designava uma série de doenças venéreas, sendo ligada às concepções astrológicas, místicas e religiosas, que marcaram os debates em torno da doença desde o século XV. Para uma análise mais detida da questão consultar: FLECK, Ludwik. La gênesis y

el desarrolo de um hecho científico: introducción a la teoria del estilo de pensamento y del colectivo do

pensamiento, p.45-66 e 172-193.

9

MICHELI, Gianni. Macrocosmo/Microcosmos, p. 295.

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desconhecidas no Reino, a conjuntura do início do século XVIII mostrava-se pouco favorável à transformação do pensamento médico e ao desenvolvimento da anatomia. Desse modo, o conhecimento do corpo humano em Portugal ocorria por outras vias que nem sempre exigiam a dissecação de cadáveres.

A esse respeito, Rafael Mandressi observou que a ciência médica do passado pautava- se em outras evidências e que as dissecações nem sempre foram um meio “natural” para conhecer o corpo. Para conhecer as causas das doenças, os médicos nem sempre se valiam do exame dos cadáveres, dando primazia aos sinais exteriores das enfermidades.11 De certa forma, essa constatação é válida para os médicos portugueses da época de Fonseca Henriques. Para este bastava saber que o “coração com a vitalidade do seu natural calor, conserva a vida do corpo, e com o sangue que circula pelas veias alimenta toda a família do microcosmo”.12

ASTROLOGIA MÉDICA E ANATÔMICA

Não é possível compreender a medicina dessa época e a concepção do corpo- microcosmo sem abordar o papel da astrologia. Segundo Keith Thomas, a astrologia na Idade Média e no Renascimento constituía-se como saber necessário “para o entendimento da fisiologia e, portanto, da medicina. Ensinava a influência das estrelas sobre as plantas e minerais e, portanto, moldava a botânica e a metalurgia”.13

Dentre os que incorporaram a astrologia em suas obras no Renascimento está Paracelso, para quem o corpo astral (astrum) designava uma propriedade comum a todos os

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MANDRESSI, Rafael. Dissections et anatomie, p. 314.

12

HENRIQUES, Francisco da Fonseca. Op. cit., p. 8.

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corpos. O astrum existe nos corpos celestes e em todos os seres terrestres, tornando-se um elemento de ligação universal. Em Paracelso, os corpos celestes não influenciavam o homem como se fosse algo externo, “visto que os astros existentes no corpo adquirem sua especificidade”. Dessa forma, o sol, por exemplo, corresponde ao coração, e a lua ao cérebro.14

Se, conforme observa Keith Thomas, as “pretensões intelectuais da teoria astrológica foram irreparavelmente despedaçadas pela revolução astronômica realizada por Copérnico e consumada por Newton,”15 no mundo luso-brasileiro do século XVIII, a astrologia continuava a fornecer explicações para os mais diversos fenômenos da natureza. O tema e os debates que suscitava — a exemplo do grau de influência dos astros na vida do homem — ocupou matemáticos, médicos, filósofos, e teólogos.16

A medicina portuguesa do início do século XVIII deixou-se impregnar pelas concepções astrológicas, religiosas e mágicas. Para alcançar o conhecimento do homem, o médico deveria perscrutar os céus, observar as analogias entre o corpo humano e os astros. Acreditava-se, pois, que os planetas tinham domínio sobre os temperamentos e os órgãos do corpo.

Embora não compartilhasse de tais idéias, Bluteau expunha nos seguintes termos as influências dos astros.

Corpos celestes, que (segundo a doutrina dos astrólogos) dominam partes principais do corpo humano [...] querem que domine alma e cérebro, e que com secreta virtude o obrigue a crescer e a minguar com ela. Entendem que o fígado, oficina em que se elabora o sangue, seja dominado de júpiter (...) dos rins dizem que são dominados por Vênus, planeta e geração e fecundidade. Pretendem que o baço, receptor do humor atrabilárico e

14

Sobre essa teoria de Paracelso ver MICHELI, Gianni. Op. cit., 295-296.

15

THOMAS, Keith. Op. cit. p. 288.

16

Sobre a astrologia em Portugal ver Carolino, Luís Miguel. A escrita celeste: almanaques astrológicos em Portugal nos séculos XVII e XVIII, 2002.

