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4.3 Gjentakelsesfare

4.3.2 Atferd, sosiale og personlige funksjonsevne

Assim como a “sociedade excitada” (TÜRCKE, 2010c) já se estabelecia com as profundas transformações sociais vinculadas ao modo de produção capitalista – o que demolia os estamentos, as relações de dependência associadas à hierarquia de uma organização social estagnada, e fazia com que o mercado passasse de evento esporádico à instância de socialização – ocorreu, através de uma descoberta técnica, uma revolução estética. Essa descoberta técnico-estética permitiu que a imagem que antes era fugidia e efêmera, ligada à própria capacidade humana de formação de imagens internas, fosse reproduzida em escala industrial. O caráter sensacional da sociedade de mercado possuía agora sua correspondente face estética: a fotografia.

Türcke recorda o longo percurso desde a codificação do sagrado até o choque imagético na modernidade, sendo que, nos últimos 150 anos, as transformações foram muitíssimo rápidas: a fotografia, como síntese da revolução industrial; a imagem fílmica, como a forma de aparência da subsunção do tempo livre à produção capitalista; e por fim, a imagem na era do computador metamorfoseia-se na própria coisa, como motor do processo de produção, ponto de identidade e de reciprocidade do trabalho e do tempo livre. A síntese social propiciada pelo choque imagético na atualidade é impalpável e inatingível, ao mesmo tempo em que é instável como nenhuma outra.

Assim, a desapropriação e a exploração são resignificadas no compasso da estetização de todas as relações de produção e de vida – as mazelas do capitalismo high-tech são bastante visíveis, porém, sob a aparência de que tal processo se execute sem exploração. Nas sociedades pré-modernas a desapropriação e a exploração eram mais facilmente identificadas. Já, sob a égide da modernidade, na sociedade de homens formalmente livres e iguais, a teoria da exploração de Marx “[...] deve-se unicamente ao fato de que a existência da exploração não é identificada de forma tão evidente” (TÜRCKE, 2010c, p. 269). Pois se, com a industrialização moderna a exploração humana manifesta-se violentamente, ao mesmo tempo isso se executa sem o recurso da violência direta, através de uma relação de sujeitos formalmente livres e iguais dispostos a vender a força de trabalho em troca de seu equivalente, o salário – de modo que a exploração deixa de ser algo imediatamente constatável.

A exploração persiste por meio de contornos pouco nítidos, e é difícil de reconhecer onde ela começa e onde termina. Entretanto, as formas aviltantes de exploração humana são um fato global. A estrutura geral da exploração continua sendo física. Porém, de acordo com Türcke, Marx esperava que ela se reduzisse a isso. A teoria da exploração de Marx fundar-se- ia no modelo pré-moderno, feudal, sendo que o capitalismo apenas dissimularia tal situação. Porém, a fragmentação do processo de trabalho e do indivíduo enraíza-se profundamente, e de modo gradativo, transforma o pensamento e a percepção. À medida que na produção maquinal a força muscular foi sendo aos poucos menos requerida, e ela foi sendo transferida mais para os movimentos finos dos dedos e da visão – alinhavados com o refinamento dos aparelhos microeletrônicos, nas condições atuais – “[...] mais se destaca para qual direção a transformação da exploração aponta: para a exploração da concentração” (TÜRCKE, 2010c, p.274).

O fazer-se de uma pessoa ocorre através daquilo que ela concentra: “Concentração é o seu âmago”. Entretanto, ela não lhe “pertence”. A concentração precisa de um foco ou impulso para o qual ela se volta. Sua origem é o choque traumático, de onde, através da repetição compulsiva, gradativamente a acumula, semelhante a uma camada em torno do trauma.

Concentração é excitação ligada, é excitação traumaticamente cicatrizada, que se solidifica e se resfria em formas assentadas de recepção e de expressão, as quais finalmente se mostram aptas a iniciar uma vida própria e a se sublimarem para a esfera mental de representações e conceitos. (TÜRCKE, 2010c, p.274)

