Segundo os dados apurados pela pesquisa, apenas 10% dos jornalistas da Band e da RPC acreditam que não houve reconfiguração no ofício jornalístico a partir da evolução tecnológica. No entanto, a grande maioria confirma essa mudança na dinâmica do trabalho. Dentre eles, 57% consideram que o trabalho jornalístico ficou mais complexo enquanto, 33% acham que ficou mais simples. Interessante destacar, que um dos respondentes do questionário, considera que o trabalho jornalístico foi sim recon- figurado, mas nos dois sentidos: hoje é mais complexo e, ao mesmo tempo, mais simples.
Gráfico 2. Reconfiguração do trabalho na Band e na RPC - geral.
Fonte: Rosângela Stringari.
Cabe destacar que os resultados individuais de cada emissora, apresentam uma tendência diferenciada em relação ao sentido dessas mudanças no exercício profissional. Na Band, 14 jornalistas participaram da pesquisa, sendo que 36% deles consideram que a prática contemporânea é mais complexa. Na RPC, 16 profissionais participaram e, são 75% deles que pensam dessa maneira.
Por outro lado, existem profissionais que afirmam que o trabalho jornalístico se tornou mais simples de executar. São 43% na Band, e 25% na RPC. Na Band tem ainda 21% que não assumem que houve reconfiguração.
Esses dados nos levam a uma reflexão em busca das possíveis causas para a respostas dadas. Qual o motivo de 75% dos jornalistas da RPC compreenderem que o trabalho é ‘mais complexo’, enquanto que na Band, 43% consideram que é mais simples. Certo que a divergência de opinião dentro da Band, não é tão demarcada como no caso da RPC (75% contra 25%), mas mesmo assim, provoca inquietude no pesquisador.
Ao verificar as respostas nos instrumentos originais, usados na pesquisa, não encontramos indícios da discrepância dos resultados entre as duas equipes profissionais, mas podemos inferir que há relação com o volume de informação disponível. De um lado, denota a complexidade de identificar, organizar e selecionar o conteúdo de maior relevância. Do outro, exige esforço maior de trabalho na checagem e apuração de dados e fontes, visto a circulação de notícias não verdadeiras disseminadas pelas redes sociais e, às vezes, pelos próprios veículos de comunicação. Alguns telejornalistas preferem pensar pelo lado positivo e facilitador do ofício jornalístico, visto que existem ferramentas disponíveis que auxiliam nas tarefas, encurtam distâncias, possibilitam coberturas em lugares remotos e, agilizam todo o proces- so noticioso. Outros vão no sentido contrário.
Seja qual for o sentido escolhido pelo participante, o que não está claro, é a razão pela qual os profis- sionais da Band indicaram, em maior proporção (43%), que o trabalho é mais fácil. Da mesma forma, ainda não é possível entender porque para os da RPC (75%), o trabalho é considerado mais complexo. Pode ter a ver com a estrutura e com as facilidades tecnológicas disponíveis na RPC.
Gráfico 3. Comparação dos resultados sobre reconfiguração do trabalho na Band e na RPC.
Fonte: Rosângela Stringari.
O telejornalismo da RPC trabalha focado no factual, sempre em busca de novas maneiras de propor a informação ao telespectador. Assim, a redação trabalha permanente com a inclusão de ‘entradas ao vivo’, com links, drones, e até celulares nas produções e transmissões. As reportagens são produzidas de forma mais elaborada e com uso de inserts, destacando números e textos, eventualmente com ani- mação. Além disso, outro componente importante é a interatividade com os telespectadores. Além de aumentar o volume de material disponível para uso e checagem, também permite saber o quanto determinado assunto repercute na comunidade. Esse é mais um elemento a explicar a complexidade do ofício jornalístico contemporâneo.