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melancólico, fique sujeito às impressões de Marte, planeta colérico e fogoso, ou de saturno, planeta [...] frio e triste.17

Francisco da Fonseca Henriques fazia alusão à “maligna influência de Saturno” nos partos de oito meses, em razão das influências malévolas daquele astro sobre o feto.18 O poder conferido pelos médicos aos astros acabava por influenciar não apenas as características do corpo humano, como também o comportamento dos indivíduos. Brás Luís de Abreu, defensor da astrologia médica contra as artes diabólicas dos adivinhos, dizia que os homens dotados da “compleição saturnina” eram de “natureza frios e secos; porque o planeta de quem tomam a denominação, é frio, seco, melancólico, térreo, masculino, e diurno, e por própria condição inimigo da natureza humana”. Com relação às suas feições, a “estatura do corpo é grossa, avultada e grave, mas com alguma improporção a respeito das partes que a compõe”: o rosto é largo e comprido, a cabeça é “imperfeitamente redonda”, os olhos “negros, grandes e centralmente dispostos, um maior que o outro”, “o nariz; grande, descarnado, e agudo”.19

Tão importante quanto compreender as concepções astrológicas é indagar acerca de seus meios de difusão. Nesse caso, os almanaques astrológicos — conhecidos também pelas denominações de lunários dos tempos, sarrabais ou folhinhas do ano —, constituíram uma dos principais formas de divulgação da astrologia e suas influências. Os almanaques compreendiam geralmente três partes distintas: o almanaque propriamente dito, onde se indicava os eventos do ano seguinte, tais como eclipses, conjunções; o calendário, que mostrava os dias da semana e festas fixas da Igreja; e, por fim, o prognóstico. A partir do século XVII, os almanaques passaram a inserir também propagandas de livros e remédios.

17

Verbete “Planeta” In: BLUTEAU, Raphael. Op. cit. p. 288.

18

HENRIQUES, Francisco da Fonseca. Op. cit., p. 107.

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Os mais elaborados traziam ainda o diagrama do Homem Anatômico, representando o domínio dos signos do zodíaco sobre várias partes do corpo humano.20

Estima-se que ao longo do século XVIII cerca de quinze a vinte mil exemplares de almanaques circulavam no Reino. Obras de pequena dimensão e preço baixo, esses impressos podiam ser adquiridos em tendas e lojas onde se comercializavam artigos diversos, ou por intermédio de vendedores ambulantes, muitos deles de humilde condição social. Os autores dessas obras eram, em sua maioria, médicos, astrólogos e matemáticos. Entretanto, entre os autores encontravam-se também impressores que provinham de estratos mais humildes da população. Além da impressão dos lunários em Portugal, a despeito das proibições, importavam-se também esses livros da Itália e Espanha.21

Na América Portuguesa, o apreço pelos lunários pode ser constatado na observação feita por Nuno Marques Pereira de que certos homens, levados por “interesse, ocupam-se em fazer repertórios prometendo neles muitas coisas, que tal não vem a suceder”, vendidos “por cegos, mancos e aleijados pelas ruas e praças das cidades, vilas e lugares, pelo interesse que disto resulta”. O moralista referia-se a autores de almanaques iletrados que dedicavam a fazer “vaticínios” sem se aplicar ao “sólido fundamento” da matemática.22

Pode-se propor que os autores de almanaques atuaram como verdadeiros “intermediários culturais”, agindo como filtros entre a cultura letrada e oral.23 Nesse sentido, os lunários não só propiciavam a divulgação da ciência da época nos meios

20

THOMAS, Keith. Op. cit., p. 244

21

Sobre a estrutura, circulação e autoria dessas obras ver CAROLINO, Luís Miguel. Op. cit., p. 32-61; LISBOA, João Luís. Papéis de larga circulação no século XVIII, p. 140-145.

22

PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio narrativo do Peregrino da América, v. 2, p. 73.

23

O conceito de mediador cultural se encontra discutida no ensaio de GINZBURG, Carlo. Os pombos abriram os olhos: conspiração popular na Itália do século XVII, p. 131-141.

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populares, como acabaram por incorporar certas práticas e crenças das camadas populares sobre a ação dos astros, a exemplo de simpatias e receitas medicinais. Essas considerações sobre a circulação dos almanaques e seus autores permitem mostrar, por um lado, a importância da imprensa na divulgação de conhecimentos presentes nos tratados médicos em opúsculos destinados a um público mais heterogêneo e, por outro lado, como tais almanaques incorporavam preceitos das camadas populares.

