CHAPTER 3: THE SEMANTIC STRUCTURE OF SVCS IN MANDARIN CHINESE
3.2 Representing the Semantic Structure of Mandarin SVCs
3.2.4 Aspectual SVC
O cristianismo ocidental foi e continua a ser o componente maior do pensamento europeu. Mesmo do pensamento racionalista que se constituiu contra ele, e também a partir dele. De
23 Falarei muito resumidamente, apontando em um momento ou outro, as conseqüências do Renascimento,
para em seguida me deter um pouco mais detalhadamente na Reforma.
24 Infelizmente, a complexidade do processo aponta para interpenetrações que são muito difíceis de se dar
conta satisfatoriamente, mesmo que, basicamente, se esteja seguindo e relacionando argumentos e descrições de outros autores.
um extremo ao outro da história do Ocidente, o cristianismo permanece no âmago de uma civilização que ele anima, mesmo quando se deixa levar ou deformar por ela, e engloba, mesmo quando ela se esforça por escapar-lhe. Porque pensar contra alguém é permanecer em sua órbita. Ateu, um europeu continua sendo prisioneiro de uma ética, de comportamentos psíquicos, poderosamente arraigados numa tradição cristã. (BRAUDEL, 2004, p. 309)
Mas a complexidade e especificidade do processo é maior. Uma vez que a religião – e suas versões cristãs mais modernas - foi perdendo o controle jurídico normativo e legal da esfera econômica e do Estado, tal perda possibilitou a manutenção, ou mesmo pôde favorecer, após algumas perdas de terreno ocorridas no século XVIII principalmente, a sua influência de modo seletivo e ainda mais intensificado, mesmo que em sua forma particular não fosse o resultado esperado de um projeto intencional: houve uma valorização da vida cotidiana25 e, correlativamente, da experiência religiosa particular e duradoura dos indivíduos26. Não é que, evidentemente, a maioria das pessoas e dos grupos humanos, através dos séculos, não tivesse vivido a maior parte do tempo e depositado a maior parcela de suas energias, envolvidas e implicadas nesse espaço, essa dimensão da vida. O cotidiano, suas atividades, exigências e dramas - a não ser para aqueles que possuíam ou possuem, seja por que motivo for, uma posição relativamente privilegiada, a tal ponto que os desincumba e desvincule das tarefas ligadas a manutenção da vida, cuidados com o corpo, trabalho, laços vicinais, afetos e compromissos familiares, limitações ao consumo
25 Em última instância, essa dissertação se apresenta, sob o ponto de vista da ênfase numa clientela religiosa,
como um olhar para o cotidiano e suas possibilidades de apreensão. Trata-se da dificuldade em se compreender e descrever aquele setor da vida não submetido aos mesmos critérios de normatização e hierarquização, que espaços altamente institucionalizados, especializados e possuidores de fronteiras mais rigorosamente definidas possuem - sejam pela própria configuração de uma orientação prático-discursiva intencionalmente controlada, seja pelo exercício constante e produção de efeitos legitimadores e consagradores da própria esfera e competência frente a outras, ou frente a pretensos ou reais competidores. “As práticas cotidianas estão na dependência de um grande conjunto, difícil de delimitar e que, a título provisório, pode ser designado como o dos procedimentos. São esquemas de operações e manipulações técnicas.” (CERTEAU, 2003, p. 109) Ao contrário, a noção de estratégias estaria ligada à existência de espaços sedimentados, institucionalizados: “As estratégias são portanto ações que, graças ao postulado de um lugar de poder (a propriedade de um próprio), elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem.” (CERTEAU, 2003, p. 100)
26 Nesse sentido, o compromisso com alguns aspectos do pensamento weberiano e sua sociologia da religião
serão patentes. Da mesma forma, espero tornar ainda mais explícita a importância que tal sociologia adquire quando se tenta apreender aspectos centrais do pensamento de Weber. Por fim, penso que a religião seja um, e apenas um componente, ainda que fundamental, na conformação desse longo e complexoprocesso. Como não poderei aqui deter-me em outros de igual relevância, elejo aqui o fenômeno religioso pela ocasião de sua tripla importância: por um lado, é claro, trata-se de parcela fundamental do meu trabalho atual, por outro, como já apontei, eleé parte importantíssima da obra de Max Weber, obra essa que, de um modo geral, vem e inspirando e influenciando bastante, sobretudo, durante e após o trabalho de conclusão de curso realizado na graduação. Por fim, como já indiquei, essa discussão é parte fundamental do debate sociológico originário, sendo praticamente impossível se avançar na compreensão da disciplina, bem como sobre a problemática do sentido, sem se enfrentar esse tópico.
