Bomfim (2010) aproxima a Psicologia Social de base histórico-cultural da Psicologia Ambiental de visão transacionalista para compreender o encontro do indivíduo com a cidade. A primeira perspectiva teórica pauta-se na concepção unificada da ciência psicológica desenvolvida por Vygotsky (1996) que rompe com as dicotomias do modelo cartesiano. Vygotsky (1996; 2007) propôs um método de ciência psicológica pautado no materialismo dialético, com base nas concepções marxistas, concebendo o psiquismo humano construído a partir da interação homem-mundo. Ao fundamentar-se na abordagem dialética, admite-se a influência da natureza sobre o homem, afirmando também que o homem age sobre a natureza e cria, por meio da reciprocidade das ações, novas condições naturais para sua existência (VYGOTSKY, 2007).
Quanto à Psicologia Ambiental transacionalista, esta não restringe “[...] a interação do indivíduo com o ambiente como um cenário em que um interfere no outro, mas põe em evidência o entorno como uma dimensão da identidade dos indivíduos, em que interagem fatores psicossociais, sociofísicos e histórico-culturais” (BOMFIM, 2008, p.254). Tal enfoque apresenta como unidade de análise as entidades holísticas que abrangem as pessoas, os processos psicossociais e os ambientes. Com efeito, tem-se que uma entidade apresenta uma relação dependente entre todos os outros elementos, em que a ênfase “[...] se põe sobre as relações mutáveis entre os aspectos do sistema global”59 (MIRA, 1997, p.35, tradução nossa).
No contexto latino-americano, a relevância social de tais marcos teóricos deve direcionar-se para a superação da construção excludente dos espaços e lugares (TUAN, 1983) e dos sofrimentos advindos destes. Por exemplo, podemos apontar como a construção dos não- lugares (AUGÉ, 1995) nas cidades repercutem na organização sociofísica desta e na identidade das pessoas - destruição dos espaços de convivência e permanência para a construção de lugares de passagens despersonalizados pelos habitantes da cidade.
Para Tuan (1983), os lugares podem ser definidos a partir das pausas, ambientes onde as pessoas param e se estabelecem, enquanto os espaços são lugares de passagem. No entanto, esse “[...] espaço indiferenciado transforma-se em lugar à medida que conhecemos melhor e o dotamos de valor (TUAN, 1983, p.6). Entrelaçado a esse processo, Augé (1995) enxerga ainda a existência dos não-lugares, que se configuram como espaços transitórios, apenas com as funções de deslocamento e de uso temporário. Tais espaços manifestam a atual
organização da sociedade, em que os espaços aparecem como descartáveis, impedindo que as pessoas se identifiquem e estabeleçam vínculos afetivos com eles. Desse modo, podemos compreender que
Os lugares são produções ideológicas. [...] Se deve entender a relação de apropriação/significação dos espaços e lugares não simplesmente como uma questão de ocupação física, mas sob o foco da produção de signos históricos e culturais. [...] Os lugares, espaços até mesmo os não-lugares são todos construídos ideologicamente e respondem, consequentemente, a interesses sociais dos grupos humanos que sustentam sua construção, manutenção, reprodução e transformação. (PONTE; BOMFIM; PASCUAL, 2009, p.349).
Compreender como são construídos os espaços, os lugares e os não-lugares nos situa na teia de construção da cidade, possibilitando o reconhecimento de como é forjado nosso lugar físico e social dentro da cidade.
Também pensando a relevância social da construção da cidade e o lugar que nela ocupamos, citamos o estudo sobre a aglomeração residencial de Martín-Baró (1985), que critica os modelos sociológicos (de análise voltada para os fenômenos macrossociais) e os modelos psicológicos (orientados por uma perspectiva microssocial) de compreensão da problemática, propondo um modelo psicossocial. Dentre as principais reflexões críticas sobre os modelos, destacam-se a conceitualização do próprio espaço, que não deve ser compreendido por análises
a priori, mas a partir da produção histórica de onde ele está situado; a adesão da concepção
homeostática nos estudos, enquanto se observa que o fenômeno da aglomeração tem um caráter relacional que muda conforme o contexto; e a crescente tendência de subjetivação da problemática, deixando de lado os problemas de ordem histórica e de negação de espaço às pessoas pobres.
A partir de tais críticas, Martín-Baró (1985) propõe o modelo psicossocial, integrando tanto o modelo sociológico como o psicológico. Neste considera cinco aspectos importantes, a saber, a) compreensão das estruturas sócio-históricas que determinam a distribuição do espaço; b) as normas culturais que estabelecem o modo de realização das atividades diárias de cada grupo; c) as relações e diferenças entre as condições objetivas e as subjetivas da aglomeração; d) o caráter motivacional e suas condições da aglomeração; e e) os efeitos imediatos e mediatos da aglomeração nos indivíduos. Com efeito, o problema de aglomeração passa a ser compreendido enquanto fenômeno individual e social. Individual por considerar que qualquer experiência representa um processo subjetivo para as pessoas; social, porque a constituição das pessoas não é processo puramente individual, mas acontece em meio às interações sociais (MARTÍN-BARÓ, 1985).
O modelo psicossocial torna-se importante por integrar as análises macrossociais, referentes à constituição das estruturas sociais, e as microssociais, relacionadas às percepções e às consequências na vivência singular das pessoas. Essa mesma perspectiva é adotada por Sawaia (2011) ao apontar a necessidade de estudar os processos de inclusão e exclusão. Para a autora, não se pode perder o indivíduo no meio das análises macrossociais nem psicologizar as vivências de questões sociais, reduzindo-as ao nível individual subjetivo. O indivíduo experimenta subjetivamente vivências atravessadas por questões sociais, culturais e políticas, tendo suas dores mediadas pelas injustiças (SAWAIA, 2011).
Ainda a respeito da relevância social dos estudos e intervenções das posturas teóricas, Bomfim (2008, p.254) aponta que as psicologias social e ambiental têm gradativamente se inserido nos estudos sobre a “[...] compreensão do urbano, redimensionando questões econômicas, políticas, éticas e culturais, tanto no plano individual quanto no coletivo”. É destaque para a autora a dimensão ética que visa à igualdade de acesso dos moradores à cidade, para isso
Devolver a voz do cidadão, então, seria um caminho para o desenvolvimento de uma ética na cidade. A cidadania, qualidade de ser cidadão, relaciona-se diretamente ao território: espaço onde o indivíduo vive e constrói o seu modo de vida. O valor do indivíduo depende do lugar em que ele está (BOMFIM, 2010, p.47).
A compreensão ética da construção e do envolvimento do indivíduo com o ambiente é alcançada a partir da afetividade. Esta categoria parte da integração das emoções e dos sentimentos que afloram no modo como a pessoa é afetada no encontro com o outro (pessoa e/ou ambiente). Para Espinosa (2010), essas afecções podem aumentar ou diminuir nosso
conatus, a força de perseverar no nosso próprio ser. É por meio das afecções que o filósofo
compreende a política e a ética nas relações sociais, apontando as tristezas como afetos que diminuem a potencia do agir, levando à servidão, e as alegrias como afetos que libertam.
A afetividade aparece como categoria de análise e de compreensão tanto de aspectos relacionados às vinculações sujeito-comunidade como também de questões sociais e políticas que perpassam o contexto de segregação socioespacial concretizados por processos de remoção de comunidades. Com os suportes da Psicologia Social e da Psicologia Ambiental, a afetividade se expressa como síntese do encontro entre o indivíduo e a comunidade/cidade (BOMFIM, 2010). Passa-se a compreender, então, que
A cidade não é um conjunto de ruas, edifícios e praças. É um símbolo complexo, que exprime a tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado de existência
humana. [...] A cidade, a rua, o prédio, a porta representam modelos de subjetividade enquanto portadores de história, desejos, carência e conflitos. Cada cidade, bairro, rua, até mesmo cada casa, tem um clima que não advém, exclusivamente, do planejamento urbano e da geografia, mas do encontro de identidades em processo – identidades de homens e de espaços (SAWAIA, 1995, p.21).
Com base na compreensão dos afetos envolvidos na relação morador- comunidade, as psicologias Social/Comunitária e Ambiental poderão auxiliar na identificação dos afetos e na análise das implicações psicossociais decorridos dos processos de remoção/desapropriação. Ademais, a compreensão de tais afetos pode contribuir para o resgate histórico (MARTÍN-BARÓ, 1996) da vida dos moradores com a sua comunidade, repercutindo em um processo de conscientização sobre as desigualdades socioespaciais e, consequentemente, no fortalecimento de estratégias para enfrentá-las.
Assim, a afetividade demarca a forma como as pessoas e os ambientes são afetados em seus constantes e recíprocos encontros. Como afirma Heller (2004, p.21), “sentir significa estar implicado em algo”, sendo a implicação um fator construtivo inerente da forma de pensar, sentir e agir sobre determinada afecção. A apreensão destes afetos possibilita compreender de que forma estes, seja no plano de figura ou de fundo, atuam na consciência e na forma de agir das pessoas, expressando se estas estão escravizadas ou libertas – no caso de servidão, interessa- nos desvelar quais os afetos que aumentam a potência de padecimento da pessoa com o ambiente para que se possa intervir no sentido de aumentar a potência de ação e consequente enfrentamento da situação de opressão (SAWAIA, 2009).
5 O ANTES E O AGORA: MAPEAMENTO AFETIVO DO ENCONTRO ENTRE A