1.4 NF-κ κ κ κB regulates endothelial activation and apoptosis
1.4.5 Nrf2 - a potential mediator of the cytoprotective effect of high shear on endothelial cells 23
Observamos que a marca mas, do latim magis, foi a princípio advérbio, tal como mais. Foi
com o decorrer do tempo que, devido à sua posição em início de frase, perdeu a acentuação,
havendo a contração de ai em a. Além disso, houve a necessidade de distinguir as duas
funções – de advérbio e de conjunção. Talvez sua função primeira de advérbio seja a origem,
ainda que velada semanticamente pelo tempo, de seu valor referencial com incidência sobre a
asserção, como em (...) Deixa de doença, amigo! Você não é nenhum ganjão... Você é mas é
patrício, calão como nós... (...) (Sagarana). Tanto é que, dentre todas as ocorrências de
porém, contudo, entretanto e todavia, não há nenhuma ocorrência desse tipo. Segundo nosso
corpus, outro valor referencial inerente apenas ao mas é o de mudança de turno, tal como em
“Fui picado de cobra... Fui picado de cobra... Ô mundo!” // “Mas, sossega, Primo Ribeiro
(...)” (Sagarana).
Considerando a análise semântica anterior e a FEPa previamente descrita, fomos em busca da
FE de cada marca aqui em estudo. Concluímos, desse modo, que, no caso de mas, introduz-se
uma reorientação com referência a um evento E no continuum construído por um sujeito S
pela saída de um domínio P e pela entrada num domínio Q. O evento E percorre o domínio P
e estabelece uma outra relação com o domínio Q, cujas propriedades variam de acordo com
cada situação enunciativa <Sit>. A reorientação é então suficiente para desmembrar a relação
59 É preciso ressaltar que a elaboração das FEs de mas, porém, contudo, entretanto e todavia só foi possível graças à colaboração de nossa orientadora, que nos auxiliou na escolha dos exemplos e na análise detalhada de cada unidade.
de E com P e estabelecer uma nova relação de E com Q. Tendo em vista tal FEmas, considere-
se o seguinte exemplo:
Passaram entre alas e aclamações dos outros, que, aí, como não havia mais mulheres, nem brigas, pegaram a debandar ou a cantar:
"Ei, compadre, chegadinho, chegou. Ei, compadre, chega mais um bocadinho!..."
Nhô Augusto apertava o braço da Sariema, como quem não tivesse tido prazo para utilizar no capiau todos os seus ímpetos:
– E é, hein?... A senhora dona queria ficar com aquele, hein?!
– Foi, mas agora eu gosto é de você... O outro eu mal-e-mal conheci... Caminharam para casa. Mas para a casa do Beco do Sem-Ceroula, onde só há três prédios – cada um deles com gramofone tocando, de cornetão à janela – e onde gente séria entra mas não passa (Sagarana).
No trecho acima, podemos observar a reorientação entre a relação de E com P e a de E com
Q. Assim, temos <E r P> MAS <E r Q>, ou seja:
E – Sariema
Continuum – querer ficar
E r P – Sariema querer ficar com aquele
E r Q – Sariema querer ficar com Nhô Augusto
(b) PORÉM
Em relação à marca porém, percebemos que tal conjunção provém da condensação de por e
ende, expressão partitiva equivalente a por isso. Como vimos, foram bastante frequentes, em
nosso corpus, ocorrências de porém no “início da frase”, por exemplo:
– Tem tempo... – disse. E continuou a batida, confiado tão só na inspiração do momento, porquanto o baralho fora rebaralhado e agora tinham ambos outros naipes a jogar.
