Nas discussões sobre a educação, promover o homem é função basilar do processo educativo. O saber, aquilo que uma pessoa aprende, tem relação com a sua vida, com o modo como vive sua história e a história dos seus semelhantes.
89 Demerval Saviani (2009: 74) é claro quando diz que nenhuma prática educativa pode instaurar-se sem que considere os interesses dos educandos. Seus interesses são múltiplos. É nosso dever de adultos e de educadores proporcionar aprendizagem significativa e de qualidade, feita para todos igualmente.
Mas, para que o aprender seja significativo, é preciso sentir prazer em aprender, mesmo sabendo das dificuldades e das exigências que toda a tarefa de estudar e aprender traz para os educadores e os educandos, por isso, é necessário cultivar o saber como algo prazeroso, que tem alegria no presente e se constitui em alegrias no futuro.
Neste sentido, Georges Snyders (1993: 30-31) fala das frustrações necessárias e das alegrias indispensáveis. Diz ele que, para uma criança crescer harmoniosamente, ela precisa encontrar alegria no presente, pois são essas alegrias que fazem com que ela vá mais longe, siga adiante na próxima etapa. A etapa de aprendizado futuro dar-se-á melhor, se o aprendizado presente for eficaz e significativo. Aprender para o futuro não pode ser por temor, ou um modo de abrigar-se naquilo que um dia será. Na verdade, segundo Snyders, aprender no presente com alegria é ter a capacidade suficiente “para construir o futuro, para construir-se nesse futuro”.
O futuro é nossa construção, não pode ser compreendido como aquilo que virá, apenas como o que sucederá mais tarde, quando soubermos mais. Não quer dizer somente preparar-se para o amanhã, mas desde já começar a construí-lo, aprendendo todos os dias – somos nós, os humanos, que empregando nossos esforços construímos a história, o nosso futuro.
No sentido de uma alegria que dê significados no presente, as crianças colocaram suas idéias sobre atividades que melhoram o ambiente escolar e sobre os desejos que têm em relação a uma escola mais alegre.
Avatar acha que a escola precisa ser mais agradável, é ruim ficar o tempo todo na sala de aula, ali sentado. Para ele, a escola precisa oferecer atividades e coisas para torná-la melhor. Mostra a necessidade do movimento, a importância de não permanecer estático. O corpo, como lugar de expressão da criança, aparece nesta fala:
90 participar da escola e das aulas, para Avatar, quer dizer, muitas vezes, calar-se, não mover-se para aprender. O movimento é feito quando estão no pátio, na quadra, nas brincadeiras. O espaço da sala de aula é um tempo de interrupção do movimento. Tem vezes, que querem que a gente fique sentado como um robozinho.
Pensando sobre nossos desejos de uma educação progressista, vemos que o menino apresenta necessidades elementares para aprender com alegria e entusiasmo – é preciso permitir, na escola, que o aprendizado seja mais agradável, que haja movimento, que existam lugar para expressar-se. Entende que criança não é um robozinho, mas, sim, um ser humano que se movimenta.
Aprender é movimentar-se. O movimento se dá nas relações entre as pessoas, os saberes, os medos, as angústias e as certezas. O corpo expressa essas situações que vivenciamos: as experiências e os aprendizados. Cultivar essas expressões colabora para que se aprenda com as experiências, para „achar um lugar‟ particular que é a partida para encontrar o seu espaço com os outros e com o saber. Por isso, relatam com entusiasmo as brincadeiras, as aulas de educação física e o momento do intervalo.
Cebolinha acha que a educação física é bom, porque a gente alonga, não fica só parado, depois joga bola, vôlei, ou pula corda, é legal... Relatam a importância do exercício, do esporte, do movimento como modo de expressão, de não ficar sempre parado. Colocam a necessidade dos momentos de descontração e de brincadeiras, também falam que sentem falta de espaços e de tempo para brincar e partilhar as suas vidas, suas particularidades cotidianas - desejam que as aulas sejam mais voltadas para o movimento, para a inventividade e para a liberdade de criação.
