No esforço de compreender as ocupações pré-coloniais em Diamantina os trabalhos realizados pela UFMG tiveram intuito de entender as ocupações e sua relação com o Brasil Central. Para isso, os trabalhos em arte rupestre desempenhados pela UFMG valeram-se de pressupostos da Arqueologia da Paisagem e entendendo os sítios e seus vestígios como formas culturalmente estruturadas de percepção da paisagem. Ainda que crendo nesta lógica organizativa, não foram deixadas de lado pelos pesquisadores do Setor de que o exercício da percepção e do agir pode se dar de maneira menos normativa, a despeito dos pressupostos estruturalistas mais clássicas (LINKE & ISNARDIS, 2012). Os trabalhos também tiveram a preocupação de aproximações mais hermenêuticas da cultura e das práticas culturais:
[...] buscando entender os diversos elementos da paisagem – os sítios, seus artefatos, seus grafismos, os locais em que estes, esses e aqueles se inserem - como signos que juntos compõem textos específicos, em contextos específicos, passíveis de serem lidos. No que tange aos conjuntos artefatuais líticos, as análises buscam conjugar as noções de cadeia operatória e organização tecnológica, na maneira em que estes conceitos foram propostos por Leroi-Gourhan (1984), em consonância com as abordagens que tradicionalmente são realizadas no Setor de Arqueologia do MHNJB - UFMG, e por Lewis Binford (LINKE & ISNARDIS, 2012, p.31).
As concepções estéticas utilizadas nas análises levaram em consideração as maneiras de se fazer em aproximação com a noção de estilo, incorporando padrões e sequências espaciais, temporais e função, compostos por uma estrutura4. Para os grafismos rupestre, o
desenvolvimento de pesquisas até o momento permitiu, por explorar em detalhes e sistematicamente as expressões gráficas locais, o entendimento minucioso do que a bibliografia entende como Tradição Planalto.
O resultado das primeiras sistematizações e prospecções, o trabalho de Linke (2008) em conjunto com o Setor de Arqueologia da UFMG, incorporou em sua análise 34 sítios de arte rupestre que foram atribuídas a diferentes unidades estilísticas. A metodologia aplicada às prospecções durante a pesquisa foi realizada três áreas distintas (ISNARDIS, 2009); uma na micro-bacia do Rio-Pardinho, abrangendo campos amplos e inselbergues, um vale encaixado
33 e áreas de cabeceiras sem campos; outra que incluía áreas de campos amplos e áreas rochosas sem campo; e a terceira que incluía terraços e vargens amplas de curso d’água mais volumosos sem inselbergues.
O resultado das investigações de Linke (2008, 2014), Isnardis (2009) e Isnardis & Linke (2010, 2012) permitiu a compreensão sincrônica e diacrônica das manifestações estilísticas. A partir dos elementos de cronologia e das variações no modo de compor as figuras, após realização de conferência e incorporação de novos subsídios, Linke (2014) indica a existência de três momentos de ocupação e um duvidoso em nos sítios investigados (Figura 4).
Segundo Linke (2008), o primeiro conjunto privilegia os painéis de maior visibilidade dentro dos sítios e/ou aqueles a partir dos quais se tem maior visibilidade do entorno. As figuras ocupam muitas vezes mais de um painel em cada sítio, mas não os desenham completamente. As figuras, inauguradoras dos sítios, ocupando painéis mais amplos, menos rugosos e menos manchados, não ocuparam exaustivamente os painéis. São compostas por linhas contínuas que perfazem os contornos enquanto poucas linhas preenchem as figuras (quando ocorrem), tendem ao naturalismo mas aparentam ser mais econômicos quanto à quantidade de traços e detalhe (LINKE, 2008; LINKE & ISNARDIS, 2012).
O segundo conjunto, que frequentemente ocorre em sobreposição ao primeiro conjunto, corresponde a grandes figuras zoomorfas naturalistas que podem ultrapassar 1 metro de comprimento e pequenas representações zoomorfas que variam entre 15 e 20 cm. Neste conjunto os cervídeos são os mais numerosos, mas existem também outros zoomorfos, que aparentam serem aves, peixes, tatus, possíveis antas e outros quadrúpedes. Os detalhes anatômicos recebemmuita atenção (orelhas, galhadas, caudas, coxas; os cascos raramente são indicados nos cervídeos), entretanto, os dedos para outros animais são representados com maior frequência. Compostas por preenchimentos muito fluidos, com limites difusos entre preenchimento e contorno, as figuras deste momento inauguraram novos sítios e reocuparam outros intensamente, realizando sobreposições com o primeiro momento e com figuras de seus próprios autores (LINKE, 2008; LINKE & ISNARDIS, 2012).
O terceiro conjunto, posterior aos outros dois conjuntos, é formado por figuras de pequeno tamanho, não excedem os 50 cm, estando em geral abaixo deles, e grande regularidade de traços e funções bem determinadas para os traços que fazem os contornos e os preenchimentos. O naturalismo é muito menor do que osoutros conjuntos, os membros em geral são retilíneos, as orelhas e cascos são simplificados. As escolhas dos painéis que receberam as figurações deste momento tendem a ser os mais periféricos, locais discretos e
34 em nichos. As sobreposições ocorrem, mas a tendência é de serem pintados isoladamente nos painéis ou justapostos.
O quarto momento é caracterizado por pequenos cervídeos em vermelho que não ultrapassam os 30 cm de comprimento, os corpos são inteiramente preenchidos de tinta. Os autores deste conjunto parecem evitar sobreposições com outros grafismos, buscando áreas marginais no suporte rochoso. O naturalismo é ainda menor, os corpos são muito simples e apêndices tais como orelhas, chifres e cauda são muitas vezes exagerados e outros atributos, simplificados. Nas escolhas dos suportes houve preferência por locais isolados e evitando sobreposições.
Figura 4: Figuras dos conjuntos estilísticos identificados por Linke (2008). Retirado de Linke (2008).
Valendo-se de abordagens da Arqueologia da Paisagem a dissertação de mestrado de Linke (2008) buscou identificar recorrências na associação entre características naturais e arqueológicas da paisagem que evidenciassem a estrutura da construção da paisagem e suas relações com os grafismos rupestres. Neste trabalho a autora obteve os seguintes resultados e interpretações para Diamantina:
Observaram-se padrões gerais de inserção para os sítios, aparentemente implementados pelos primeiros autores e pelo segundo conjunto da Tradição Planalto, mantidas pelas unidades estilísticas posteriores;
35 à medida que as unidades estilísticas foram se sucedendo, alguns critérios de
inserção dos sítios foram flexibilizados, abandonados e retomados;
as preferências nas ocupações dos sítio são os abrigos situados em paisagens marcadas por áreas aplainadas ou com amplas superfícies planas, construção da paisagem que aparentemente foi mantida, reconstruída e (re)significada pelos sucessores do primeiro e segundo momento da Tradição Planalto; o reaproveitamento ou re-ocupação e a construção diacrônica dos sítios podem
ser interpretados como resultado de um diálogo entre expressões culturais, cujos significantes foram reconhecidos e aproveitados;
há possibilidade destas distintas unidades estilísticas terem sido produzidas por grupos culturais distintos, mas que possuem afinidades históricas entre sí, expressas pela re-ocupação dos abrigos. As mudanças nos padrões podem ser resultados de mudanças histórico-culturais ao longo do tempo.
Nos primeiros trabalhos realizados, alguns grafismos foram atribuídos, sobretudo pela semelhança temática, a unidades estilísticas definidas em outros estados do Brasil e em áreas de Minas Gerais. Recentemente estes grafismos foram e estão sendo revistos, como o caso dos antropomorfos atribuídos à Tradição Agreste e à Tradição Nordeste. Entretanto, as revisões parecem indicar que as figurações que outrora foram entendidas como pertencentes a outras unidades estilísticas possuem afinidades com repertório gráfico da Tradição Planalto na região de Diamantina (LINKE & ISNARDIS, 2012).
