Após a guerra, a Doutrina Truman estabeleceu o Plano Marshall, contribuindo com mais de 13,2 bilhões de dólares para a reconstrução europeia entre 1948 e 1951, com o objetivo de conter o avanço do comunismo. A importância econômica e geopolítica do apoio à Europa, pelos Estados Unidos, foi destacada pelo Relatório “European Recovery and American Aid: a Report”, preparado pelo Comitê Presidencial sobre a Ajuda Internacional, de
7 de Novembro de 1947, preparado pela equipe liderada pelo Secretário de Comércio, William Averell Harriman:
A questão que confronta este país é: os Estados Unidos têm um interesse vital na recuperação europeia? Os elementos desse interesse são três: humanitários, políticos e econômicos. Eles devem ser sopesados para que se decida se, em conjunto, há de fato um interesse vital dos Estados Unidos. O apelo humanitário se apresenta pelo espetáculo de milhões de europeus para quem este inverno será um inverno de frio e fome. [...] Grandes quantidade de dinheiro e tremendas quantidades de commodities foram disponibilizadas pelo povo americano desde o Dia da Vitória às nações sofrendo com a destruição e com o desalojamento [ causados pela] mais terrível guerra da história. Porém [...] qualquer plano de ajuda à Europa que empreendamos deve ser um plano de recuperação para a Europa, com o objetivo principal de restaurar aquela área a uma posição autossustentável e de trazer um fim à necessidade de ajuda contínua e indefinida. [...] Nosso interesse econômico está intimamente ligado ao destino da Europa. O comércio americano com a Europa tem sempre sido um fator de suprema importância para a economia americana. Um declínio progressivo no poder de produzir e consumir de 270.000.000 de pessoas na Europa Ocidental e Central teria um poderoso impacto sobre a prosperidade norte-americana. Além disso, condições prósperas na Europa são essenciais para a manutenção do comércio americano em outras partes do mundo. Por exemplo, a África do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia, o Canadá e os países não tropicais da América Latina obtêm, por meio do excedente das exportações para a Europa, os fundos com os quais pagam pelo excedente de importações dos Estados Unidos. Portanto, uma desintegração da economia europeia reduziria o poder desses países de comprar bens dos Estados Unidos. A deterioração da economia europeia pela falta de meios para obter as importações essenciais levaria os países europeus a recorrer ao comércio em monopólio do estado – não apenas para fins econômicos, mas também para fins políticos. Os Estados Unidos teriam inevitavelmente que seguir o mesmo caminho. O sistema resultante de controles estatais, relacionado inicialmente ao comércio internacional, breve teria que ser estendido à economia doméstica a tal extensão que traria riscos à sobrevivência do sistema americano de livre iniciativa. [...] Mas há um terceiro tipo de interesse americano que suplanta os outros, e com o qual qualquer plano de recuperação econômica da Europa Ocidental é diretamente afetado. Este terceiro interesse, o mais importante, embora por simplicidade possa ser chamado político, é de fato muito mais amplo. Ele vem do reconhecimento de que um programa de recuperação da Europa é um investimento na sobrevivência continuada de um mundo economicamente estabilizado e de condutas pacíficas, no qual os governos baseados em princípios democráticos fundamentais prosperam, no qual o Direito e não o poder prevalecem e no qual a liberdade religiosa, a oportunidade econômica e as liberdades individuais são mantidas e respeitadas. Ao estabelecer esse objetivo reconhecemos que há hoje no mundo duas ideologias conflitantes. [...] Caso os países se vejam forçados pelas circunstâncias a dar as costas ao primeiro desses conceitos da vida internacional [o liberalismo] para o segundo [o comunismo] , não mais poderão conduzir seus assuntos internos de acordo com os princípios de liberdade individual e tolerância que são tradicionalmente ínsitos [ ao liberalismo]. A continuidade do American Way of Life e de pensamento americano, portanto, requer que os povos do mundo compreendam a solidez
da primeira dessas filosofias da vida internacional [o liberalismo]. [...] [O]s países da Europa Ocidental não podem continuar desassistidos a desempenhar esse papel. Se não conseguirem logo obter uma melhoria de sua situação por meios democráticos, eles podem ser levados à direção oposta (ESTADOS UNIDOS, 1947).
O conflito ideológico não se resumiria à Europa. Com o crescimento dos movimentos nacionais de independência das antigas colônias dos países europeus após a Segunda Guerra Mundial, novas nações surgiriam, tornando-se também objetos da disputa pela hegemonia geopolítica entre os Estados Unidos e a União Soviética na nova ordem econômica e política.
O elevado crescimento econômico da União Soviética levou a adoção do modelo soviético por vários países, e viria a contribuir para o aumento da assistência internacional pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria.
Os trabalhos econômicos da década de 50 eram enfáticos em alertar quanto aos riscos que ofereciam as elevadas taxas de crescimento da União Soviética, que poderiam motivar os países do terceiro mundo a aproximar-se desse país e até mesmo adotar formas comunistas de organização econômica. Wiles (1952-1953) e Thorp (1956) são exemplos desses trabalhos e ilustram o temor do crescimento econômico da União Soviética.
Wiles (1952-1953) destacou a relação entre crescimento econômico, poupança e a disputa geopolítica entre os Estados Unidos e a União Soviética no período:
O comunismo está vencendo o capitalismo em todos os índices de crescimento, seja este na forma de laissez-faire ou do estado de bem-estar social. E em uma guerra fria de longa duração a taxa de crescimento econômico é o fator mais importante, pois ao final o país que crescer mais se tornará maior, e todas as vantagens econômicas pertencerão a ele, seja em poder militar, no domínio dos mercados mundiais ou mesmo em um padrão de vida mais elevado. [...] A União Soviética poupou, em termos do produto interno líquido como fator de custo, 33% em 1937, 38% em 1940 e aproximadamente o mesmo em 1948; [...] os Estados Unidos não fizeram melhor, com 20% de poupança em 1950. [...] É difícil superestimar as vantagens econômicas que o comunismo tem com suas altas taxas de poupança” (WILES,1952-1953, p.574-575).
Thorp (1956) destacou a importância da assistência internacional como propaganda do modelo econômico soviético:
O esforço soviético para expandir as relações econômicas com os países subdesenvolvidos envolve não apenas comércio, mas também créditos, assistência técnica, feiras comerciais, intercâmbio técnico, missões comerciais e propaganda. O padrão comercial mais comum é a troca de produtos primários por bens manufaturados entre os governos. Adicionalmente, a concessão de créditos vem se expandindo em uma escala
crescente. [...] Além dos créditos, tem sido disponibilizada assistência técnica considerável, desde o apoio para a exploração de petróleo na Índia, a instalação de um instituto técnico em Rangum e [a construção de] um hospital de 100 leitos em Cabul. [...] Na competição ideológica, o impacto mais importante dos programas econômicos é o incentivo àqueles do país que já possuem uma tendência para a esquerda (THORP, 1956, p.278 e p.282).
Em 1949, Truman apresentaria, em seu discurso de posse, o compromisso dos Estados Unidos com a assistência internacional aos países subdesenvolvidos:
[e]m quarto lugar, devemos embarcar em um novo corajoso programa para tornar disponíveis os benefícios de nossos avanços científicos e progresso industrial para o desenvolvimento e crescimento das áreas subdesenvolvidas. Mais da metade das pessoas do mundo vivem em condições próximas à miséria. Sua alimentação é inadequada. Eles são vítimas de doenças. Sua vida econômica é primitiva e estagnada. Sua pobreza é uma desvantagem e uma ameaça tanto a eles quanto à áreas mais próximas. Pela primeira vez na história a humanidade possui o conhecimento e a técnica para aliviar o sofrimento dessas pessoas. Os Estados Unidos são proeminentes entre as nações no desenvolvimento de técnicas industriais e científicas. Os recursos materiais com que podemos arcar para prover assistência a outros povos são limitados. Mas nossos recursos imponderáveis em conhecimentos técnicos crescem constantemente e são inexauríveis. Acredito que devemos disponibilizar aos povos amantes da paz os benefícios de nosso estoque de conhecimentos técnicos para ajudá-los a realizar suas aspirações de uma vida melhor. (ESTADOS UNIDOS, 1949)
O compromisso de Truman levaria a iniciativas de grande escala na assistência técnica bilateral e multilateral.
Em março de 1961, em mensagem ao Congresso, o Presidente Kennedy manifestava a importância da assistência internacional para deter o comunismo:
Vivemos um momento muito especial na história. Todo o hemisfério sul do mundo – América Latina, África, o Oriente Médio, e a Ásia – vivem a aventura de afirmar sua independência e modernizar suas antigas formas de vida. Estas novas nações precisam de ajuda por meio de empréstimos e assistência técnica da mesma forma que nós, no hemisfério norte do mundo, precisamos do capital e do know-how uns dos outros no processo de industrialização e crescimento regular. Mas no nosso tempo estas novas nações precisam de ajuda por uma razão especial. Sem exceção elas estão sob pressão comunista. Em muitos casos, a pressão é militar e direta. Em outros, ela toma a forma de uma intensa atividade subversiva planejada para levar ao colapso e substituir as novas e frequentemente frágeis instituições modernas que construíram até agora. Mas a tarefa fundamental de nosso programa de ajuda internacional não é negativamente lutar contra o comunismo. A tarefa fundamental é dar uma demonstração histórica que no século XX, como no século XIX, no hemisfério sul como no hemisfério
norte, o crescimento economico e a democracia política podem desenvolver- se de mãos dadas (ESTADOS UNIDOS, 1961).
O conflito geopolítico entre os Estados Unidos e a União Soviética nos anos 50 e 60 foi o pano de fundo das ações de assistência internacional ao desenvolvimento das nações menos favorecidas. O matizamento ideológico se incorporaria aos diversos conceitos de desenvolvimento que surgiriam nas décadas seguintes.