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Os instrumentos dessa pesquisa foram o livro “Mas ele diz que me ama” (Penfold, 2006), um questionário criado pelo pesquisador e o Formulário de Acolhimento de Mulheres do NAFAVD/CAM. Apresentamos a seguir uma breve descrição de cada um desses instrumentos.

 Livro “Mas ele diz que me ama”

A escolha metodológica pela utilização do livro “Mas ele diz que me ama” (Pelfond, 2006) como instrumento eliciador de reflexões se deveu ao fato dele narrar uma história conjugal violenta e abranger os principais elementos apontados na literatura como característicos dessas relações. O livro foi escrito e ilustrado na forma de história em quadrinhos, é de fácil compreensão, o que diferencia essa obra em relação às outras sobre o tema de violência conjugal. Não se trata de um livro teórico, acadêmico – ao mesmo tempo em que a história é narrada a autora estabelece um diálogo com o(a) leitor(a), o que facilita uma identificação da(o) leitor(a) com a personagem.

O livro relata a história da relação conjugal violenta vivida pela autora/personagem e que perdurou por 10 anos. É protagonizado por Rosalind (Roz) – 35 anos, solteira e empresária – e Brian – viúvo e pai de quatro filhos. A narrativa mostra de forma bem didática como Roz passou de uma mulher forte, decidida, feliz e bem-sucedida profissionalmente a esposa violentada e maltratada (Penfold, 2006). Delineia como foram construídas as anestesias que a impediam de sair dessa dinâmica violenta. Por fim, aponta o processo de ruptura do relacionamento e a retomada de sua vida após a separação.

Segundo informações do site oficial da autora (www.friends-of-rosalind.com), o livro é um sucesso editorial. Ele foi lançado originalmente nos Estados Unidos, traduzido para 9 idiomas e publicado em 10 países, inclusive no Brasil (Guimarães, Silva & Maciel, 2007; Penfold, 2006).

Cada mulher recebeu um exemplar original do livro. Elas levaram o livro para casa em caráter de empréstimo e permaneceram com ele pelo intervalo de uma semana.

 “Questionário sobre o Livro „Mas ele diz que me ama‟” (Anexo I):

O questionário foi construído com os seguintes objetivos: identificar os sentimentos despertados nas mulheres pela leitura do livro; compreender os elementos que as mulheres identificaram como semelhantes ou diferentes ao compararem suas histórias pessoais com a da autora do livro; identificar

as anestesias que mais influenciaram a permanência no relacionamento e/ou a dificuldade em pedir ajuda. Por fim, utilizamos o título do livro para conhecer como as mulheres nomeavam e percebiam a sua própria história por meio do livro. Segundo Seidl de Moura e Ferreira (2005), questionários permitem a coleta de dados por meio de entrevistas pessoal e à distância. Eles podem ser respondidos de forma individual, em grupo, por telefone, por correio postal ou por recursos eletrônicos.

O questionário foi elaborado pelo mestrando. É composto por 8 questões e tem a seguinte estrutura:

 Cinco perguntas abertas: questões 1, 2, 3, 7 e 8;  Duas perguntas de múltipla escolha: questões 4 e 5;

 Uma pergunta mista: questão 6, que inclui uma pergunta fechada, e caso a resposta seja “sim”, tem a opção de uma pergunta aberta.

A questão 4 foi acompanhada por um material em anexo contendo vários pensamentos e sentimentos listados pela autora que dificultavam a sua saída do relacionamento e ou pedido de ajuda. Esses pensamentos e sentimentos serviram como verdadeiras anestesias, de acordo com o conceito de duplo cego descrito por Ravazzola (1997). Ao todo são 35 anestesias que foram apresentadas em forma de quadrinhos ilustrados nas duas contracapas do livro com o rosto e expressões da personagem principal. Essas anestesias estão listadas no quadro a seguir (Quadro 4.1):

Quadro 4.1: Anestesias apresentadas no livro “Mas ele diz que me ama” (Penfold, 2006)

1. Talvez ele melhore...

2. Eu não deveria perdoar?

3. Será que outro homem seria melhor?

4. Sei que ele não fez de propósito...

5. Quem acreditaria em mim?

6. Ele pediu desculpas...

7. Não deveria ser paciente?

8. Quem disse que a vida é fácil?

9. Ele só tomou umas cervejas...

10. Não está bêbado nem nada...

11. Não bebe durante o dia.

12. É um grande homem...

13. E às vezes até bebe menos...

14. Nunca aprenderei a dizer a coisa certa? 15. Onde foi que eu errei?

17. Pode ser um transtorno de humor. 18. Talvez eu deva falar menos... 19. Talvez eu não seja sensível. 20. Poderia ser muito pior...

21. Será que é mesmo tão ruim?

22. Talvez só esteja estressado.

23. Ele jura que não vai acontecer de novo... 24. E se eu for o problema?

25. Sei que ele me ama...

26. Será alcoolismo?

27. E vinho no jantar.

28. Não é uma pessoa má.

29. Poxa, ele tem um bom emprego...

30. Então agüenta mais que os outros...

31. Então não tem como ser alcoólatra... Não é? 32. Se eu fosse mais compreensiva...

33. Se eu me esforçar mais... 34. Talvez eu seja sensível demais... 35. A culpa não é dele.

Obs.: os grifos são da autora.

O questionário englobou os três tipos de perguntas que podem ser utilizadas em um instrumento, segundo Seidl de Moura & Ferreira (2005). Cada tipo de pergunta contém vantagens e desvantagens. As abertas permitem à participante maior liberdade para se expressar sobre o assunto, e assim, podem fornecer respostas mais aprofundadas. Perguntas abertas têm uma maior taxa de não- respostas e exigem uma análise mais complexa.

As perguntas fechadas restringem o número de opções de respostas, como por exemplo: “sim” e “não”, “verdadeiro” e “falso”, dentre outros. Elas são mais fáceis e rápidas de serem respondidas, analisadas e possibilitam a comparação direta de seus resultados. A desvantagem desse tipo de pergunta está na limitação da possibilidade da participante de se expressar livremente. As perguntas de múltipla escolha estão em um nível intermediário entre os dois tipos anteriores. É composta por várias opções de resposta (Seidl de Moura & Ferreira, 2005).

Optamos por abranger os três tipos de perguntas no questionário. Essa escolha metodológica teve como objetivo enriquecer a coleta de dados ao privilegiar os benefícios de cada tipo de pergunta e procurar compensar as suas desvantagens.

 “Formulário de Acolhimento de Mulheres” (Anexo II):

Esse formulário é preenchido por todas as mulheres encaminhadas ao serviço. Foi incluído como instrumento da pesquisa com o objetivo de fornecer dados demográficos das participantes. A sua aplicação permitiu obter uma compreensão da situação sócio-econômica; do relacionamento conjugal; da rede de apoio social e do histórico da violência conjugal. Não utilizamos a Avaliação de Risco deste formulário, pois tal avaliação não constituiu o objetivo do presente estudo.