Até mesmo o sistema filosófico mais idealizado, aparentemente centrado em si, tem sua origem obscura determinada por forças externas. “Percepção original”, aquele concentrar- se elementar nomeado por Kant, foi minado a ponto de se apresentar atualmente apenas através da omnipresença dos choques traumáticos. Desse modo, a concentração nervosa é invadida e atravessada pela concentração sistemática – a concentração socialmente objetivada nos artefatos humanos. Desde que a concentração sistemática se consubstanciou em choques audiovisuais, marcadamente através de uma indústria cultural e suas demandas, manifesta-se algo que há muito tempo está posto: “[...] o quanto a concentração, que é empregada nas atividades isoladas, quando toda a própria vida de trabalho de alguém se reduziu à execução de poucas e simples operações de trabalho nas máquinas, é, em geral, ainda a sua concentração” (TÜRCKE, 2010c, p.275-276, grifos do autor). Ou seja, um refinamento da expropriação: uma subjetividade (a concentração humana) que é exercida de forma espontânea a partir de estruturas objetivadas que a modulam. O “Homem tomando banho de

sol” de Anders20 é paradigmático: o sujeito como um conjunto de órgãos isolados sem ocupação, que se aferra à primeira coisa que possa preencher o horror desse vazio; em termos psicanalíticos, de vincular uma excitação desgarrada. Assim, o indivíduo é expropriado de sua própria concentração: “a concentração é roubada pela concentração, ou seja, a [concentração] sistemática [socialmente objetivada] rouba a [concentração] nervosa” (TÜRCKE, 2010c, p.276).

Porém, a exploração interna não é o simples reflexo da exploração externa, mas uma forma qualitativamente modificada. Com o objetivo de compreender essa afirmação, Türcke utiliza-se da diferenciação, entre trabalho simples e trabalho complexo, feita por Marx. De acordo com Marx, o ourives, e.g., realizaria trabalho simples multiplicado, e por conta disso teria um salário maior, um equivalente multiplicado pela venda de sua força de trabalho. Türcke argumenta que o ourives não realiza o triplo de operações manuais (um maior quantun de trabalho), mas sim, operações que exigem mais habilidade e complexidade (qualitativamente diverso, e que, portanto, requer maior concentração). Entretanto: “O processo industrial transcorre num duplo sentido: tanto no sentido de que as máquinas sejam sempre eficientes quanto no de que a operação destas se ajuste cada vez mais ao trabalho simples” (TÜRCKE, 2010c, p.277).

Türcke argumenta que os violinistas, por exemplo, que ainda aprendem a tocar de modo muito parecido a Paganini (de acordo com uma técnica pré-industrial) resistem ao processo de simplificação do trabalho, pelas próprias características e exigências do ofício de músico. Entretanto, trabalhadores como os especialistas em software (ainda que desfrutem das recompensas momentâneas de possuírem conhecimentos e habilidades complexas altamente requeridas), seguem a tendência do trabalho simples.

Seu trabalho complexo é altamente avaliado porque ele promete tornar-se supérfluo, a longo prazo, na forma das máquinas que operem a si próprias e nos programas com que qualquer leigo possa trabalhar. Sob tais condições,

20 Trata-se do estudo de Günther Anders da década de 1950 nos Estados Unidos, em relação ao fenômeno do tempo livre daquele contexto: “O homem tomando banho de sol, que bronzeia suas costas, enquanto seus olhos passeiam por uma revista ilustrada, seus ouvidos participam de uma partida esportiva, suas mandíbulas mascam uma goma” (ANDERS, apud TÜRCKE, 2010c, p.42-43). Ou seja, um exemplo lapidar do fenômeno que Türcke chama de “distração concentrada” (TÜRCKE, 2010c, p.264): por meio de um fluxo ininterrupto de choques audiovisuais produz-se um processo de concentração (um “olhe para cá”) que, entretanto, dado a fugacidade e a substituição abrupta dos choques, que de forma subsequente se sobrepõem, não permite que tal atenção vá além da mera “vivência”, dificultando a “experiência”, a reflexão, daí, uma sucessão de percepções diluídas, distraída. Türcke (2010c, p.42-43) atribui ao “O homem tomando banho de sol”, “O caso exemplar e mais extremo desse vazio moderno [decorrente da exploração e expropriação da concentração]”.

todo trabalho complexo recebe um estigma. Ele é o resíduo originado na tentativa de se fazer desaparecer, de se diluir em trabalho simples. (TÜRCKE, 2010c, p.278)

Türcke destaca a afirmação de Anders de que, trabalho complexo é trabalho “retido”, em que permanece algo do trabalho pré-maquinal, no demorar mental com algo, demorar que se denomina concentração: quanto mais complexo um trabalho, mais se exige que a concentração seja a do próprio trabalhador. Quanto mais simples o trabalho se torna,

[...] mais ele se compõe de meros “tornar-se concentrados”, mais insuportável se torna dever concentrar-se no trabalho. O trabalho simples pode muito bem ser definido por meio do seguinte exemplo: ouvir rádio não só não o prejudica, como também se transforma na condição de sua possibilidade, pois o trabalho se torna dificilmente suportável sem a presença do ruído ambiente. (TÜRCKE, 2010c, p.278-279, grifos do autor)

Algo novo começa a se destacar: todos são explorados sem que, necessariamente, se identifique um beneficiário. A exploração torna-se em si e por si, ressurgida do mais antigo alvorecer de cada abuso do coletivo humano, no desperdício de forças humanas preciosas (como no rito sacrifical) para poder suportar neurologicamente o abandono na natureza. Türcke argumenta que a exploração e apropriação de mais trabalho (mais-valia) é uma racionalização do abuso coletivo humano. Esse movimento de racionalização, de escravizar ao invés de sacrificar ritualmente, de tornar servos no lugar de escravos, tem seu apogeu histórico na modernidade, com assalariados substituindo servos. Porém: “Quanto mais tal imposição se refina audiovisualmente, mais ela aproxima a exploração de sua forma original sacra, ou seja, a exploração com a qual alguém se beneficia se torna exploração sans phrase” (TÜRCKE, 2010c, p.280) – é a exploração do próprio espírito humano.

Türcke se utiliza do conceito de “abstração real” – que em Marx refere-se sumariamente à exploração moderna através da extorsão da mais-valia –, voltando-o para a dimensão estética, conforme as questões da atualidade. Quanto maior a abstração por trás da imagem (propiciada pelo avanço técnico-científico), mais ela se expressa com maior concretude. Mas, abstração e concretude não se colocam em referência como significado e significante, essência e aparência, mas sim, se penetram e se tornam irreconhecíveis entre si. Essa abstração real foi inventada pelo cérebro humano. E assim que essa abstração real “[...] se objetiva em seu próprio curso maquinal ocorre com a abstração aquilo que acontece com a concentração: a abstração independente, que se torna sistemática, começa a abusar da abstração nervosa” (TÜRCKE, 2010c, p.281).

Toda abstração é deduzida de algo, sendo que sua origem remete a algo pavoroso. O susto original, a reação ao choque traumático, repetida compulsivamente, tornam sua apresentação ou representação, ritualizada por meio de um processo lento e gradativo. As representações mentais já são representações de segundo grau, abstrações de representações ritualisticamente teatralizadas, o eco do grito de horror do choque traumático. Aquilo que traumatiza é reprimido e canalizado em redes neurais seguras, de modo que passe a ser insinuado, significado ou imaginado, mas que não deve mais ser apresentado. Ao longo do tempo o organismo humano desenvolveu rotinas que equilibraram essas ligações, de forma que condensa em imagens mentais não apenas aquilo que traumatiza, mas especialmente aquilo que causa impressão. Porém, o que significa imagem?

Türcke argumenta que, para Aristóteles, as imagens mentais (phantasmata) decorrem da percepção (aisthemata), com a diferença de que não possuem matéria. Assim, deduz-se que as imagens oriundas da percepção são intensamente desmaterializadas. Porém, sua existência é decorrente de impressões visuais, auditivas, táteis ou olfativas (sendo a percepção ótica, e os significados decorrentes dela, a impressão dominante). Para a neurofisiologia, a maneira como as imagens se configuram ainda é um enigma. Trata-se de uma materialidade fugaz que se volatiliza em cada nível de abstração posterior. A materialidade refinada é o conceito. E, “Assim como nenhuma pintura pode ser tão abstrata, a ponto de não mais conter vestígios do concreto do qual ela se abstrai, da mesma forma nenhum conceito pode existir sem o seu fundo imagético” (TÜRCKE, 2010c, p.283).

Kant buscou significar esse fundo imagético ao presumir que os conceitos sensoriais puros se fundamentam nos esquemas da razão, e não nas imagens dos objetos. Para Türcke (2010c, p.283), seu equivoco foi definir filosófica e transcendentalmente tais esquemas, de maneira categórica. A volatilidade do fundo imagético não sustenta tais definições, de modo que o mais adequado seria qualificar as imagens mentais como “imagens não determinadas”, amparas no duplo sentido do não fixado e do não constatado, semelhante à denominação do ser humano em Nietzsche, como o “animal não determinado”. A imagem mental pressupõe a criação de uma sinfonia ou de uma pintura. De forma semelhante, o pensamento abstrato é acompanhado continuamente de processos perceptivos e imagéticos. As abstrações mentais possuem, como uma espécie de suporte, a massa de excitações imagéticas.

O desenvolvimento da representação imagética experimentou uma abreviação técnica inaudita a partir da fotografia, de modo que a reprodução das imagens captadas por uma filmadora faz o olho humano acreditar que elas se movimentam. A violência de tal abstração (na forma da ciência decomposta da imagem técnica) retira a capacidade de abstração do

próprio sistema nervoso, por meio de abstrações altamente técnicas com as quais ele se adaptou. As imagens internas tornam-se pálidas e débeis, a ponto de não poderem se conservar, lançando mão das imagens externas como apoio. As imagens internas decorrem assim, das imagens externas, não da experiência perceptiva que forma o fundo imagético. Mas, se os conceitos (produto máximo da abstração, o mais destituído de imagens) se transformam no que mais necessita de imagens, quando o fundo imagético de que os conceitos se originam e se sustentam, é destruído, então os conceitos:

[...] se tornam algo sem chão, sem referência, frios, literalmente “absolutos”, tal como eles jamais foram em nenhum sistema filosófico anterior; tal como se eles fossem apenas a escrita invertida de cada uma das fórmulas matemáticas, as quais transformaram as imagens externas em abstrações reais. [...] Aquilo que surrupia o apoio se transforma no próprio, não menos diferente do que fazem a aguardente e a heroína. (TÜRCKE, 2010c, p.284) Leitura e a escrita estão ainda nos fundamentos das técnicas culturais. Entretanto, tais técnicas elementares perdem a relevância na concorrência com o choque imagético. A escrita e a leitura só se consegue por meio de uma prática contínua. Quando os choques imagéticos concorrem imediatamente com esse processo, a tarefa da leitura torna-se fatigante. O mercado de jornais e livros (mesmo aqueles considerados bem conceituados), há tempos se debate com esse problema. Para que sejam observados, devem imitar a técnica do choque imagético. Mesmo os textos acadêmicos, segundo Türcke, dependem cada vez mais de um layout que torne suportável a leitura daquilo que se quer transmitir através da escrita. O procedimento de leitura assemelha-se assim ao zapping diante da tela. “E a relação entre a imagem e a escrita fornece os indícios que comprovam o quanto a abstração mental impulsiona para a imagem externa, uma vez que lhe foi destruído seu fundo imagético, e a salvação encontra-se apenas no apoio de seu destruidor”, ou seja, na técnica tipográfica e imagética (TÜRCKE, 2010c, p.286). Na era da internet personalizada e da “bolha dos filtros”, discutidas no capítulo 3, em que a atenção alheia torna-se um recurso escasso, os indicadores de cliques tomam o lugar daquele espaço que outrora era ocupado pelos conteúdos dos sites; e até mesmo os veículos tradicionais de notícias – já adaptados aos tempos da web – veem-se ameaçados pelo imediatismo da classificação do número de cliques, em detrimento de seu conteúdo. As receitas financeiras dos sites, com publicidade, já não tem uma relação direta com o conteúdo, mas com a audiência medida pela quantidade de cliques.

Os sentidos embotados podem ser renovados por novas vivências em espaços virtuais. Porém, pode-se controlar apenas aquilo que é fornecido pelo programa de computador; o que se vivencia não é o próprio vigor dos sentidos, mas algo que é posto do exterior. O olho torna-

se o exclusivo portão de entrada das impressões. Essa vivência, restringida ao plano ocular, reduz-se a um mero deslizar sobre superfícies, de modo que falta todo um conjunto de sensações (como formigar, correr, transpirar, balançar, nadar) e do desgaste de “cérebro, nervos e músculos”, bem como do dinheiro (e do esforço a ele relacionado) para empreender tal viagem. Uma dimensão de movimentos neuromusculares e de tensão é extirpada nessa vivência proporcionada por um apertar de botão, de modo que toda uma indústria de vivências trabalha na compensação desse déficit. O surround do filme (e o subsequente desenvolvimento de tecnologias multidimensionais) trabalha com sensações táteis e auditivas numa ousada subordinação, em que cada um dos sentidos é tratado por si só, de modo que as sensações se reúnam numa vivência total, que promete ser mais intensa do que a natureza ou a selva das cidades. Porém, o efeito é o contrário, pois o que se estabelece é uma forma vulgar de sensação, semelhante aos experimentos de laboratório que estimulam células (ou grupos de células) de maneira isolada. O neurônio “comemora” o estímulo, onde a intensidade da sensação assemelha-se a uma ação reflexa. Esse “fogo” é o fogo de palha, pois arde enquanto dura o estímulo, e cessa assim que esse desaparece.