Em uma dessas obras, de autoria de Jeronymo Cortez, natural de Valença, lia-se que aqueles que nasciam sob a influência de Saturno eram de “natureza fria e seca”, costumam ter “os olhos meãos e inclinados para a terra, um maior que o outro”, o nariz era “grande e grosso”, os cabelos eram “negros duros e ásperos”. Esse planeta tornava os homens “imaginativos, tímidos e de profundos pensamentos, e amigos da agricultura”. Diferente eram aqueles nascidos sob a influência de Júpiter: “são de muito boa estatura, bem dispostos e temperados, alguma coisa louros, barba de cor castanha, crespa e fendida”, “os olhos negros formosos, a testa grande e carnosa, os dentes grandes e bem cerrados”. Ainda eram considerados “pacíficos, modestos, amigáveis” e “temperados no comer e no beber”.24

As analogias entre o corpo humano e os astros constituíam a base dos estudos fisiognomônicos, que propunham interpretar o corpo e o comportamento humano a partir das “assinaturas” deixadas pelos corpos celestes.25 Uma das obras que chegou a circular em Portugal sobre o tema foi a Fysiognomia e vários segredos da natureza, também de autoria de Jeronymo Cortez. Além de estabelecer as relações entre o corpo humano e os planetas,

24

CORTEZ, Jeronymo Valenciano. O non plus ultra do Lunário e prognóstico perpétuo geral e particular

para todos os reinos e províncias, p. 60-62.

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interpretando as características dos indivíduos, Cortez propunha mostrar o papel exercido por certos órgãos sobre o temperamento. Assim, por exemplo, se acaso predominasse a influência do estômago, intestino, fígado e baço, os homens tornavam-se “atrevidos, de olhar fixo e penetrantes, apresentam os músculos muito provenientes e tem grande vivacidade de movimento”, teriam “mediana altura, pele morena, seca e quente”.26 Dessa forma, as correspondências não deviam ser buscadas apenas entre o corpo e o mundo exterior, mas também entre os órgãos internos e o exterior do corpo.

Os lunários que circulavam em Portugal mostravam-se tributários, em grande parte, das teorias cosmológicas tradicionais da Antiguidade, sustentadas por autores como Aristóteles e Ptolomeu.27 Em Portugal, enriquecida pelos autores árabes, essas teorias se difundiram entre os séculos XVI e XVIII, o que se deve em grande medida à censura da Inquisição aos modelos de Copérnico, Kleper ou Newton. Assim, embora não desconhecessem as teorias sobre os astros formuladas por esses cientistas, astrônomos e astrólogos lusitanos tinham que evitar a exposição das teorias da ciência moderna nos almanaques, a fim de não serem considerados heréticos.28

Vale, nesse sentido, mencionar que as especulações astrológicas de certos indivíduos eram associadas pelo Santo Ofício às heresias. Esse caso aplica-se ao jesuíta Valentim Estancel, matemático que vivera na América Portuguesa em fins do século XVII. Além de extrair diversos prognósticos a partir das observações astrológicas, escreveu uma

26

CORTEZ, Jeronymo. Fysiognomia e vários segredos da natureza, p. 7.

27

Aristóteles já defendia que os planetas poderiam exercer influência na vida terrestre. Mas foi Ptolomeu, astrólogo egípcio que viveu no século II da era cristã, que deu consistência a essa teoria, ao propor que determinado poder emanava dos astros, podendo esse ter um efeito benéfico ou maléfico: assim, a Lua, Júpiter e Vênus eram vistos como planetas benéficos, pois produziam calor e umidade com moderação; enquanto Saturno e Marte, pelo frio e secura excessivos, eram concebidos como sendo planetas maléficos.CAROLINO, Luís Miguel. Op. cit., p. 15-16.

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importante obra censurada em Roma sobre um dos livros proféticos da Bíblia —

Comentarium in Danielem — na qual a astrologia ocupava um lugar central. A obra de

Estancel, conforme observou Adriana Romeiro, não era uma exceção no século XVIII. Em um ambiente impregnado pelo milenarismo, as observações astrológicas andavam lado a lado com as especulações teológicas e místicas, aspectos que integravam a obra de outros jesuítas, a exemplo de Vieira.29

Se a ação da Inquisição é um argumento válido para explicar a força do pensamento astrológico em Portugal no século das Luzes, há outro não menos importante a ser considerado: a astrologia tinha um papel fundamental na vida das pessoas nas sociedades do Antigo Regime, não podendo ser explicada como mero reflexo das teorias

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