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Associations between IPV and women who transgress the gender order

5. Presenting the results

5.2 Multivariate analysis: Adjusting for confounding factors

5.2.2 Associations between IPV and women who transgress the gender order

David Mourão-Ferreira, num texto dedicado a Quase que os Vi Viver267, de Vitorino Nemésio, procura justificar o seu apreço por este autor plurifacetado, nomeadamente no que concerne à crítica, por vezes macerada por traços a um tempo impressionistas e biografistas, mas que nunca, pelo menos conceptualmente, perde o texto como o fim a ter em vista. O autor de Sobre Viventes releva nesta obra crítica de Nemésio a “convergência da dupla perspectiva do biógrafo e do ensaísta”268, sem deixar de salientar o que para D.M.-F. será uma das perspectivas a privilegiar aquando do momento crítico: aquela que corresponde ao acto hermenêutico que nunca perde o texto como o seu horizonte primeiro, e que é praticada de acordo com uma sensibilidade (também do foro poético), que como já vimos se manifesta, mais do que essencial, intrínseca ao processo crítico, em estreitadependência de uma relação empática269. Deste modo, para David Mourão-Ferreira, o biógrafo e o ensaísta manifestam-se apoiando-se “

no investigador e no hermeneuta, em secreta cumplicidade com o poeta e o narrador que em tão alto grau sempre exemplarmente coexistiram na personalidade humana e literária de Vitorino Nemésio.270

Como a pedagogia social na crítica sergiana, também o estudo biográfico em Nemésio é olhado como um elemento circunstancial, que não constitui o ingrediente principal da sua acção crítica. Também neste ponto se compreende, consequentemente,

267 Cf. Ócios do Ofício, p.129-131 268 idem, p.129

269 Vinca Vitorino Nemésio (Cf. A Mocidade de Herculano, (vol. I), 1978,p.33): “Essa afinidade que

exijo entre a matéria histórica e eu mesmo não passa de uma certa maneira de estabelecer a relação entre o sujeito que estuda e o objecto a estudar. E assim sou susceptível de atacar melhor um tema que me seduz do que um tema que me repele; isso só quer dizer que nas ciências do espírito a objectividade pura é um mito. O melhor da interpretação faz-se através do eu, côa pelo cendal íntimo; e só assim se explica que, à parte um certo número de aquisições eruditas sobre a história de um espírito ou uma obra, seja sempre possível retomar essa história com fortes possibilidades de dilatá-la e enriquecê-la.”.

que a apreciação do acto crítico não se efectue por meio de critérios definidos, e por uma concepção precisa do que é, deve ser, ou consistir, a crítica enquanto actividade específica e diferenciada, mas sim por uma empatia e aceitação de leitura, por um tom que se intui ser mais válido (não mais verdadeiro, como já vimos), por motivos que dificilmente se consegue por si mesmo verbalizar, identificar ou descrever. E isto talvez por a crítica se dar conhecer, afinal, como um discurso autónomo relativamente ao texto que toma como seu objecto. Assim, trata-se de um discurso que, apontando o seu

suposto referente, nem que seja pela presença da nomeação do texto como acto

precedente ao discurso crítico, se autorrefere, reflectindo-se a si mesmo enquanto acto discursivo. Escreve Barthes num registo que aparenta ser mais prescritivo do que conclusivo:

Toda a crítica deve incluir no seu discurso (mesmo de maneira mais desviada e púdica posível) um discurso implícito sobre si mesma; toda a crítica é crítica da obra e crítica de si mesma; para retomar um jogo de palavras de Claudel, ela é «connaissence» do outro de «co-naissence» de si mesmo no mundo.271

Também por isso, no discurso crítico parece existir algo de inenarrável, de indescritível, um fundo de indecidibilidade, que provoca adesão ou não, da parte do leitor, sem serem totalmente controláveis os processos nele desenvolvidos. Só desta forma é possível este interesse inequívoco que David Mourão-Ferreira nutre por duas actividades críticas tão diversas, mas que, no entanto, são valorizadas por uma linha comum, resultado de uma acção interpretativa que o autor privilegia na sua própria actividade de leitura criativa e reconstrututiva dos textos críticos de ambos os ensaístas. Aliás, a certeza de que “jamais poderemos inteiramente banir, dos nossos juízos, a luz ou a sombra da afectividade”272 manifesta-se válida tanto para a percepção, apreensão e

juízo das obras literárias, como para a relação que se pressupõe teórica e mais

racionalizável de textos críticos e ensaios. Assim, por este prisma, é com maior clareza que se compreende o modo como D.M.-F. se esforça por colocar num plano secundário tanto as informações biográficas que Vitorino Nemésio dificilmente dispensava nas suas análises críticas, como as considerações expressamente impressionistas 273.

271 “ O que é a Crítica” in Ensaios Escolhido, 1992, p.350 272 Cf. Hospital das Letras, p.105

273 repare-se que sublinhamos a expressão expressamente, por crermos que toda a crítica deriva de

impressões de leitura, que podem ser descritas de um modo mais exposto, ou mais mitigado, simulando uma maior impessoalidade pela simulação de objectividade na remissão ou adequação ao texto tido como seu objecto. Tal como Jorge Luis Borges cria que “todo lo que uno escribe es autobiográfico. Solo que

Assim, aquelas informações biográficas que muitas vezes enformam ⎯ para não dizermos que sustentam ⎯ os textos críticos nemesianos são avaliadas por D.M.-F. como se se tratassem de simples iluminação das obras, sem nunca serem tidas como factores condicionantes da sua interpretação ou de um seu princípio ou indício descritivo:

(...) as reiteradas incursões de Vitorino Nemésio pelo campo biográfico(...) nunca têm como finalidade buscar um nexo imediato de causa a efeito entre este ou aquele pormenor da sua criação literária; e essas mesmas incursões, sugestivamente enquadrando ou indirectamente iluminando as obras, têm sempre o condão de nos fazer

sentir que não são «desimbodied voices para usar uma expressão de Leon Edel

as vozes que em tais obras se fazem ouvir.274

E mesmo quando a biografia assume um lugar de absoluta centralidade, David Mourão-Ferreira concentra a sua atenção naquilo que na tensão crítica de Nemésio corresponde ao que D.M.-F. denomina de “realidade autónoma daquelas criações verbais que a essas vidas serviram de suporte275, e que esses destinos configuraram ao mesmo tempo que foram por elas reflexamente modificados” 276.