etc. – sempre teria sido e continua sendo um lugar privilegiado com relação a incorporação das disposições, investimentos, ocupações e modelações humanas. Todavia, o inovador nesse processo, e em ralação ao qual Taylor chama a atenção, é justamente o fato desse lugar, desse momento, ter começado e passado a adquirir cada vez mais oficialmente, não só o status de central, mas também, o de mais importante numa cadeia hierárquica de valorações e atribuições. Sendo assim, parece interessante voltar-se para essa dimensão da vida, visando os processos que a redefinem e fornecem maior visibilidade, localizando-a como forma privilegiada de se compreender a construção e imposição da idéia de um modo de vida moderno. Assim, inicialmente entenderei, em parte, vida cotidiana, segundo Taylor27, como sendo:
[...] um terno técnico [...] para designar os aspectos da vida humana referentes à produção e reprodução, isto é, ao trabalho, à fabricação das coisas necessárias à vida e à nossa
existência como seres sexuais, (grifo nosso) incluindo casamento e família [...] [Isso] basicamente [engloba] o que precisamos fazer para manter e renovar a vida (TAYLOR, 1994, p. 274)
Argumenta o autor, tanto na Grécia antiga, como no Renascimento, ou entre castas guerreiras, era a disposição para o risco o que era entendido enquanto bem superior. Para os pensadores do Renascimento, a vida do simples chefe de família era considerada inferior àquela que envolvia o homem numa participação ativa enquanto cidadão. “De certa forma, a ética do cidadão era análoga, e às vezes podia até se fundir parcialmente à ética aristocrática da honra, cujas origens se encontravam na vida das castas guerreiras.” (TAYLOR, 1994, p. 275) A virtu do Renascimento é uma espécie de energia, de poder pessoal do homem, sua afirmação diante do mundo. Todavia, embora restrito – diferentemente ao que aconteceu na Reforma - a uma espécie de “aristocracia” política e intelectual, o movimento do renascimento prestou uma contribuição fundamental à configuração de um ideal de civilização, ao dirigir o foco para o problema das liberdades
27 Todavia, acredito ser indispensável a essa definição – e é aí, basicamente, que reside o argumento desse
trabalho - se acrescentar as práticas ligadas à aquisição e consumo de objetos. “Uma sociedade seria composta de certas práticas exorbitadas, organizadoras de suas instituições normativas, e de outras práticas, sem número, que ficaram como ‘menores’, sempre no entanto presentes, embora não organizadoras de um
discurso e conservando as primícias ou restos de hipóteses (institucionais, científicas), diferentes para estas sociedades ou para outras. É nesta múltipla e silenciosa ‘reserva’ de procedimentos que as práticas
‘consumidoras’ deveriam ser procuradas [...]” (grifo nosso) (DE CERTEAU, 2003, p. 115) Também: “Essas técnicas, também operatórias, mas inicialmente privadas daquilo que fez a força das outras, são as ‘táticas’ a cujo respeito já esbocei a hipótese que forneciam um sinal formal às práticas ordinárias de consumo. (grifo nosso)” (CERTEAU, 2003, p. 117)
individuais, sobretudo a liberdade de ajuizamento, de avaliação do mundo através de uma postura que também passou a chamar de ruptura do sujeito pensante com relação ao mundo dos objetos.
Por outro lado, sob o impacto da revolução científica, a prática contemplativa passou a ser cada vez mais associada a uma postura presunçosa, e inútil em seus resultados. A ciência deveria ser útil, precisaria servir a humanidade, portanto, precisava ser capaz de intervir produtivamente na vida cotidiana dos homens. Precisava contribuir positivamente para o bem viver. A vida não poderia se submeter à ciência, mas tinha que ocorrer o contrário. Também aí, um ataque ao dever ser ideal e passivo do saber contemplativo, a fim de se buscar ver as coisas como “realmente são”.
Portanto, duas características importantes se evidenciam aqui. Primeiramente, uma contribuição para um certo nivelamento, já que o bem viver deixa de ser algo restrito a virtuosos ou, melhor dizendo, aos que podem se dar ao luxo do ócio. Por outro lado, é importante mencionar que a:
[...] afirmação da vida cotidiana é outra característica básica da identidade moderna e não apenas em sua forma ‘burguesa’: as principais correntes de pensamento revolucionário também exaltaram o homem como produtor, um ser que encontra sua mais elevada
dignidade no trabalho e na formação da natureza a serviço da vida. A teoria marxista é a
mais bem conhecida, mas não a única. (grifos nossos) (TAYLOR, 1994, p. 275)
Resumidamente, uma ética fundada na honra, na glória, ou na exaltação de valores ligados a uma vida contemplativa, foi deslocada e substituída por outra em que a produção e o bem viver se constituem enquanto metas primordiais. Segundo Taylor, a afirmação da vida cotidiana possui sua origem na espiritualidade judeu-cristã. A Reforma teria nesse sentido desempenhado um papel fundamental de impulsionadora da mudança, na medida em que realizou uma recusa das formas de mediação. Após a Reforma, e cada vez mais, não pôde se manter entre os reformados a idéia de mais ou menos devotado. O envolvimento e a aspiração à cristandade tinham que ser totais e pessoais. Era inaceitável a idéia do “meio cristão”, “católico não praticante”, ou coisas do gênero.
II.4.2 – Democratização dos bens de salvação: ocaso das mediações e individualismo: