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A palavra letramento, segundo Soares (2009), vem do inglês literacy que designa estado ou condição que assume aquele que aprende a ler e a escrever. De acordo com a autora, implícita a esse conceito está a ideia de que a escrita traz consequências sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, linguísticas, quer para o grupo social em que seja introduzida, quer para o indivíduo que aprenda a usá-la.

Tfouni (2006, p. 20) esclarece que enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos sócio históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade.

Soares (2009) considera que alfabetizar significa orientar a criança para o domínio da tecnologia da escrita; letrar significa levá-la ao exercício das práticas sociais de leitura e de escrita. Neste sentido, a autora ainda afirma que adquirir a “tecnologia” do ler e escrever e envolver-se nas práticas sociais de leitura e de escrita tem consequências sobre o indivíduo, e altera seu estado ou condição. Ela ainda explica que o letramento não é simplesmente um conjunto de habilidades individuais, mas sim um conjunto de práticas sociais ligadas à leitura e à escrita em que os indivíduos se envolvem em seu contexto social, destacando que, apesar de distintas, a alfabetização e o letramento são dois processos que não devem ser separados, pois eles se complementam. Concordamos com Soares (2009), pois entendemos que apenas saber ler e escrever não é suficiente para atuar com autonomia nas práticas sociais de leitura e escrita, ainda mais em tempos de cultura digital.

Nas palavras de Rojo (2012, p. 36) “o conceito de letramento abre horizonte para compreender os contextos sociais e sua relação com as práticas escolares, possibilitando investigar a relação entre práticas não escolares e o aprendizado da leitura/escrita”. Assim, Soares (2009, p. 58) destaca que “despertar para o fenômeno do letramento e incorporá-lo ao nosso vocabulário educacional significa que já compreendemos que

nosso problema não é apenas ler e escrever, mas é, também, [...] envolver-se em práticas sociais de leitura e de escrita.” E, para tanto, designa o letramento que é específico da situação escolar de letramento escolar.

Tendo em vista os diferentes contextos em que podemos encontrar o texto escrito, é importante ressaltar que não existe o letramento e sim, ‘letramentos’, pois nesta perspectiva a tela do computador, por exemplo, constitui um novo suporte para a leitura e escrita. Nessa ótica, o letramento tradicional se diferencia do letramento digital na medida em que este último direciona “as práticas de leitura e da escrita digitais, na cibercultura, de modo diferente daquele como são conduzidas às práticas de leitura e de escrita quirográficas e topográficas” (SOARES, 2002, p.146).

Nos estudos de letramento discutidos por Street (1984) encontramos a afirmativa de que a leitura digital requer habilidades de descobrir relações complexas entre páginas, próprias do hipertexto, e habilidades convencionais exigidas em textos lineares. Por sua vez, Pinheiro (2005) constatou que, na leitura de hipertextos, os leitores acionam algumas estratégias utilizadas em textos impressos, como as habilidades de letramento verbal, considerado por Soares (2002) como, também, outras próprias da leitura hipertextual. Lemke (2002) considera que os eventos de letramento ocorridos através das tecnologias digitais se constituem de várias modalidades, como a sonora e a visual, que dependendo das cenas de letramento, co-ocorrem em níveis distintos de importância.

A leitura hipertextual é um processo que requer multiletramentos, como afirma Snyder (2008)

em um mundo eletronicamente mediado, ser letrado tem a ver com a compreensão de como as diferentes modalidades semióticas são combinadas de forma complexa para criar significado. As pessoas precisam aprender a construir sentido em relação aos sistemas de ícones presentes nas telas de computador – com todas as combinações de signos, símbolos, imagens, palavras e sons (SNYDER, 2008, p. 3).

Lévy (1999) postula que o letramento digital constitui-se de um conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem como um novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial entre os computadores e com o crescimento do ciberespaço.

Seguindo a mesma concepção teórica, Chartier (2002) comenta que não seria adequado simplesmente transpor o conceito de letramento para outros meios, como o digital; em geral, os novos meios tornam necessária a promoção de novas aprendizagens, embora algumas características se mantenham. Se levarmos em conta a diversidade das tecnologias digitais em nossa cultura contemporânea, vemos que criamos novas possibilidades de comunicação, inserindo o uso de imagens, de som, de animação e a combinação dessas modalidades. Tais possibilidades são evidenciadas por Street (2003), que considera que os letramentos são múltiplos; variam no tempo, no espaço e de acordo com as situações; são estritamente determinados por relações de poder.

Da mesma forma, Xavier (2005) entende como letramento digital novas práticas de leitura e escrita diferentes das formas tradicionais de letramento e alfabetização (XAVIER, 2005). Portanto, para esse estudioso, ser letrado digital é

assumir mudanças nos modos de ler e escrever os códigos e sinais verbais e não verbais, como imagens e desenhos, se compararmos às formas de leitura e escrita feitas no livro, até porque o suporte sobre o qual estão os textos digitais é a tela, também digital (XAVIER, 2005, p. 135).

Rojo (2012) discute o conceito de letramento, ampliando-o para multiletramento, esclarecendo que a adição do prefixo “multi” ao termo letramento não é uma questão restrita à multiplicidade de práticas de leitura e escrita que marcam a contemporaneidade:

as práticas de letramento contemporâneas envolvem, por um lado, a multiplicidade de linguagens, semioses e mídias envolvidas na criação de significação para os textos multimodais contemporâneos e, por outro, a pluralidade e diversidade cultural trazida pelos autores/leitores contemporâneos a essa criação de significação (ROJO, 2012, p. 56).

Rojo (2009) aponta, também, que um dos objetivos principais da escola é justamente possibilitar que seus alunos possam participar das várias práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita (letramentos) na vida da cidade, de maneira ética, crítica e democrática. Para fazê-lo, é preciso que a prática de leitura leve em conta hoje:

a) os multiletramentos ou letramentos múltiplos, também de maneira ética e democrática, deixando de ignorar ou apagar os letramentos das culturas locais de seus agentes (professores, alunos, comunidade escolar) e colocando-os em contato com os letramentos valorizados e institucionais; como diria Souza Santos (2005), assumindo seu papel cosmopolita;

b) os letramentos multissemióticos exigidos pelos textos contemporâneos, ampliando a noção de letramento para o campo da imagem, da música, das outras semioses e sistemas de signos que não somente a escrita alfabética, como já prenunciava, por exemplo, a noção de “numeramento”; o conhecimento de outros meios semióticos está ficando cada vez mais necessário no uso da linguagem, tendo em vista os avanços tecnológicos: as cores, as imagens, os sons, o design etc., que estão disponíveis na tela do computador e em muitos materiais impressos, que têm exigido outros letramentos, por exemplo, o letramento visual e que “têm transformado o letramento tradicional (da letra) em um tipo de letramento insuficiente para dar conta daqueles necessários para agir na vida contemporânea” (MOITA-LOPES; ROJO, 2004, p. 38); c) os letramentos críticos e protagonistas requeridos para o trato ético dos discursos em uma sociedade saturada de textos e que não pode lidar com eles de maneira instantânea, amorfa e alienada; como afirmam Moita-Lopes; Rojo (2004, pp. 37-38), [...].

No nosso entendimento, o ensino de leitura voltado para essas multiplicidades de prática de letramentos preparará o leitor para a recepção, apreciação e produção de novos letramentos, inserindo-o na contemporaneidade.

Para Rojo (2012, p. 19), as imagens e o arranjo de diagramação impregnam e fazem significar os textos contemporâneos. Isso tem sido chamado de multimodalidade ou multissemiose dos textos, que exigem multiletramentos. “Ou seja, textos compostos de muitas linguagens (ou modos, ou semioses) e que exigem capacidades e práticas de compreensão e produção de cada uma delas (multiletramentos) para fazer significar.”

A autora defende que a formação de um leitor proficiente é um dos principais objetivos do ensino de Língua Portuguesa, para tanto é preciso levar em conta o caráter multimodal dos textos e a multiplicidade de sua significação, com vistas aos multiletramentos.