Joe falou sobre os tempos na escola e como eles interferem na vida cotidiana. Disse: Seria bom se a gente tivesse um horário de aula assim: o conteúdo e outro tempo extra com brincadeiras, teatro, coisas assim. Azaléia diz que gosta muito de estudar, gostaria que tivesse mais computadores e mais tempo no laboratório, um monitor que ajudasse a gente, e também que consertasse quando quebra. Observam que precisam e acham importante a tecnologia na escola - os computadores. A educanda aponta que precisam de acompanhamento nas aulas de informática e também pondera
91 que a manutenção é necessária para que tudo funcione bem.
Joe e Azaléia colocam o acesso às tecnologias, e levantam também questões relativas a outras atividades, como o teatro e a brincadeira. Como encontram os amigos na escola, desejam brincar juntos, fazer dela um ponto de encontro; ali querem encontrar-se, aprender e divertir-se.
Expuseram também dôo que pensam sobre o intervalo-recreio. O intervalo é recorrente nas falas. Naruto acha que o intervalo é importante: Mais recreio, pelo menos 25 minutos de recreio. O recreio é muito curto, não dá tempo para nada. Como precisam expressar-se, encontrar-se e brincar, um intervalo curto não permite “recrear”, conversar e lanchar. Também Girassol coloca esse desejo: O tempo do intervalo tinha que ser maior, precisa fazer tudo muito rápido, era bom se fosse melhor dividido , não dá tempo para quase nada, começa e logo acaba. O recreio, na expressão das crianças, tem o sentido de liberar-se, de espaço para praticar uma certa liberdade de movimento e de expressão.
As crianças evidenciam as relações com o tempo, com o espaço físico e geográfico onde vivem. Thor diz:
De verdade, eu acho chato ficar em casa, no colégio a gente aprende. Antes eu dormia mais de manhã, agora, com esse frio, levantar cedo, e vir cedo... trocaram o nosso horário, no ano passado eu estudava de tarde e dormia mais. No primeiro e no segundo dia eu levantei cedo, mas depois senti uma preguiça, uma vontade de dormir. Aqui tem um inverno que é muito frio. Quando a mãe me acorda eu não quero levanta. Mas nas férias, que são no verão, eu sinto vontade de vir para a escola. Acho que tinha que ter férias de inverno e vir na escola no verão, ou os horários serem diferentes, começar mais tarde... eu acho assim.
Thor apresenta questões relevantes relativas à adequação de horários. O educando demonstra que é importante discutir os tempos dentro da escola, como está organizada e como poderia adequar-se às situações locais: Os horários serem diferentes, começar mais tarde...
92 currículo, intervalo... As crianças comentam sobre esse espaço. Consideram necessário adequá-lo para que todos se sintam melhor. Ponderam que o intervalo deveria ser mais longo, embora relatem que o recreio, muitas vezes, é espaço das brigas e desentendimentos. Indicam propostas sobre o funcionamento prático da escola relacionadas a aspectos como o frio do inverno e as necessidades de estarem mais tempo na escola para os pais trabalharem tranquilos, enquanto estão sendo cuidados.
Quando indagados sobre o que seria importante fazer para que os espaços de participação aumentassem para eles na escola, constituindo-se em lugar para opinar sobre os assuntos que relataram, Flor de Lis disse que não saberia como, não tinha uma resposta para dar, mas que pensava que isso é uma coisa que precisa estudar para saber.
A educanda fez uma reflexão importante sobre a participação ativa da criança na escola, fez um convite ao estudo. Reconhece que é preciso estudar as questões para conhecer e buscar práticas que priorizem esse exercício, promovendo a participação do educando na sua escola, fazendo o aprender significativo e alegre. Não uma alegria centrada apenas na convivência, mas constituída na possibilidade de crescimento, de desenvolvimento e de emancipação através do conhecimento.
Os determinantes são grandes, as necessidades sempre renovadas, numa sociedade exigente no trabalho, nas relações humanas e sociais. Tudo se modifica rapidamente. A escola não é como em casa, não é a família, mas é o lugar onde a criança forma outra família mais diversa. Espaço de outras conquistas – aprender a ler e aprender regras diferentes, conviver com grandes contradições, com pessoas diferentes – enfrentar as dificuldades. Desembaraçar-se, sofrer e alegrar-se. Aprender e perceber-se como sujeito que contesta, se desenvolve e se interessa.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O futuro não nos faz. Nós é que nos refazemos na luta para fazê-lo. (Paulo Freire) (...) o processo para apreender o objeto se dá por aproximações sucessivas- o que vai permitir que a cada uma dessas aproximações a realidade vá assumindo um novo sentido, mais claro e mais completo.
