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O autor destas notas (...) lança aqui estas linhas com a convicção de que no longínquo ano de 2.012, nas vetustas estantes do Arquivo Público Mineiro, ou esquecida nos escaninhos de algum móvel antigo, esta Revista dê o testemunho de nosso amor a esta generosa terra.

Mario Marcos de Morais, Bom Despacho (1912-1962)211 Os typos são uns elementos espelhantes, que compõem vasto reflector de toda variante do humano pensamento, – constelação de idéias do firmamento do cérebro, que se imprime no papel.

João de Araújo Santiago, Sant’Ana de São João Acima (Distrito do Pará [de Minas]), 1890212.

Consideradas as idéias nos excertos de Marcos Morais e João Santiago, publicadas pela imprensa local em dois diferentes momentos (1890 e 1960), talvez seja oportuno dizer que os periódicos podem ser tomados como importantes meios/fontes de

informação do/sobre o oeste de Minas Gerais sob pelo menos duas dimensões: porque,

conforme nos fazem pensar as palavras de Mário Marcos de Morais, eles dão notícia dos acontecimentos e sentimentos de seus produtores na relação que estabelecem com o espaço, por meio de seus “testemunhos”. Ao mesmo tempo, o próprio ato de enunciação daquela relação – possível pela tipificação de “toda variante do pensamento

humano”213 – é, digamos, um ato de informação214 no sentido de produção de formas,

de cristalização e/ou aprisionamento do espaço. Por este ato ele é separado, balizado posto que “apreendido, assimilado ou armazenado pela percepção e pela mente

humanas”215. Tomar os periódicos como fonte de informação, digamos à maneira de

Agamben, interlocutor de Foucault e Benveniste, coloca-nos diante de dois problemas:

211 CINQÜENTENÁRIO DE BOM DESPACHO (1919-1962). Bom Despacho. Jun. 1

212 SANTIAGO, José de Araújo. Recordando e respondendo. Centro de Minas. Sant’Ana de São João

Acima (Pará de Minas). 20 de abril de 1890. Ano I, n. 2. p. 1.

213 SANTIAGO, José de Araújo. op. cit. p.1

214 “Em nosso juízo, a raiz etimológica da informação, que equivale a dar forma, por em forma, formar, configurar e, por extensão, representar, apresentar ou criar uma idéia ou uma noção, é valioso ponto de

partida. Sem dúvida, informar é dar uma forma ou um suporte material a uma vivência pessoal ou a uma imagem mental do emissor; mas não é só isso. O suporte ou forma necessita de associar-se a uma série de signos ou símbolos convencionais que objetivam tal forma, de modo a torná-la transmissível. O sujeito ativo transforma a imagem mental formalizada (mensagem) numa série de signos (codificação) que se transmitem para serem decifrados e interpretados pelo sujeito receptor.” XIFRA-HERAS, Jorge. A Informação Cotidiana In: A Informação: análise de uma liberdade frustrada. São Paulo: EDUSP/Lux, 1975.

215 Recorro aqui à definição bastante corriqueira de informação de HOLANDA, Aurélio Buarque de. Miniaurélio da Língua Portuguesa. Nova Fronteira. 2007.

o do arquivo, das questões relativas ao dito e o não-dito; e o do testemunho, entre o dizível e o não dizível216.

E se essas conjecturas têm cabimento, é ainda necessário perguntar: quais periódicos existiram e que ainda se encontram disponíveis para consulta podem dar notícia (informar ou produzir configurações) do oeste de Minas, seja para confirmar ou refutar os anseios jornalísticos de Morais ou a tese “tipográfica” de Araújo? Onde e como poderiam ser encontrados? Seria adequado seguir a sugestão de Morais e procurá- los “nas vetustas estantes do Arquivo Público Mineiro” ou quem sabe “nos escaninhos

de algum móvel antigo”, ainda que o ano de 2012 já não nos pareça tão distante? O que

eles teriam informado e o que podem ainda [nos] informar?

Foram várias as tentativas de encontrar formas de representação do oeste de Minas na imprensa local desde o primeiro contato consciente com um periódico local – especificamente com o editorial do jornal O Abaeté, dirigido por Joaquim José de Oliveira, cuja primeira edição foi publicada em 1904. Sua leitura suscitou questões relativas às formas de representação desse espaço específico. Mobilizado pelas questões e sugestões encontradas no percurso de pesquisa, proponho continuar a construção da narrativa seguindo, ainda que por pouco tempo, caminho já devassado da história da imprensa mineira em busca dessas informações preliminares para tentar avançar.

Meu ponto de partida bastante superficial e arbitrário – ainda que procedimento recorrente que parece consolidado entre aqueles que escrevem sobre a imprensa mineira – consiste em começar pela lista de periódicos mineiros do século XIX produzida por José Pedro Xavier da Veiga em 1897 e publicada pela Revista do Arquivo Público Mineiro, em 1898217. Esta relação é, ainda hoje, considerada o mais

completo levantamento feito dos periódicos mineiros, até o século XIX218. Para

confeccioná-la, o autor utilizou-se especialmente das coleções e periódicos avulsos que

216 AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz.: o arquivo e a testemunha (Homo Sacer III). São

Paulo: Boitempo, 2008, p. 146.

217 VEIGA, José P. Xavier da. A imprensa em Minas Gerais (1807-1897). Revista do Arquivo Público Mineiro, Ouro Preto, 1898, Ano. III, p. 195-236.

218 No que se refere às fontes sobre as tipografias e tipógrafos em Minas Gerais, Moreira observa que “são raras e

marcadas por uma forte inadequação. (...) Entretanto, é possível descobrir pistas sobre o cotidiano dessas empresas por meio de fontes ditas “oficiais”. Os registros da Presidência da Província de Minas Gerais, sob a guarda do Arquivo Público Mineiro, (...) a documentação das câmaras municipais mineiras, conservada no mesmo Arquivo, (...) a legislação pertinente (...) pois, em conformidade com o artigo 303 do Código Criminal de 1830, as tipografias deveriam ser registradas na própria câmara, em códice específico (...). Os próprios periódicos podem nos oferecer dados sobre seu cotidiano por meio dos avisos, anúncios e discursos referentes à subscrição, locais de venda, periodicidade e, sobretudo, à sua tendência política. (MOREIRA, Luciano da Silva. Combates tipográficos.

havia reunido e, posteriormente, encaminhado ao Arquivo Público Mineiro219. Muitos deles não resistiram ao tempo e – excetuando-se a possibilidade de encontrar exemplares conservados em algum arquivo particular que não nos foi possível consultar – encontram-se registrados apenas naquele trabalho de sistematização.

Mas por que começar essa busca de informações sobre o oeste de Minas, pela “velha” lista de Xavier da Veiga, ao invés de vasculhar outros lugares oficiais de conservação da lembrança da imprensa mineira, por exemplo, dos periódicos do acervo atual da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa/Hemeroteca Histórica que, em parceria com o Arquivo Público Mineiro, disponibiliza, digitalizados, todos os 266 títulos que possui de jornais mineiros produzidos no século XIX (1824-1900)220? Os

periódicos lá existentes estão hoje relativamente bem conservados: foram digitalizados e os jornais do século XIX - muitos dos quais serviram de base para a confecção da lista de Veiga – estão disponibilizados, na íntegra, para consulta on-line221. No entanto, muitas justificativas poderiam ser dadas para começarmos pela lista e não pelo acervo da Hemeroteca, nem pelos títulos encontrados em arquivos particulares, sobretudo quando a idéia inicial é um levantamento dos títulos existentes. Poderíamos evocar justificativas de ordem: a) quantitativa – a lista de Xavier da Veiga, ainda que não abranja a produção dos últimos três anos do século XIX, traz uma relação de títulos bem mais completa do que o acervo atual do Arquivo Público Mineiro222; b) cronológica – porque a lista é mais antiga ou foi elaborada em um momento bem mais próximo da produção e circulação dos jornais sistematizados; c) metodológica – porque ela é já uma sistematização do que pode ser encontrado no acervo do arquivo e, portanto, mais adequada para uma consulta preliminar; d) subjetiva – posto que em grande medida seja uma decisão arbitrária tal qual boa parte das escolhas narrativas feitas pelo historiador e

219 Para uma relação dos documentos doados por Xavier da Veiga ao APM cf.: LIMA, Augusto de. José Pedro

Xavier da Veiga: esboço biográfico. In:____. Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano VI. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. 1901. 24-25. A iniciativa de Xavier da Veiga “coincide” com “a colaboração valiosa [de] (...) Lafaiete de Toledo, divulgando a sua ‘Memória histórica’ (...) com o registro comentado de 1.536 jornais e revistas da Província/Estado de São Paulo” (LUCA, Tânia Regina de e MARTINS, Ana Luiza. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008. p. 14) não apenas quanto à época de publicação (1897) com pelo suporte em que foi divulgada – uma revista de estudos históricos.

220 Sobre o projeto de digitalização do acervo dos jornais mineiros do século XIX ver VENÂNCIO, Renato

Venâncio e CASASCA, Marina. Revista eletrônica Cadernos de História. Ano II, n. 01, março de2007. p. 5.

221 Ver http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/jornais/search.php

222 Xavier da Veiga contabilizava que, salvo “alguma omissão, (...) até agora em Minas Geraes [tem

havido] 861 gazetas, publicadas em 117 localidades (83 cidades, 3 villas e 31 arraiais) compreendidas em 86 municípios”. Sendo 123 os municípios do Estado à época “verifica-se que somente 37 não têm tido ainda um órgão seu na imprensa”. Só para o ano de 1897, o autor dava notícia da existência de 119 jornais e periódicos publicados e em toda a sua lista apresentava 595 títulos a mais do que a lista atual da Hemeroteca do Estado. VEIGA, José P. Xavier da. A imprensa em Minas Gerais (1807-1897). p. 234.

que não corresponde necessariamente aos caminhos, digamos da pesquisa empírica, ainda que eu compartilhe da preocupação de Norbert Elias em poupar o leitor “da

dificuldade de tentar compreender as idéias posteriores como se houvessem surgido do nada”223.

Mas o que há de informação nesta lista de periódicos do século XIX que poderia interessar de forma tão urgente àquele que quer saber mais sobre o oeste de Minas? Pelo menos no que se refere aos títulos há a possibilidade de identificação do aparecimento e utilização da categoria Oeste de Minas como meio de informação do espaço pelos periódicos do século XIX sem necessariamente realizar uma delimitação a

priori desse espaço. Quer dizer, torna possível apreender a produção do oeste de Minas

enquanto espaço que ganha forma/nome – Oeste de Minas - pelos jornais e não necessariamente identificar os jornais produzidos nesse espaço através de uma delimitação que os antecedesse. Nesse sentido, é possível levar adiante um movimento narrativo que primeiro cuide do Oeste de Minas que ganha forma nos jornais [um nome] para, em seguida tratar dos jornais que surgem neste espaço denominado e reconhecido como oeste de Minas. Lidar com a informação como processo cognitivo, lingüístico, histórico, de tomada de consciência do espaço do oeste de Minas realizada pelos jornais e, ao mesmo tempo, tomá-la em seus conteúdos e estratégias na enunciação das relações dos homens com o espaço.

Para a primeira tentativa comecemos pelo título dos periódicos – a principal informação da lista elaborada por Xavier da Veiga, o primeiro diretor do Arquivo Público Mineiro224. Explicava ele que a relação publicada na Revista do Arquivo Público Mineiro indicava “o número, [os] títulos e [a] localidade das gazetas antigas e

atuais [1897] e dos anos em que ellas apparecerão”. Quando possível, “além do ano, o mez e o dia em que apparecerão as diversas publicações periódicas”225. Considerando

os títulos dos periódicos mineiros sistematizados, não seria possível afirmar que, até pelo menos 1859, exista a enunciação de uma diferenciação do espaço em Minas Gerais, na imprensa mineira, tampouco se tem indícios da utilização da categoria Oeste de Minas para representá-lo. Até então, enunciavam-se, mormente a “centralidade

223 ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994. p. 9.

224 Sobre a trajetória de Xavier da Veiga, ver: CARNEIRO, Edilane Maria de Almeida e NEVES, Marta

Eloísa Melgaço. Introdução. VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides Mineiras 1664-1897. Belo Horizonte: Centro de Estudos Históricos e Culturais. Fundação João Pinheiro, 1998. p. 15-40.

político-cultural das antigas áreas mineradoras”226. Títulos como O Universal227, O

Guarda Nacional Mineiro, Mentor dos Brazileiros, de Ouro Preto, concorrem para

serem os mais explícitos na enunciação da vontade de exercício de uma relação política importante na construção da nacionalidade quanto uma função centralizadora da capital da província em relação aos municípios. E nem é necessário recorrer ao lugar de produção dos jornais para observar o seu lugar de enunciação – a posição do sujeito enunciador que não necessariamente decorre da localização das tipografias. Bastaria uma leitura atenta dos títulos para se pensar que o jornal e o jornalismo mineiro, até a primeira metade do século XIX, pelo menos, não seria mais do que O Companheiro do

Conselho (1825) posando de O Patriota Mineiro (1825), ambicionando território

político [O] Unitário (1838). Ainda que ouvisse O Grito do Povo (1833) como um

Echo de Minas (1847) parecia sempre pronto a defender O Permanente (1833) interesse

do governo provincial. Para tanto, era O Monarquista Leal (1840), O Legalista (1842) incondicional, O Noticiador (1848) implacável do Expediente do Governo Provincial de

Minas-Geraes (1845), às vezes Conservador, às vezes Liberal228, quase sempre

convertido n’O Mineiro (1833), Conciliador (1849).

