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O texto descrito a seguir – extraído do livro Coração de Edmondo de Amicis, foi escrito na Itália, ainda no século 16. Com todas as contradições que possa apresentar, o livro mostra como a figura do professor já exercia sobre a criança uma espécie de fascínio e sentimentos contraditórios: amor, admiração, medo, e até raiva. Escrito como um diário, conta a vida escolar de um aluno da terceira série do ensino elementar, numa escola pública italiana. Ao longo do ano letivo, ele vai descrevendo a sua vida escolar: os amigos, os professores, os acontecimentos que vivenciava.

O texto tem passagens que chamam a atenção para a figura do professor, descreve seus comportamentos – o modo como o professor é, como se relaciona com os alunos. Como foi estudar com o professor do ano que passou. A curiosidade para saber como será o novo professor da classe. Os comportamentos enaltecidos e desejados no professor, a confiança, a saudade. O menino não pensa inicialmente no que o professor vai ensinar, mas, sim, em como é o professor “(…) tão bom. Ele ria e brincava com a gente, é pequeno, que até parecia um de nossos companheiros”. O livro foi escrito há muito tempo, numa época determinada por outras conjunturas sociais, na Itália pós- unificação, imbuída de um projeto burguês e liberal. Mas o conteúdo descrito nesta obra sobre a relação e a importância do professor permanece atual.

Perto da porta, senti alguém tocando o meu ombro - era o meu professor da segunda série, sempre feliz, com seu cabelo vermelho e desajeitado. Ele disse: - Bem, Henrique , estamos separados para sempre? - Eu sabia disso muito bem, mas aquelas palavras me deixaram triste (...) Vi com alegria a grande sala no andar térreo, com as portas das sete classes, onde passei três anos, estando lá quase todos os dias. Havia uma multidão, os professores iam e vinham. Minha professora do primeiro ano me cumprimentou na porta da sala . Ela disse: - Henrique, você vai estudar lá em cima este ano, já nem sequer posso ir vê-lo ! E olhou para mim com tristeza. O diretor tinha muitas mulheres ao seu redor, todas ansiosas porque não havia lugar para seus filhos. Nisso eu percebi que sua barba estava um pouco mais branca que no ano passado. Eu encontrei os meninos, eles cresceram e estão muito engraçados. Meu irmão mais novo foi colocado na classe da professora Delchi, eu do professor Perboni (...) Eu estava pensando em meu segundo professor, tão bom. Ele ria e

86 brincava com a gente, é pequeno, que até parecia um de nossos companheiros. Eu estava triste por não vê-lo mais, com seu cabelo vermelho e desajeitado. O nosso professor é alto, com cabelos grisalhos e longos, sem barba, ele tem uma ruga na testa, tem uma grande voz, e cuida da movimentação de todos, um após o outro. E nunca ri (...) E eu fui para casa feliz. Mas eu não tenho mais o meu professor de sorriso bondoso e alegre, e a escola já não parece tão bonita como a primeira escola. No texto, o menino Henrique apresenta a sua relação com os professores, a influência que estes exercem no cotidiano da escola e na vida do educando. Os educadores são pessoas de referência, dentro das escolas; são aqueles que incentivam e impulsionam para o aprender. São também as pessoas adultas que estabelecem uma relação muito próxima com as crianças. Podem tanto incentivar e promover, como também intimidar e oprimir. De certo modo, foi isso que demonstraram as crianças entrevistadas.

Flor da Macieira diz: Os professores devem ser amigos, a professora ajuda a aprender, ser nossa companheira. Tem gente que não gosta da gente, e a gente não gosta quando vem outro professor. A fala de Flor da Macieira denota a importância do trabalho da professora, da continuidade. Mostra quantas exigências existem no processo de educar. A criança vincula-se ao educador, constrói com ele uma relação de afeto e de pertencimento. È ruim trocar de professor, precisa se acostumar com a professora, acho bom seguir sempre com a mesma professora porque continua o trabalho.

Trocar de professor para as crianças é sempre um fator de transição difícil, pois isso significa a necessidade de construir um novo vínculo com o novo educador. Muitas vezes, as crianças, inicialmente, são resistentes quanto a isso, pois como relatam, a boa continuidade do trabalho educativo está atrelada à continuidade e à permanência do educador, da pessoa adulta com a qual se sentem vinculados.