Tabela 3. Como pensam os profissionais da RPC sobre a atividade telejornalística a partir da presença da internet. 1 É mais complexo, “apesar de facilitar parte da rotina de trabalho, torna mais complexo o trabalho de selecionar, depurar e qualificar a produção e dispersão de notícias;
2 É mais complexo, “competimos com um monte de gente que publica o que quer, sem cuidados e responsabilidades”;
3 É mais complexo, “temos muito mais informação circulando para checar”;
4 É mais complexo, “a quantidade de informação exige maior apuração. E é um desafio ‘competir’ com mais concorrentes;
5 É mais complexo, “complexo. Encontramos as fontes com mais facilidade, mas a elaboração do conteúdo jornalístico é mais complexa; 6 É mais simples, “mais simples. É possível apurar os fatos com mais rapidez”.
Fonte: Rosângela Stringari.
Na Band, o telejornalismo trabalha com matérias mais tradicionais, do tipo off, passagem e sonora e isso foi constatado in loco, e no monitoramento realizado durante o mês de janeiro, como outra ver- tente metodológica desta pesquisa, que aqui não está sendo apresentada. Sendo assim, o trabalho é mais rotineiro, mais controlado, mais burocrático e menos inovador. Como visto anteriormente, Sousa (2004) explica que a burocratização do jornalismo faz com que tido seja muito parecido no conteúdo e no formato, além do uso recorrente de fontes oficiais, desprestigiando outras fontes alternativas. Machado (2000) se associa à Sousa, quando argumentar sobre a importância da diversidade de vozes no telejornalismo.
Tabela 4. Como pensam os profissionais da Band sobre a atividade telejornalística a partir da presença da internet.
1 É mais complexo, “o retorno do telespectador é imediato”;
2 É mais complexo, “tudo precisa ser checado duas vezes”;
3 É mais complexo, “o volume de informação requer maior apuração”;
4 É mais complexo e mais simples, “complexo por causa das Fake News e simples na busca por matéria”;
5 É mais simples, “porém, é preciso maior curadoria dos fatos”;
6 É mais simples, “agiliza a rotina. Facilita o acesso à informação”; 7 É mais simples, “facilita o trabalho dos profissionais”;
8 Não respondeu se é mais complexo ou simples, porém justifica “Não estou apta a responder”.
Fonte: Rosângela Stringari.
É o caso do telejornalismo do 1ª. Edição, que cumpre seu papel de informar de maneira tradicional- mente, com reportagens gravadas, sem pós-produção e, apresentadores no estúdio fazendo as chamadas. Com visto, segundo Lage (2005), a reportagem é o formato mais comum utilizado no telejornalismo. Ainda que o objetivo do 1ª. Edição também seja o de cobrir o factual, é um factual gravado, o que de-
manda menos complexidade de ações dos seus profissionais. Os recursos tecnológicos disponíveis pos- sibilitam o uso de formatos e estruturas de notícia diferenciadas e com a mesma qualidade informativa. Dessa forma, uma explicação plausível para a diferença encontrada no posicionamento entre os jorna- listas da Band e da RPC pode estar relacionada com os modos de produção e apresentação do material jornalístico que um dos telejornais adota.
É preciso destacar que além das mudanças que a tecnologia trouxe aos processos jornalísticos, houve também uma reconfiguração do próprio ofício e hoje, o jornalista é um multitarefa dentro da empresa para a qual trabalha. Naturalmente, isso não quer dizer que seja pior ou mais difícil desempenhar o tra- balho, só que é diferente. O jornalista de décadas passadas escolhia uma única área para se desenvolver (impresso, rádio, televisão). Em tempos de convergência midiática, ele não tem mais essa escolha, ele é um profissional mais completo e espera-se que atue em toda e qualquer área em que o veículo precisar que ele atue. Todos os entrevistados, do gerente de jornalismo ao repórter são uníssonos em relação a essa questão: o jornalista contemporâneo é um multitarefa.