Porém, posto que a situação se complicara, o essencial era zanzar na
sombra, para apanhar o outro desprevenido, de surprêsa; e, para isso, amoitar-se, pois: – Não vê! Quem fica no claro é enxergado mais primeiro, e leva o tiro que quem está no escuro é quem dá!... (Sagarana)
Mais verossímil seria que ela se tivesse enamorado de Benjamim Zambraia, por exemplo, que lhe vem à mente quando o ônibus entra no largo do Elefante. Recorda-o da forma que o viu em sonho, acoplado a Alyandro pelo tórax, um sorriso forçado, como se fosse o irmão siamês que andasse a contragosto. Porém logo atina que esse Benjamim não estava no seu sonho, e sim num dos cartazes da tela azul de náilon. E Ariela condói-se da sua fisionomia, e toma consciência de quanto pode tê-lo magoado, ao preteri-lo pelo parceiro íntimo da foto. (Benjamim)
A análise enunciativa mostra que, no caso de porém, o que temos é o enaltecimento de algo
que já estava acontecendo, sem que tenha sido necessariamente citado. Isso pode ser
explicado pela alta frequência do tempo passado onde o domínio Q é ambientado. A
informação ressaltada passa a acompanhar o processo já em andamento. Podemos perceber tal
enaltecimento no seguinte exemplo:
Agora, parado o pranto, a tristeza tomou conta de Nhô Augusto. Uma tristeza mansa, com muita saudade da mulher e da filha, e com um dó imenso de si mesmo. Tudo perdido! O resto, ainda podia... Mas, ter a sua família, direito, outra vez, nunca. Nem a filha... Para sempre... E era como se tivesse caído num fundo de abismo, em outro mundo distante. E ele teve uma vontade virgem, uma precisão de contar a sua desgraça, de repassar as misérias da sua vida. Mas mordeu a fala e não desabafou. Também não rezou. Porém a luzinha da candeia era o pavio, a tremer, com brilhos bonitos no poço de azeite, contando histórias da infância de Nhô Augusto, histórias mal lembradas, mas todas de bom e bonito final. Fechou os olhos. Suas mãos, uma na outra, estavam frias. Deu-se ao cansaço. Dormiu. (Sagarana)
Nesse caso, notamos que o elemento B <luzinha da candeia ser o pavio> é algo que já estava
acontecendo, mas não estava explícito dentro do discurso. Tornou-se visível apenas no
momento em que é introduzido por porém. Com base nessas considerações, a FEporém pode ser
definida da seguinte maneira: porém introduz uma reorientação com referência a um evento E
no continuum construído por um sujeito S pela saída de um domínio P e pela entrada num
domínio Q, este último já presente no continuum, implícito para E. Com base nessa definição,
considere-se o trecho:
Ariela vê o comércio fechado, vê uma sorveteria, um pronto-socorro, uma fila, mais fila, um cinema, um poste, outro poste, depois vê as palmeiras que se sucedem, cada vez mais próximas umas das outras, e na velocidade que o carro atinge, já vê as palmeiras como uma paliçada. Sente o vento deformar seu rosto, porém mais que o vento, sente a pressão do olhar do motorista, e é tão concreta a sensação na têmpora, e tão igual à sensação do antigo olhar do Zorza, que ela não se contém e grita “para!”. (Benjamim)
A passagem acima pode ser esquematizada da seguinte forma: <E r P> PORÉM <E r Q>, em
que
E – Ariela
Continuum – olhar do motorista e o entorno de Ariela
E r Q – sentir a pressão do olhar do motorista
(c) CONTUDO
Diferentemente de mas e porém, contudo faz referência a um evento E no continuum de P
introduzindo Q, como vemos em:
Certamente Xan apostava no imaginário que Salvador jogava-lhe sobre a mesa com o fim de seus olhos brilharem. Daí retribuir-lhe com lendas locais, o maior patrimônio daquela terra. Sob o risco até de haverem os galegos se esquecido da realidade de tanto contar histórias. Ambos, porém, aprovavam que vida e sonho, na aparência, eram irreconciliáveis, um tratando de expulsar o outro. Contudo, esquecidos desses obstáculos técnicos, Salvador e Xan sonhavam até o amanhecer. (República dos Sonhos)
Na passagem acima, o continuum <contar histórias> define-se como uma espécie de pano de
fundo para o evento E explicitado, <esquecer obstáculos técnicos>. A passagem acima pode
ser esquematizada da seguinte forma: <E r P> CONTUDO <E r Q>, em que
E – esquecer obstáculos técnicos
Continuum – contar histórias
E r P – não sonhar
E r Q – sonhar
(d) ENTRETANTO
A consulta à entrada entretanto dos dicionários etimológicos de Bueno (1968) e Cunha (1999)
chamou nossa atenção para o aspecto temporal da unidade, uma vez que, segundo os autores,
provém da aglutinação de entre + tanto. Apesar de, num primeiro momento, estranharmos tal
uso no PB, chegamos à conclusão, a partir das ocorrências de nosso corpus, de que entretanto
faz referência a um evento restrito ao espaço topológico de um continuum; o qual encadeia Q
em vez de P. Tendo em vista a FEentretanto, observe o exemplo abaixo:
O olhar de Eulália censurou-me a presença na casa àquela hora. Com que direito surpreendia-a num ato que incluía a ela e o filho apenas, deste modo expulsando a estranhos, os que não fizessem parte daquele mistério.
Entretanto, não disse uma só palavra ofensiva. Nunca, aliás, explorou os
meus sentimentos, a seu favor. Para me ter prisioneiro, atado a ela pelo laço da emoção. Aquela mulher, nascida numa aldeia, conquanto filha do fidalgo Dom Miguel, ajudava-me a ser livre, a responder pelos meus próprios
embaraços. Distraída, ela contemplava o filho, por cujo rosto escorria um fio de leite. (República dos Sonhos)
No trecho acima, temos novamente a passagem de P para Q no seguinte esquema <E r P>
ENTRETANTO <E r Q>, sendo, neste caso,
E – olhar de censura de Eulália
Continuum – presença do narrador na casa
E r P – (Eulália) dizer palavra ofensiva
E r Q – (Eulália) não dizer palavra ofensiva
(e) TODAVIA
Já todavia é um composto de toda + via, equivalente a “sem embargo” (CUNHA, 1999).
Notamos que todavia faz referência a algo dentro de um continuum; ou seja, fala-se de x,
continua-se a falar de x, mas ressalta-se uma informação que passa a acompanhar o processo
que já estava em andamento. Por haver tal continuação, temos a maior frequência do tempo
presente, segundo os dados retirados de nosso corpus. Trata-se, portanto, de uma varredura
que considera todas as circunstâncias possíveis. Mas, dentre todas elas, temos uma que se
destaca. Assim, todavia coloca em relevo uma determinada característica do processo que
continua em andamento, de modo que passa a ser intensificada e diferenciada em relação a
todo o processo.
Podemos dizer, então, que todavia faz referência a um evento dentro de um continuum; ou
seja, fala-se de E com relação a P, continua-se a falar de E com relação a P, mas ressalta-se a
relação de E com Q, numa integração. Trata-se de uma varredura. Mas, no percurso de P a Q,
a relação de E com Q destaca-se. Assim, todavia coloca em relevo a relação entre E e Q, de
modo que passa a ser intensificada e diferenciada com respeito à relação entre E e P. Tendo
em vista essa definição de FEtodavia, considere o exemplo:
As aventuras de Lalino Salathiel na capital do país foram bonitas, mas só podem ser pensadas e não contadas, porque no meio houve demasia de imoralidade. TODAVIA, convenientemente expurgadas, talvez mais tarde apareçam, juntamente com a estória daquela rã catacega, que, trepando na laje e vendo o areal rebrilhante à soalheira, gritou ∠ “Eh, aguão!...” ∠ e pulou com gosto, e, queimando as patinhas, deu outro pulo depressa para trás. (Sagarana)