Tendo por pressuposto que a metáfora é uma categoria emergente distribuída na relação entre os seres humanos e as diversas ferramentas cognitivas e, ao ser internalizada, funciona como estrutura organizadora do pensamento humano, esperamos avançar, a um só passo, na desconstrução da metáfora conceitual, conforme proposta por Lakoff e Johnson (1985), e da intersubjetividade psicologista da metáfora emergente em Cameron e Larsen- Freeman (2007) e Cameron e Deignam (2009).
Para tanto, propomos a categoria de “metáforas emergentes distribuídas”, as quais implicam, de forma específica, que: a) o pensamento humano se organiza metaforicamente e é determinado externamente pela transformação da necessidade real em necessidade pensada (PÊCHEUX, 2009); b) as marcas de metalinguagem “X é ...” (ORLANDI, 2009) funcionam como sistemas de restrição discursivos/semânticos não-biunívocos que tornam os indivíduos competentes para produzir e interpretar inúmeros enunciados dentro de uma mesma formação discursiva em situação reais de interação (MAINGUENEAU, 2007); c) a internalização das marcas de metalinguagem (ORLANDI, 2009) decorre da interação dos sujeitos entre si e destes com o ambiente (AUROUX, 1998), possibilitada pelo funcionamento de um “processo geral de linguagem” (PÊCHEUX; GADET 2011a) que internaliza o pensamento como necessidade determinada por estruturas discursivas externas aos sujeitos (PÊCHEUX, 2009); e d) a interação entre os sujeitos em uma dada prática discursiva (FOUCAULT, 2008; MAINGUENEAU, 2007; PÊCHEUX, 2009) ocorre por meio dos usos de distintas ferramentas cognitivo-discursivas (AUROUX, 1998; PAVEAU, 2006) e pela produção de metáforas emergentes (CAMERON e LARSEN-FREEMAN, 2007; CAMERON e DEIGNAM, 2009) materializadas na/pela linguagem como formas linguístico-discursivas ideológicas (HALL, 2003; ORLANDI, 2009; PÊCHEUX, 2009) que se (re)atualizam e (re)estabilizam na/pela memória discursiva (COURTINE, 1981; PÊCHEUX, 2010c). Isso significa que as “metáforas emergentes distribuídas” se caracterizam por serem:
(I) Sociais/históricas: emergem na/pela modulação entre sujeito e sociedade em uma dada experiência/prática discursiva, a qual se dá necessariamente pelos usos de sistemas de restrição discursivos que funcionam como a priori históricos;
(II) Indeterminadas/Inatingíveis/Irredutíveis: elas não existem como coisas em si, uma essência que possa ser dominada por completo e hermeticamente organizada como um sistema destacado da história, mas como formas representáveis como sistemas dinâmicos não-lineares;
(III) Representáveis/internalizáveis: são relativamente apreensíveis, pois se pautam pela pobreza e simplicidade de formas linguístico-discursivas que estão em relação com outros signos em um dado grupo ou sociedade. São determinadas pelo exterior histórico e funcionam como memória discursiva capaz de atualizar, consciente e/ou inconscientemente, “já-ditos” na forma de “agora-ditos” emergentes em uma dada prática discursiva;
(IV) Semi-estáveis: submetidas às inúmeras variações do sistema cultural do qual emergem, funcionando como estados semi-estáveis autolimitados pela relação entre paráfrase e polissemia e que, ao se alterarem, desencadeiam a reorganização do conjunto da própria competência dos sujeitos.
(V) Contraditórias: irrompem como estruturas em dominância divididas em decorrência do constante movimento interno que lhe é constitutivo, de modo que surgem como singularidades contingentes organizadas como “diferente no mesmo” e como “unidade na diferença”;
(VI) Discursivamente experenciáveis: são sensíveis na medida em que funcionam como sistemas de restrição dos discursos e emergem em uma dada experiência discursiva imaginada como real. A experiência não funciona como um a priori ao discurso, mas surge da dupla articulação entre estrutura e prática, na qual os discursos são indeterminados, internalizáveis e representáveis, passando a funcionar como competências cognitivo-discursivas na forma de a priori históricos que possibilitam pensar/agir na/pela linguagem;
(VII) Intersubjetivas: cada experiência discursiva possibilita a emergência de uma dada posição-sujeito em relação ao coenunciador, a qual é modulada de acordo com a interação entre os sistemas de restrição discursivos internalizados (memória cognitivo-discursiva) e o acontecimento histórico em uma dada condição de produção discursiva.
(VIII) RSI: são reais na medida em que são materialidades simbólicas produzidas na concretude das relações históricas contraditórias humanas, as quais possibilitam a emergência de formações imaginárias. Dessa relação, constitui-se sua natureza ideológica, na qual os sentidos emergem de acordo com as relações práticas que estabelecem com os imaginários dos grupos sociais;
(IX) Distribuídas: externalizadas em distintos lugares de memória, com os quais estão em constante inter-relação e interdependência, tais como a memória dos sujeitos, das instituições e dos diferentes artefatos humanos;
(X) Tipológicas: estruturais, pela relação constitutiva do atravessamento do outro, isto é, ocorre quando um termo X adquire o sentido de um termo Y; ontológicas, pela forma como atribuem aos signos um sentido supostamente transcendente que os torna substâncias discretas, descritas e com características humanas. Neste caso, há uma tendência a se apresentarem como metalinguagem e se vincularem aos discursos constituintes, emergindo como produto e apagando-se como processo; de orientação, pelo modo como atribuem axiologias socialmente positivas ou negativas aos signos a depender dos seus atrelamentos aos sentidos dominantes em uma dada sociedade ou grupo.
Para finalizar, a capacidade de generalização das metáforas decorre da singularidade autonímica da linguagem, através da qual os signos podem se constituir como representantes de si mesmos. Elas são representáveis pelos usos de determinadas formas, as quais trazem consigo uma relativa transparência da sua historicidade, ecoando, contudo, necessariamente não-ditos quando faladas. Essa relativa autonomia entre simbólico e imaginário garante (I) a possibilidade de formalização (contingente) da linguagem; (II) a não-fixidez das formas em relação aos sentidos, impedindo a emergência do sentido último de uma dada estrutura; (III) sua circulação relativamente autônoma entre distintos discursos, de modo que as formas
simbólicas podem ser atravessadas por distintos imaginários. Nos termos da AD, uma mesma formação ideológica pode se realizar através de distintas formações discursivas, possibilitando a emergência dos “já-ditos” como “agora-ditos”, sendo impossibilitada, em qualquer caso, a relação biunívoca entre língua e história.