3.6 Bunndyrundersøkelser
4.4.3 Vekst
4.4.3.2 Aure
Em 1844, Marx publicou no único número dos Anais Franco-Alemães, revista que um grupo da esquerda hegeliana alemã fundara em Paris para escapar da censura da monarquia prussiana, dois ensaios que, ao romperem com o universo conceitual jusracionalista, rousseauniano e liberal, marcaram o efetivo início da sua contribuição teórico-filosófica original: Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel e A questão
judaica. Esses dois trabalhos
[...] marcam a virada de perspectiva, que consistiu na transição do liberalismo burguês ao comunismo. Nos anos em que se gestavam as condições para a eclosão da revolução burguesa na Alemanha, o jovem ensaísta identificou no proletariado a classe agente da transformação mais profunda, que devia abolir a divisão da sociedade em classes. Contudo, o procedimento analítico e a formulação literária dessas idéias mostravam que o autor ainda não adquirira ferramentas discursivas e linguagem expositiva próprias, tomando-as de Hegel e de Feurbach. Do primeiro, os giros dialéticos da história humana. Do segundo, o humanismo naturista. A novidade residia na introdução de um terceiro componente, que seria o fator mais dinâmico da evolução do pensamento do autor: a idéia do comunismo e do papel do proletariado na luta de classes69.
Na Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel, Marx não só cruza a fronteira política do liberalismo para o comunismo, como alcança novas percepções que deixariam para sempre sinais em sua produção teórica, embora ainda sob certa insuficiência conceitual que teria de superar. Conquanto, como na precedente Crítica, ainda parta do arsenal feuerbachiano da alienação religiosa, Marx já ensaia, neste novo trabalho, uma crítica do direito, do Estado e da atrasada sociedade alemã, identificando no proletariado gerado pela indústria a única classe que, devido às suas condições sociais de existência, seria capaz de abrir as portas à emancipação humana, pois sua libertação não teria como se
completar sem promover consigo a libertação geral.
É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder. Mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o
mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade
produzem a religião, uma consciência invertida do mundo [...]. A religião é a teoria geral deste mundo [...], sua lógica em forma popular [...], sua base geral de consolação e justificação. É a realização fantástica da essência humana [...]. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião70.
“O homem faz a religião”, que é a “consciência invertida do mundo” e a “realização fantástica da essência humana” – até aqui, Feurbach praticamente puro. Mas, quando aponta que “o homem não é um ser abstrato, acocorado fora mundo, o homem é o
mundo do homem, o Estado, a sociedade”, Marx ultrapassa a noção jusnaturalista,
individualista e liberal da anterioridade (ontológica, histórica ou axiológia) do homem em relação à sociedade e já começa a conceber o homem como um ser necessariamente social.
Marx encerra a avaliação da religião com esta imagem trespassada, a um só tempo, de indignação e clemência, tantas vezes deslocada do contexto próprio por seus adversários:
A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo71.
Ópio: lenimento da dor que a tantos atormenta, irresignação à busca de escape no desejo mágico de “outra” vida em que as aflições não persistam.
“A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real”72. Por isso, “O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de
ilusões”73. Por isso, em Marx, a crítica da religião transita desde logo para a crítica da sociedade: “A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola”74. Havendo a filosofia completado a crítica da religião, sua nova tarefa é encetar a crítica do próprio mundo:
70 MARX, Karl. Crítica à filosofia do direito do direito de Hegel – Introdução. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005, p. 145.
71 Idem, ibidem. 72 Idem, ibidem. 73 Idem, pp. 145-146. 74 Idem, p. 146.
A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem os suporte sem fantasia ou consolo, mas para que lance fora os grilhões e a flor viva brote. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão[...]. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não circula em torno de si mesmo.
Consequentemente, a tarefa da história, depois que o outro mundo da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa
imediata da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a auto-
alienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política75.
Esse deslocamento “do céu para a terra”, “da teologia para a política”, que ilumina um rumo que nortearia Marx pelo resto da vida, começava pela crítica da Alemanha semi-feudal e absolutista, atrasada em relação à França e a Inglaterra, que já haviam realizado suas revoluções burguesas: os alemães compartem das “[...] restaurações de nações modernas, sem termos tomado parte das suas revoluções”76. Assim, trata-se de “[...] recusar aos alemães um instante sequer de ilusão e resignação. A pressão deve ainda tornar-se mais premente pelo fato de despertar a consciência dela [...]”77. Mas o torpor político domina a Alemanha, cuja classe dominante entretém-se na especulação filosófica: “Em política, os alemães pensaram o que os outros povos fizeram”78.
Contra essa paralisia especulativa, Marx opõe a crítica, que “[...] não é a paixão da cabeça, mas a cabeça da paixão [...], é uma arma”79. Contudo,
É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria converte-se em força material quando penetra nas massas. A teoria é capaz de se apossar das massas ao demonstrar-se ad hominem, e demonstra-se ad
hominem logo que se torna radical. Ser radical é agarrar as coisas pela raiz.
Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem80.
Arma da crítica e crítica das armas, força material e teoria radical convertida em força material – esta inovadora interação entre luta teórica e combate prático avançava na completa contramão do idealismo, para o qual bastaria contrapor idéia a idéia.
A revolução burguesa da Alemanha, contudo, deter-se-ia face a uma dificuldade fundamental: a ausência de um elemento social “passivo”, “base material” 75 Idem, ibidem. 76 Idem, ibidem. 77 Idem, p. 148. 78 Idem, p. 151. 79 Idem, p. 147. 80 Idem, p. 151.
receptora e animadora da teoria, um elemento que, para defender seus interesses particulares, estivesse disposto a apresentar-se à coletividade como classe universal, como “representante geral da referida sociedade”81, contra outra classe que simbolize a repulsa geral, como procedera a burguesia francesa em relação à nobreza e ao clero. Portanto, a emancipação alemã dependeria inteiramente do florescimento de uma classe que tivesse cadeias radicais, caráter universal, que não reivindicasse uma reparação particular para si, mas o título
humano. Uma classe, por fim, que
[...] não pode emancipar-se a si mesma nem se emancipar de todas as outras esferas da sociedade sem emancipá-las a todas elas – o que é, em suma, a
perda total da humanidade, portanto, só pode redimir-se a si mesma por uma
redenção total do homem. A dissolução da sociedade, como classe particular, é o proletariado.
Na Alemanha, o proletariado está apenas começando a se formar, como resultado do movimento industrial; pois o que constitui o proletariado não é a pobreza naturalmente existente, mas a pobreza produzida artificialmente82.
O proletariado negará a propriedade privada e, ao fazê-lo, “apenas estabelece como princípio da sociedade o que a sociedade já elevara a princípio do proletariado”83. Por fim,
Na Alemanha, nenhum tipo de servidão será abolido, se toda a servidão não for destruída. [...] A emancipação do alemão é a emancipação do homem. A filosofia é a cabeça desta emancipação e o proletariado o seu coração84.
Claro: a história mostraria que a esperança não se realizaria, pois a burguesia da Alemanha conseguiria tornar-se classe dominante, sem que fosse derrubada “toda a servidão”. Além disso, o conceito de “emancipação humana” padecia de insuficiente consistência, e a própria noção do proletariado como agente revolucionário, conquanto fosse uma conquista conceitual cujas potencialidades Marx desenvolveria depois, ainda não se descolara do homem auto-alienado de Feurbach (o proletariado é a “perda da humanidade” e a busca da sua redenção).
Mas o deslocamento da crítica “do céu para a terra”, a incisiva afirmação do homem como ser social e a ferramenta da interação teoria-prática, já impeliam Marx uma légua à frente do idealismo e da metafísica de seu tempo.
81 Idem, p. 154. 82 Idem, p. 156. 83 Idem, ibidem. 84 Idem, ibidem.