Poder-se-ia argumentar que esse esforço de enunciação da unidade política mineira que não faz referência a categorias diferenciadoras do espaço tenha sido mera ilusão criada no ato de leitura e interpretação da lista de Xavier da Veiga. Isto porque se teria considerado apenas títulos de periódicos produzidos em Ouro Preto, sede do governo provincial e de onde, evidentemente, não se poderia estranhar discurso de tom unificador e conciliador. Entretanto, é na própria lista de Xavier da Veiga que se observa que, das onze cidades de Minas Gerais detentoras de folhas, até o fim da primeira metade do século XIX (Ouro Preto, São João Del Rei, Diamantina, Mariana, Serro, Pouso Alegre, Campanha, Sabará, Caeté, Barbacena, Tiradentes), nenhuma trazia no título qualquer

226 VENÂNCIO, Renato V. e CASASCA, Marina. Revista eletrônica Cadernos de História. Op. cit. 2007. p. 5. 227 O Universal surgiu em Ouro Preto em 17 de julho de 1825, com quatro páginas em formato 25 x 16, e

saía três vezes por semana. Foi o terceiro periódico a surgir na capital mineira, com duração surpreendente, uma vez que eram raros os jornais que ultrapassavam a marca de um ano de existência, O

Universal circulou até 1842, interrompendo suas atividades em função da revolução liberal que tomou

conta da província de Minas Gerais, capitaneada, sobretudo, por Teófilo Ottoni. “A iniciativa de publicação do jornal coube diretamente ao impressor Manoel Barbosa, que foi seu proprietário durante os dois primeiros anos. Contava nessa época com a colaboração de escritores e políticos eminentes de Minas Gerais, que permaneciam, porém, ocultos sob diferentes pseudônimos, prática comum na imprensa brasileira da época e dado relevante a ser considerado em qualquer análise que se atenha sobre a produção jornalística no período.” ARAÚJO, Maria Marta. Impressores, editores e correspondentes: as origens da imprensa periódica em Minas Gerais. Revista UFG. Dez, 2008. Ano. X. nº 5. p. 35.

228 O Conservador de Minas (1870) e o Liberal de Minas (1868). Cf. Lista de Xavier da Veiga. VEIGA,

referência à diferenciação regional do espaço. Ainda que fossem produzidas em diferentes lugares. Pelo menos as referências espaciais se restringiam às unidades locais: à sede municipal ou ao núcleo urbano específico do município em que o jornal era produzido; ou ainda, estavam atadas ao recorte provincial ou à uni[versali]dade nacional.

Essa ausência de categorias diferenciadoras-regionalizadoras do espaço mineiro, no título dos periódicos, mesmo que seja um dado muito parcial, sugere que o jornalismo passava por um momento de definição do lugar egocêntrico do sujeito, fundamental na definição da orientação espacial, ou na regionalização do espaço mineiro. Tal qual um observador em busca de orientação espacial que ainda esteja embevecido com a descoberta do lugar que deve ocupar em relação ao referencial (no caso dos pontos cardeais, o sol) para que possa tratar das peculiaridades do leste, oeste, norte e sul. Nos termos da história política, talvez se tratasse ainda de um esforço de centralização do poder, embora não muito tempo depois a questão da descentralização já fizesse parte da pauta, conforme se pode perceber pelos próprios títulos dos jornais.

A propósito, é somente em 1859 que surge o Sul de Minas, cuja categoria de regionalização enunciada no título é reafirmada pelo Radical Sul-Mineiro apenas em 1868. Os dois jornais eram da cidade de Campanha, terra natal de Xavier da Veiga. Sua família era quem mantinha O Sul de Minas, que serviu como espaço de defesa das idéias sobre a descentralização administrativa da monarquia229. Depois surgiram a Estrela do Sul de Bagagem (1881) e O Correio do Sul de São José do Paraíso (1894), reafirmando esta categoria de diferenciação do espaço mineiro. A partir dessa data (1859) é possível acompanhar, na lista do autor, o surgimento de outras categorias espaciais de diferenciação do espaço mineiro, enunciadas nos títulos dos periódicos que eram criados em diferentes espaços da província de Minas (até 1889) e do estado, após a proclamação da República. Ora utilizaram-se critérios “naturais” de regionalização (como a bacia de um rio, por exemplo), ora tomaram-se as (novas) formas de delimitação do território mineiro ou, ainda, os pontos cardeais cuja referência central (digamos, a posição do sujeito que se orienta) era Ouro Preto, a capital. Assim, Uberaba enunciava O Paranayba em 1874, seguido por Araxá, em 1884. Diamantina dava publicidade a’O Norte de Minas (1878), Sacramento “sacramentava” O Triângulo Mineiro (1887); só mais tarde foi seguido por Uberaba que, ouvindo o Echo do Sertão (1874-1876), já em tempos republicanos, passou a editar também

229 Cf. SILVA, Marisa Ribeiro. História, memória e poder: Xavier da Veiga, o arconte do Arquivo Público Mineiro. Belo Horizonte: UFMG/Pós-Graduação em História, Linha Ciência e Cultura,

o seu [O] Triangulo Mineiro (1897). Leopoldina lança sua Gazeta do Leste em 1890, cuja categoria espacial é reafirmada pelo [O] Leste de Minas, de Barbacena (1891).

E a categoria Oeste de Minas, que nomeia uma daquelas regionalizações que compõem nossa trama homônima, não estaria presente nos títulos da lista de periódicos de Xavier da Veiga? Aparece timidamente, já fenômeno republicano, no mesmo ano da enunciação da Zona da Mata, pela Gazeta da Mata de Juiz de Fora (1891) e um ano depois da enunciação do Centro de Minas (1890) na cidade do Pará [de Minas], em folha produzida no distrito de Sant’Ana de São João Acima230. A categoria é enunciada em

Tamanduá231 (Itapecerica) pelo título do Correio do Oeste (1891)232 e em Formiga e Bom

Sucesso, ambos em 1893, respectivamente como O Oeste e O Oeste de Minas. Enfim, de todas as categorias espaciais diferenciadoras do espaço mineiro mobilizadas pelo título dos jornais locais – Sul, [Alto] Paranayba, Norte de Minas, Triângulo Mineiro, Leste de Minas, [Zona da] Mata, Centro e Oeste de Minas, a categoria Oeste de Minas é a mais recente.

Considerando que sua utilização nas representações cartográficas só se verifica já no século XX, poderíamos dizer que a figuração Oeste de Minas tem no jornal local um lugar privilegiado de gestação e seu aparecimento poderia ser relacionado às configurações sociais daquele momento: à dinâmica social, política e econômica que teriam como estratégia importante nas relações de poder a enunciação da diferenciação do espaço e o jornal local seria então o lugar privilegiado de gestação dos discursos - e não a cartografia. Nesse sentido, se para o século XVIII/XIX, as representações cartográficas parecem ser as principais fontes de informação das/sobre as relações do homem como o espaço, para o século XIX, é o jornal que serve a tal função.

A leitura do conteúdo dos primeiros jornais que utilizam o termo Oeste de Minas em seus títulos seria imprescindível para avançar na compreensão da necessidade de especificação do espaço naquele momento e para apreendermos, ainda que

230 Interessante notar que já neste momento enuncia-se o centro de Minas que antes era tomado como

subentendido Ouro Preto. A enunciação do centro de Minas em Pará de Minas, Sant’Ana do Rio Acima (atual Itaúna, 1890) e depois em Curvelo poderiam ser relacionadas às discussões sobre o lugar onde deveria ser construída a capital do Estado que depois fora para o Curral Del Rei. Sobre o Centro de Minas de Curvelo, ver: NORONHA, Gilberto Cezar de. Para além do “sertão do litoral”: as disputas pela caracterização do espaço na imprensa local do oeste de Minas Gerais, nos primeiros anos da República. Anais do III Simpósio Internacional

Cultura e Identidades de 12 a 17 de setembro de 2007. Goiânia. Universidade Federal de Goiás. 2007.

231 Xavier da Veiga ainda utiliza a denominação Tamanduá que foi modificada para Itapecerica pela lei n. 2995,

de 19 de outubro de 1882. Nas primeiras décadas do século XIX, o município de São Bento do Tamanduá possuía