Enquanto Hortência diz: Só ás vezes ela é brava. Joe acha que ela não é brava, ela quer ajudar a gente, ensinar, e depois também tem colega que não quer aprender. Joe e Hortência referem-se a um comportamento da professora – ser brava quer dizer colocar limites, entendem que, para aprender, é preciso uma dose de disciplina e organização.

87 As crianças desejam um professor amigo, companheiro, que conversa com eles, mas que seja também aquele que impõe disciplina – ser brava para eles quer dizer, também, que às vezes é necessário impor as regras, senão, segundo Flor de Liz, o aluno faz tudo o que quer e aí não dá. A educadora aparece nas falas como alguém que deve ser compreensiva e ensinar, mas também alguém que tem determinações na ação educativa e coloca os limites necessários. Aparecem nas conversas as questões do gostar e de provocar a professora para testá-la e também das atividades, das oportunidades que ela oferece na sala de aula. Flor de Liz diz: A professora, na sexta-feira sempre dá um tempo para a gente fazer alguma coisa, como teatro, coisas assim que a gente organizou.

Nesse sentido, pode-se apreender que a relação estabelecida no cotidiano escolar entre educandos e educadores apresenta significados contraditórios, porém a figura da professora é sempre lembrada e contada como uma referência.

Snyders (1996: 79) diz que a relação professor-aluno sempre será contraditória. Nessa relação, há aspectos que nunca serão totalmente conhecidos, porque o professor provoca muitos sentimentos no aluno e o aluno no professor. O autor coloca que nessa relação há sempre uma dualidade: “não sei se amo ou odeio”. Recorda que mesmo que essa relação seja cheia de alegria “ela jamais será simples ou plana”.

Aparecem também, na fala das crianças, questões relativas à didática, opinam sobre o fato de os professores darem aulas diferentes. A gente queria que o professor conversasse mais com a gente. Assim o declararam Girassol e Naruto, que pensam ser importante a educadora falar, conversar sobre diversos assuntos. Apresentam a necessidade de o educador ser um companheiro. Isso é uma importante reflexão que deve ser feita sobre as práticas educativas. As crianças demonstram em suas falas que desejam educadores que privilegiem práticas que incluam o contato, a partilha e a troca, para que sintam alegria de aprender e entusiasmo pela escola.

Como disse o menino no diário tratado no livro Coração de Edmondo de Amicis, sem a alegria e o entusiasmo do professor, a escola deixa de ser bonita e alegre. O educador exerce, diante do educando, um papel essencial. Então, o discurso que propaga a ideia de que o professor teria perdido seu espaço como autoridade devido às

88 novas pedagogias, parece não ser real. O que ficou evidente, nos discursos das crianças, é que o professor tem função primordial na vida delas e na sua aprendizagem. O que se modificou foram os tempos e as necessidades, que estão exigindo outras formas de trabalho.

Nesse sentido, a formação dos educadores é sempre necessária; deve conter os entendimentos do mundo e dos sujeitos no tempo e no espaço em se dará o processo educativo. Precisa ser diferenciada e sólida, tanto nos aspectos teóricos e científicos como nos aspectos humanistas, para que os novos educadores estejam preparados, sintam-se sempre mais capacitados para compreender o movimento do mundo e das crianças, para exercer com propriedade a sua função junto aos educandos.

O educador, para a criança, não é visto como aquele que simplesmente transmite conhecimentos, mas o que instrui, que conversa, que pergunta, que anima e que exige compromisso - na medida em que o aprender é uma tarefa alegre, mas árdua. Esse educador não apenas exige o compromisso do educando, mas se compromete junto com ele para que o conhecimento avance e o aprendizado seja cada vez maior. Educador e educando são sujeitos do aprendizado e se relacionam entre si construindo vínculos de afetos e de saberes. São essas relações que colaboram para que possamos nos perceber no mundo como pessoas inseridas.

o fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros, me põe numa posição em face do mundo que não é de quem não tem nada a ver com ele. Afinal, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história. (FREIRE, 1996: 54)

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