A tendência é de que os sentidos retrocedam na forma de reflexos condicionados e desaprendam a reunir as sensações, para que elas sejam conservadas em imagens mentais internas, ou então não mais se afetem mutuamente. [...] Reduzida à mera sensação, a uma sensação esporádica e pontual, a percepção sensorial torna-se sem apoio e abstrata, tal como ocorre com a construção conceitual apartada de seu fundo imagético. Nos tempos primitivos ocorreu o seguinte fato: por meio da compulsão à repetição formou-se, gradativamente, uma camada cultural ao redor das fraturas pulsionais traumáticas, na qual a sensação se cicatrizou, se soldou e se teceu como um fundo de experiência. Então, por meio de minúsculos choques de uma aparelhagem ajustada, sendo que cada choque particular se encontra abaixo do limite da dor, a compulsão à repetição começa, em longo prazo, a anular esse processo de tessitura e de cicatrização. Novamente nos deparamos com a figura do “retorno ao fundamento”. (TÜRCKE, 2010c, p.287)

A sensação, concentrada e isolada em si mesma, é tão intensa no momento do estímulo que não consegue criar raízes, adquirir significados e aprofundar-se na forma de paixão; se isso ocorresse, juntamente com outras sensações, poderia ligar-se em experiências mais duradouras, ao invés da mera vivência. Na forma em que a excitação é socialmente disseminada, entretanto, a percepção se ajusta a uma excitação concentrada. Paradoxalmente, esse panorama torna-se prejudicial aos negócios de vivência multimidiáticos. Os sentidos já estão tão embotados que apenas reagem reflexamente aos estímulos, cuja excitação cessa

rapidamente. Isso implica que os estímulos devem ser ainda mais potentes, tarefa que se incumbe a toda uma indústria de refinamento audiovisual.

Mas antes ocorre uma regressão: a sensação desejada é, por meio das cócegas, como que ligada. Contudo ela se apaga assim que essas cócegas não mais se fazem presentes, as mesmas cócegas que dificilmente ultrapassam aquele estado de estímulo inicial que deveria, em geral, ser aprofundado na forma do gozo e da experiência prazerosa. (TÜRCKE, 2010c, p.288)

Num processo de semiformação e de pseudo-espontaneidade ativa fomentados pela indústria cultural, o sujeito teria aquelas características regressivas, pré-ego, pré-prazer e pré- simbólica, extremamente instigadas, cujo destino indica para um narcisismo que conjuga uma auto-afirmação que infla o indivíduo a ponto de engolfar o mundo, mas que, ao realizar esta fantasia, paradoxalmente anula toda individualidade, pois remete àquelas fases pré-ego de indiferenciação de tempo e espaço, entre o eu e o mundo exterior, ou da indiferenciação entre o eu e o outro. Análises atuais sobre semiformação e indústria cultural indicam uma “educação pela dureza, choque e vício” (ZUIN, 2006), onde se soma à dessensibilizaçãodo sujeito reificado, a atuação de estímulos cada vez mais intensos – no registro predominante da excitação, do pré-prazer – e que dificultam sobremaneira a experiência formativa. O sujeito, amortecido pelo excesso de choques, que apenas conseguem fazer” cócegas” em seu aparato perceptivo, aferra-se a excitações cada vez mais potentes.

No oceano infindável de mercadorias, a indústria cultural, especificamente através da publicidade, cumpre um papel fundamental para que essas tenham a destinação no consumo, a realização final no processo de circulação. Entretanto, a superabundância de produtos (materiais e imateriais) faz com que o apelo pela atenção dos consumidores recrudesça em mensagens cada vez mais impactantes. Se no processo de reificação os produtos do trabalho humano se personalizam, de modo análogo (porém, sempre evitando qualquer imediatismo causa-efeito) o sujeito coisificado espelha o mundo de tais produtos.

Às infindáveis oportunidades de expressão oferecidas para o sujeito contemporâneo, conjuga-se a possibilidade de ocaso diante de um universo de informações e excitações em demasia, presentes principalmente nas redes sociais da internet. Apenas aquelas mensagens que conseguirem destaque é que terão algum sucesso de serem apreendidas. A estratégia para