A experiência dentro das redações, no início de janeiro, possibilitou verificar, por exemplo, que a entrega dos relatórios de reportagens pelos repórteres ainda pode ser feita em papel e de forma ma- nuscrita. A maioria usa o Whats App também para essa tarefa, mas o relatório tradicional continua circulando nas redações. O conteúdo é semelhante, vem com a estrutura da matéria (off, passagem, sonoras), mas enquanto o digital pode vir também com as imagens, quem prefere entregar em pa- pel, não tem esse privilégio. Mas, fora isso, são modos diferentes que convivem no telejornalismo e que permitem que o trabalho de edição aconteça. O mesmo acontece com as pautas, elas podem ser impressas ou digitais, dependendo do momento em que seja produzida, se o repórter já estiver em movimento, na rua, nem daria para usar o modelo impresso. Nesse caso, o Whats App, se encarrega da função com perfeição.
Na RPC, o conceito de multitarefa está incorporado no fazer-jornalismo. Primeiro, porque o jornalista tem que entender e saber desenvolver todas as etapas da notícia, desde a produção até a reportagem, passando pela edição. Isso é fundamental, ele tem que estar pronto para desempenhar qualquer dessas funções. Qualquer dos profissionais da redação pode ser chamado para fazer uma entrevista, gravar um áudio para a rádio, produzir material para as redes sociais e encaminhar textos e fotos para o G1 Paraná, o portal de notícias da emissora, independentemente e de sua função original. E essa é uma grande mudança dentro das rotinas de produção a partir da internet.
Diferente do que se possa pensar, ser multitarefa pode ser uma grande oportunidade para o profissional se desenvolver em todas as áreas. E nesse sentido a televisão é muito mais democrática que antigamen- te, quando cada pessoa era responsável por uma só área. A verdade é que o jornalista contemporâneo pode trabalhar para uma só empresa, mas ele tem que estar pronto para atuar em todas as plataformas, por isso, se fala que o trabalho é mais complexo. Essa complexidade também está associada à multi- plicidade de fatos disponibilizados na internet, ou que aportam diretamente emissora. O volume de informação é imenso e o trabalho de apuração, de fatos e fontes é enorme.
CONCLUSÕES
Ao refletir sobre os dados encontrados na pesquisa, é curioso pensar que no início, toda e qualquer atividade televisiva era ao vivo. Os pioneiros da televisão tinham que decorar os textos noticiosos, os capítulos das novelas ou os comerciais. A evolução tecnológica nos trouxe tantos recursos, inclusive o teleprompter (TP), que permite a leitura de todos os textos do script de qualquer programa, e hoje, com as mudanças apontadas, o recurso está sendo menos utilizado por apresentadores.
A Band com uma equipe enxuta, ainda trabalha de maneira tradicional, com reportagens gravadas (off, passagem e sonoras), sem o uso de recursos sonoros e gráficos, mas mostra disposição em alargar espaço para o telespectador.
Na RPC, como a estrutura e os recursos são maiores, a inovação está presente em cada edição do jornal. As mudanças nas rotinas impactaram a forma de produzir e apresentar a notícia. A grande maioria das reportagens não tem nada de tradicional. A começar pela chamada que é feita pelo próprio repórter, em caso de VT, que com frequência é uma sonora. O off é feito ao vivo pelo repórter. A gestão de cada produção ao vivo é feita da redação e envolve uma série de jornalistas, inclusive a editora que vai estru- turando a matéria e auxiliando o repórter com textos e informações para o ao vivo.
A repercussão imediata é uma novidade no telejornalismo e às vezes, pode mudar o rumo da matéria enquanto o telejornal está no ar. São muitas transformações nas rotinas e o resultado é que o espelho vai mudando enquanto o telejornal está no ar.
Finalmente, a investigação comprova que a digitalização dos processos impactou as rotinas e reconfi- gurou o ofício profissional, hoje multitarefa, oportunizando ao jornalista o aprimoramento no saber contar histórias em formatos e plataformas diferentes.
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