(Myrian Veras Baptista)
Neste trabalho de pesquisa propus conhecer o significado da escola para as crianças das classes populares, estudantes da escola pública. Por isso, procurei colocá-las como sujeitos centrais onde mostrariam e desvelariam, através de suas opiniões, os significados que nos levariam a compreender a escola por outra perspectiva. Elas falariam sobre seus desejos, seus pensamentos, seus sentimentos e sobre aquilo que esperam da escola.
São grandes as questões a serem estudadas para conseguir-se maiores conhecimentos sobre o significado atribuído pela criança à escola e à educação que recebe. Abordar esse assunto falando diretamente com elas, percebendo o que pensam, sentem e desejam, permite um romper com aquilo que é comum: entender o processo educativo a partir do horizonte desenhado pelos adultos. Hoje, ao indagar-me sobre as respostas e as problemáticas que encontrei, digo que estas são diversas. A grande preocupação que tenho agora é: como fazer para que seja aplicado esse conhecimento - trazido e expressado pelas crianças - para melhoria dos processos educativos e construção de uma escola mais dinâmica e integrada?
A pesquisa preliminar que realizei sobre a história da criança e do processo de escolarização mostrou que esses (a história e o processo) são uma
94 construção que vem sendo firmada no decorrer do tempo. A educação e a escola, como lugar do saber sistematizado, vêm mudando e transformado suas práticas, de acordo com as exigências de suas conjunturas históricas, da vida individual e do mundo do trabalho.
A história da criança, sujeito da educação, também partiu de uma concepção que a percebia como sombra do adulto, portanto, limitada e impossibilitada de opinar. Essa concepção vem sendo rompida, conforme a 'nova' criança assume centralidade nos processos sociais. Assim, constitui-se uma realidade nova em que o debate acerca dos direitos e da participação das crianças nos espaços para elas preparados vem afirmando-se no contexto social. Hoje, com as discussões relativas aos seus direitos, elas vêm ganhando outros referenciais no mundo contemporâneo, embora ainda sofram muitas formas de marginalização e exploração.
A infância contemporânea vive um momento rico, provocador de alterações nos padrões que buscam o seu entendimento e o reconhecimento de seus processos. No que refere-se ao aspecto teórico, obtém um espaço e um status cada vez mais elaborado nas discussões e nos ordenamentos científicos. Um desafio posto na atualidade é pôr em prática os conhecimentos que daí decorrem.
Ao trabalhar com significados, foi fundamental para mim, em meus primeiros passos, levar em conta o sujeito. No caso desta pesquisa, a criança.
A criança, como sujeito, está inserida no mundo, ocupa um lugar histórico e social. Por sua vez, a escola e a educação que recebe, também estão imbricadas na estrutura social. Nela, a criança se expressa e ganha experiência. Ela fala sobre as suas coisas, imita, sonha e busca realizar. Nesse espaço, onde ela como pessoa afirma sua presença, a aprendizagem e o saber são construídos e reconstruídos.
Com efeito, o conteúdo dos discursos das crianças é voltado para suas relações humanas, suas alegrias e conflitos. Esses discursos possibilitam muitas reflexões: sobre a educação e suas metodologias, sobre o aprender, sobre a docência, sobre os modos de vida, sobre a sociedade e o lugar que essas crianças ocupam na família e na escola.
95 O significado que a criança dá à sua escola tem relação direta com o modo como se relacionam com os adultos, também existem os significados por elas criados em função da convivência que estabelecem no processo de escolarização, de sua cultura e de sua expressão como sujeito coletivo. No que tange a uma reflexão sobre o sujeito, penso que o significado seja uma maneira pela qual a criança percebe-se como pessoa- sua vivência no mundo e do mundo com ela: significam a escola com os sentidos que apreendem, interpretam e categorizam no contexto social.
Há um encontro do sujeito com o significado. É possível dizer que não existe um único significado, uma única construção, mas diversos e múltiplos que adquirem intenções e formas diferenciadas, de acordo com as experiências e os sentimentos vivenciados pelos sujeitos na vida escolar. Neste sentido, é importante lembrar que as crianças observam e categorizam o mundo com um olhar peculiar, particularmente seu, inerente às suas vivências e observações. A criança trabalha na perspectiva do concreto. Piaget (1974), em sua teoria construtivista, aborda essa questão quando refere que a criança aprende aquilo que toca, aquilo que lhe é plausível, aquilo que está ao seu alcance.
