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Assignment number 1 in Plan of Work ‘Racism – Understand, act and change!’

Buscamos neste capítulo investigar a semelhança entre a primeira navegação de Sócrates, apresentada por Platão no diálogo Fédon (Marcelo pede para fazer citação explicando o que é a primeira navegação) e a alegoria utilizada pelo autor do papiro de Derveni. Verifica-se pouco interesse filosófico sobre o papiro por interpretar poemas sagrados (hieroi lógoi) que denotam iniciação órfica, saindo assim da filosofia para um pensamento religioso. Isto difere da nossa expectativa ao olhar o autor do papiro esboçando uma causalidade cósmica abrangendo técnicas exegéticas para explicar os primeiros princípios cosmológicos dos pré-socráticos.

As coincidências entre o método interpretativo no Derveni e a primeira navegação socrática justificam esta pesquisa e são suficientes para ver de forma diferente o seu autor, que procura uma teoria causal filosófica sem abdicar da tradição de um antigo poema ritual órfico.

Isto posto, consideramos tais semelhanças como argumentos para afirmar que o exegeta de Derveni conhecia a doutrina que Sócrates propagou aos atenienses. Alicerçamos este pensamento com a proposta de Charles H. Kahn 85 e um cotejamento de informações do platônico Fédon e dos Fragmentos Órficos organizado por Gabriela Guimarães Gazzinelli.

Platão traz a lume no diálogo Fédon, a interlocução de Sócrates com alguns amigos que foram obter na prisão mais impressões sábias daquele filósofo condenado à morte pela justiça ateniense em 399 a.C. Destacamos nessa obra a conversa com Cebes na qual o foco da questão foi a demonstração de que a alma é indestrutível e imortal (já mencionado em capítulo anterior).

Para tanto, Sócrates recorda sua mocidade, período da vida que seu interesse estava direcionado a pensamentos que refletissem as teorias filosóficas naturalistas desenvolvidas pelos pré-socráticos, nas quais elementos como água, fogo, ar e terra se tornaram primordiais para as explicações das causas das coisas; e onde a formação de todos os seres decorria, segundo esses pensadores pré-socráticos, da guerra de forças de atração ou repulsão existentes no cosmo.

85 Artigo intitulado Was Euthyphro the Author of the Derveni Papyrus? Compilada por André Laks e

101 Ele relata sua busca insistente da causa da geração e da corrupção das coisas, se mostrando, porém, insatisfeito com o resultado de seus estudos que apontaram para uma inaptidão e cegueira ao perceber que, diante do seu querer conhecer as causas de tudo, se deparava com respostas de pensadores jônicos como Tales, Anaximandro e Anaximenes.

Nesse aprofundamento para entender a distinção do que é a causa verdadeira das coisas, Sócrates mostra seu desapontamento sobre o aprendizado, até então impróprio e deficiente, pois aqueles argumentos filosóficos não levavam em consideração o que existe em si mesmo, a “essência em si”. Essa insatisfação é exposta por ele ao afirmar:

Todavia, é a isso que aqueles que erram nas trevas, segundo me parece, dão o nome de causa, usando impropriamente o termo. O resultado é que um deles, tendo envolvido a terra num turbilhão86, pretende que seja o céu o que a mantém em equilíbrio, ao passo que para outro ela não passa duma espécie de gamela, à qual o ar serve de base e de suporte. Mas quanto à força, que a dispôs para que essa fosse melhor posição, essa força, ninguém a procura; e nem pensam que ela deva ser uma potência divina. Acreditam, ao contrário, haver descoberto um Atlas mais forte, mais imortal e mais garantidor da existência do universo do que esse espírito; recusam- se a aceitar que efetivamente o bom e o conveniente formem e conservem todas as coisas. Ardentemente desejaria eu encontrar alguém que me ensinasse o que é tal causa! Não me foi possível, porém, adquirir esse conhecimento então, pois nem eu mesmo o encontrei, nem o recebi de pessoa alguma. (Fédon, 99b-d).

Observamos que a busca de Sócrates é pelo melhor, pelo bom, pelo conveniente e nesse caminho interrogativo ouviu falar que Anaxágoras em seus escritos apontava como causa de todas as coisas, a inteligência, o nous, e esse pensamento lhe trouxe mais aceitação por considerar uma vantagem o aspecto de ser a inteligência a causa universal. Mas aquele filósofo tampouco atendeu as necessidades singulares de Sócrates. Ao ler seus escritos o “mestre” de Platão observou que aquele pensador “não fazia nenhum uso do espírito87 nem lhe atribuía papel algum como causa na ordem do universo, indo procurar tal causalidade no éter, no ar, na água e em muitas outras coisas absurdas!” (Fédon, 98b-c).

86 Aqui Sócrates se refere a Demócrito e Leucipo que afirmam ser o átomo o princípio de todas as

coisas.

87 Sócrates utiliza a palavra espírito para o nous (inteligência) encontrado nas anotações de

102 Sócrates tece, então, seu discurso, no sentido de esclarecer que cada coisa existe porque existe uma causa própria para sua existência, uma vez não ter encontrado em sua busca entre os naturalistas, uma doutrina do ser verdadeiro cuja teoria ele próprio elabora “Volto a uma teoria que já muitas vezes discuti e por ela começo: há um belo, um bom, e um grande em si, e do mesmo modo as demais coisas” (Fédon, 100b). Para tanto afirma que:

As coisas sucedem de tal sorte, que não somente a forma em si mesma tenha direito a seu próprio nome por um tempo eterno, mas que haja ainda aí outra coisa que, embora não sendo a forma propriamente dita, possua, todavia o caráter desta, e isto em virtude da eternidade de sua existência. (Fédon, 103e).

Essa linha metodológica está firmemente alicerçada pelo intento de encontrar o melhor das coisas, e para apresentar um fundamento sobre a questão da alma imortal. Sócrates mostra que: tal como uma coisa não admite seu contrário em sua natureza, assim como o ímpar não admite o par; a alma também não admite a morte, que é o contrário da vida.

Dessa maneira, a alma, que proporciona a vida, não podendo ser destruída pela morte (seu contrário) é indestrutível, logo, imortal. “Portanto, meu caro Cebes, a alma é antes de tudo uma coisa imortal e indestrutível, e nossas almas de fato hão de persistir no Hades” (Fédon, 106e-107a).

Observamos nessa exposição sobre o critério utilizado por Sócrates, considerado como primeira navegação, que o juízo mais sólido ou o melhor88, coincide com o estabelecido inicialmente no argumento base tomado como verdadeiro assim relatado por Platão: “Assim, depois de haver tomado como base, em cada caso, a ideia, que é, a meu juízo, a mais sólida, tudo aquilo que lhe seja consoante eu o considero como sendo verdadeiro” (Fédon, 99e-100a).

Ao levar a consequência de sua investigação para a hipótese, Sócrates garante o melhor resultado para a investigação pela superioridade das análises consideradas ao serem estas exatamente e plenamente justificadas entre a proposta e sua consequência, “doutrina do ser verdadeiro” (Fédon, 101e).

5.2 Transposição socrática

88 A busca “do melhor – mais sólido – verdadeiro” (beltistoj), é o cerne da primeira navegação