Das análises diacrônicas dos conjuntos gráficos de Diamantina e do aparente “caos” nas intensas sobreposições, foram observadas lógicas organizativas e interação de novos autores com figurações já existentes. Essas são marcadas pela justaposição sistemática entre figuras; pelo encaixe de novos temas entre figuras anteriores; pela construção de figuras feitas pelo reaproveitamento de figuras precedentes; apropriação de traços para compor novas figuras, resultados de acréscimos de novas partes, repintura parcial e acréscimos ou incorporação de traços existentes que assumem assumindo nova função (LINKE & ISNARDIS, 2012). Para a autora, pintar os sítios em abrigo na região de Diamantina envolveu:
Para os autores pré-coloniais da região, pintar não implicava em construir uma intervenção autônoma nos suportes, essa intervenção podia ser parcial ou inteiramente orientada pelas figuras que já os ocupavam - diferentemente do que se vê para outros conjuntos gráficos do interior mineiro (ISNARDIS & LINKE, 2012, p.49)
36 Linke & Isnardis (2008) argumentam que não parece ter havido uma busca de visibilidade que demonstrasse uma concorrência entre os conjuntos. Ao contrário, foi percebido uma “harmonização” (p.41) dos conjuntos na construção do espaço gráfico onde os autores dos conjuntos precedentes, independente do entendimento que tinham deles, se relacionavam com os anteriores. Os três primeiros momentos descritos acima, segundo Linke (2014), possuem coerência temática entre si, diferenciando-se apenas a relação entre contorno e preenchimento e temas preferenciais, sendo o repertório transversal. Há ainda o cuidado na representação naturalista dos zoomorfos e equilíbrio volumétrico dado à figura. Embora tenham sido notadas diferenças nos conjuntos cronoestilísticos, há elementos transversais (permanências) que deram alguma segurança no emprego de Tradição Arqueológica5 na região (LINKE & ISNARDIS, 2009; LINKE & ISNARDIS, 2008).
No processo de construção da paisagem, segundo as perspectivas teóricas dos autores, foi notado um estreito compartilhamento de atributos naturais na construção e manutenção da paisagem, inaugurados pelo primeiro conjunto que construíram uma paisagem, e cuja transformação se deu ao longo do tempo por meio de uma lógica continuada pelos conjuntos posteriores. Assim, a “manutenção e transformação são fenômenos que se combinam, que não são incompatíveis no processo de (re)significação da paisagem” (LINKE & ISNARDIS, 2010). Para a região de inserção dos sítios, os estilos mais tardios, sendo eles Planalto ou não, houve uma nítida reocupação dos locais já grafados, constituindo uma Paisagem Planalto, mesmo compartilhando poucos atributos estilísticos com seus predecessores (ISNARDIS, 2009).
A partir das afinidades geográficas compartilhadas por boa parte dos sítios analisados, por Linke (2008) e Isnardis (2009) indicaram que estes estavam inseridos em locais denominados de sítios de borda de campo, cujos pisos são predominantemente planos e sedimentares e são facilmente acessados a partir do campo à frente deles.
Diferentemente do observado em Diamantina, nos grafismos no Peruaçu estudados por Isnardis (2004), as paisagens construídas pelos diferentes conjuntos estilísticos indicam uma nítida divergência e descontinuidade, em que grafismos diferentes distribuem-se de forma distinta (ISNARDIS, 2009).
5 O termo tradição empregados nestes estudos diz respeito a conjuntos de recorrências: “expressam as normas
pelas quais agem as culturas ou grupos culturais e que orientam a produção da cultura material(Ribeiro, 2006). As diferenças e similitudes entre conjuntos gráficos seriam indicativas de uma afinidade cultural existente ou ausente” (LINKE & ISNARDIS, 2008, p.33). Os autores propõem que haja compartilhamento de repertório cultural, entendido como conjunto de estruturas simbólicas, podendo ser ideias, noções morais, narrativas mitológicas, padrões de conduta (Ibdem, p.34).
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