Ao seu modo, os discursos das crianças realizam uma análise questionadora da escola que frequentam e da educação que recebem. Demonstram impressões que adquirem e possibilidades que criam enquanto educandos. Falam de sua experiência de vida, da empiria que conhecem, contam sobre um concreto a ser elucidado, algo que existe, mas não foi decifrado: Qual lugar ocupam o saber e o aprender na trama dos significados que a escola tem para eles?
Para que o saber ocorra em sua dimensão plena, é necessário haver o desejo de aprender. Saber e aprender relacionam-se mutuamente. O saber sistematizado é função da escola. Os sujeitos são os portadores do desejo que impulsiona para que a aprendizagem se realize. Neste sentido, é detectável nos depoimentos das crianças que elas não colocam o saber e o aprender como uma conquista do hoje, mas sim, como uma preparação para o futuro. A relação significativa é dada na convivência com seus pares. A escola tem um sentido ampliado quando é conduzida para a convivência, a troca e o relacionamento – na idéia das crianças grande parte dos aprendizados está na
96 possibilidade que a escola lhes oferece de conhecer e conviver: é aí que colocam toda a alegria e o entusiasmo de estar na escola.
Conhecer esses significados é um importante resultado desse movimento de dar voz a sujeitos tão pouco consultados. Suas ponderações oferecem oportunidade para fortalecer a educação e a escola como espaço de garantia de direitos e de participação. Conhecendo os significados é possível entender os processos que se dão dentro das escolas, e contribuir para a construção de metodologias e práticas educativas que colaborem para a resolução de problemas que ocorrem cotidianamente no universo escolar, entre eles a desmotivação, a violência, as dificuldades para ensinar e aprender.
O que foi feito foi uma primeira aproximação: é possível afirmar que é longo o caminho a ser feito para compreender os significados construídos pelas crianças e apropriá-los para novas propostas. A escola significativa para a criança demanda inovações em seus processos, não apenas metodológicos, mas também nos aspectos relacionados ao entendimento entre os sujeitos. Por exemplo, aproveitar as opiniões dos educandos, valorizar o fator convivência para aproximá-los da escola, fazendo dela um local de apoio, de aprendizado e de amadurecimento. A convivência prazerosa pode ser a chave para que a educação adquira a qualidade necessária, pode ser ela a motivadora do aprender.
Nas comunidades periféricas a escola tem significados diferentes em relação às comunidades centrais e, também, a aprendizagem ocorre de maneira diferente – é desafio detectar esses significados e esses modos de aprender para atuar sobre eles e com eles. Não é suficiente investir apenas em prédios equipados, em recursos tecnológicos: é preciso capacitar os professores e remunerará-los com dignidade para que estejam predispostos a desenvolver um relacionamento positivo com os alunos. Também é preciso que a escola das regiões mais carentes tenham seus horários estendidos e desenvolva atividades diversificadas. Como as próprias crianças relataram é preciso abrir mais espaço para o convívio, para a brincadeira e para o movimento, como expressão e expansão da mente, da alma e do corpo.
Enfim, a escola precisa construir permanentemente um elo com as famílias e a comunidade. Necessita reconhecer, de fato e de direito, que a criança é o
97 sujeito da educação. Suas vozes desejam e precisam ser escutadas. Por outro lado, é preciso criar mecanismos eficazes de proteção social. Neste sentido, o Estado tem o dever de promover políticas públicas que operacionalizem possibilidades de educação formal e de educação ampliada, especialmente nas periferias das cidades onde as famílias experimentam muitas formas de desigualdade - de moradias, de escolarização, de saúde, entre outras.
As constatações apresentadas neste trabalho abrem espaço para uma discussão sobre os sujeitos – o lugar da criança no contexto escolar. Essa possa ser uma abertura positiva para a educação, como proposta que pensa a promoção do homem integralmente. Entendo, neste sentido, ser necessário conhecer as crianças de hoje e os significados que elas atribuem à sua vida escolar. Conhecer a sociedade em que vivemos, e o que ela apresenta. A educação deve promover integralmente o educando, não como um receptor de conhecimentos, mas como construtor de saberes.
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