A Escola de Genebra trata as representações sociais de uma perspectiva não consensual, mas, sobretudo, como princípios geradores de variações entre tomadas de posição de indivíduos. Esses princípios estão ligados a inserções específicas de um conjunto de relações sociais e organizam os processos simbólicos que intervêm nessas relações (Doise, 1985; Doise, Clemence & Lorenzi-Cioldi, 1992).
Assim, o estudo não enfoca propriamente estruturas representacionais objetivadas de um grupo, em vez disso, dá ênfase aos pontos de referências que orientam o debate
80 social, permitindo o posicionamento de grupos e indivíduos em diversas localidades desse espaço de conhecimento.
Segundo a perspectiva societal, são esses princípios organizadores, esses pontos de referência que esboçam as condições e os termos de discussão e elaboração do pensamento sobre um dado objeto social, que são compartilhados.
Nessa perspectiva, Doise (1990; 2003) define as representações sociais como princípios organizadores dos processos simbólicos que são derivados dos posicionamentos específicos dos indivíduos nas relações sociais. Conforme Doise (1990), os princípios organizadores são análogos aos princípios de dicotomia, adaptação, assimilação e sincronia que intervêm na dinâmica da propaganda, da propagação e da difusão (Moscovici, 1978).
Doise, Clémence e Lorenzi-Cioldi (1992) propuseram um quadro teórico metodológico, denominado modelo da análise quantitativa das representações sociais, que avalia três aspectos das representações: a organização do campo representacional; os princípios organizadores das diferenças individuais e a ancoragem social dos princípios organizadores.
A organização do campo representacional estuda os elementos compartilhados das teorias de senso comum, pressupondo a existência de uma percepção compartilhada sobre um objeto social que pode ser derivada de uma definição institucionalizada desse objeto (Doise & Herrera, 1994).
Os princípios organizadores baseiam-se na variabilidade das representações e analisam as dimensões subjacentes aos diferentes posicionamentos dos indivíduos na estrutura do campo representacional. Esses princípios organizadores esboçam as condições e os termos de discussão e elaboração do pensamento sobre dado objeto social, compartilhado, permitindo um estudo da ancoragem, por delimitarem as diferenças de pessoas e categorias sociais com características e estatutos distintos no que diz respeito às suas concepções partilhadas sobre objetos sociais (Doise, 2002).
O quadro teórico metodológico proposto pela Escola de Genebra para o estudo quantitativo das representações considera como primeira hipótese a diferença entre os membros de uma população que partilham efetivamente certas crenças comuns referentes a uma dada relação social (Doise, 2002).
81 A segunda hipótese refere-se à natureza das tomadas de posições individuais em relação a um campo das representações sociais, de tal forma que, para Doise (2002), as representações sociais devem explicar como e por que os indivíduos se diferenciam entre si, nas relações que eles mantêm com essas representações. Em outras palavras, nesse nível, as representações sociais não podem se limitar a um conjunto de crenças e opiniões; devem na realidade, identificar como se apresentam os princípios organizadores.
A terceira e última hipótese diz respeito à ancoragem, à tomada de posições em outras realidades simbólicas coletivas, como as percepções, os valores e as experiências, refletindo as diferentes posições sociais (Campos, 2005).
A ancoragem das tomadas de posições (Doise, 2002; Spini & Doise, 1998) destaca ainda três níveis de análise: o psicológico, o sociológico e o psicossociológico. O psicológico refere-se ao posicionamento individual nas atitudes e valores dos indivíduos, remetendo a uma perspectiva de compreensão para os processos intraindividuais básicos.
O nível sociológico estuda a influência da pertença dos indivíduos a grupos sociais, cuja hipótese consiste na afirmativa de que as experiências comuns aos membros de um mesmo grupo, decorrentes de uma mesma inserção, suscitam representações semelhantes (Vala & Monteiro, 2006) remetendo à articulação das relações sociais intergrupais.
O nível psicossociológico analisa como os indivíduos situam-se em relação às relações sociais e às diversas posições e categorias de um dado grupo (ou campo) social (Doise, 2002). Como conceito carrefour, equivale dizer que os sujeitos, ou sujeito representante deste grupo, (nível psicológico), se encontram com o social (nível sociológico), estando, portanto, na fronteira entre o indivíduo e a sociedade (Campos, 2005).
Assim, segundo Doise (2002), em uma perspectiva geral como essa, há a necessidade de recorrer a diferentes níveis de análise: o estudo dos processos intraindividuais; a análise que descreve os processos interindividuais e situacionais; o nível que considera e observa as diferentes posições que os atores sociais ocupam no tecido das relações e o que analisa os sistemas de crenças, representações, avaliações e normas sociais. De acordo com Doise (2002), essa distinção não deve servir apenas a
82 objetivos classificatórios, mas, sobretudo, para facilitar a realização de articulações de análises, numa perspectiva dialética. Trata-se de
Um dos objetivos dos trabalhos realizados em Genebra sobre influência social, intergrupo e desenvolvimento social da inteligência foi sempre o de articular explicações de ordem individual com explicações de ordem societal; de mostrar como o indivíduo dispõe de processos que lhe permite funcionar em sociedade e, de maneira complementar, como dinâmicas sociais, particularmente interacionais, posicionais ou de valores e de crenças gerais, orientam o funcionamento desses processos (Doise. 2002. p. 28).
Nessa perspectiva, a teoria das representações sociais desenvolvida por Serge Moscovici compreende um campo ilimitado de estudo, cuja dimensão fundamental se situa entre o indivíduo e a sociedade, mediados pelas relações interpessoais, grupais e intergrupais (Campos, 2005). De fato, para Campos (2005), o que marca uma representação social é mais o seu enunciado do que propriamente a representação em si, o que remete invariavelmente ao contexto das práticas comunicativas, ou situações potencialmente comunicativas (Ghiglione, 1984), validando a ideia que também as relações entre os grupos (categorias sociais) são marcadas por enunciados comunicacionais, sob a forma de representações sociais.
Retomando a indagação de quais são as representações sociais do indígena na mídia e levando em consideração que as representações sociais desse grupo étnico, na atualidade, não são simplesmente (re)combinações de conteúdos arcaicos. Sobretudo, resultam de forças dos grupos dominantes, o que parece colocar a comunicação como agente na constituição, preservação, transmissão e transformação desses conteúdos (Jedlowski e Rosito, 2005), que é coletivo, compreendido como partilhado por todos e que, pela ação comunicacional, passa a ser comum, no sentido de senso comum.
Dito de outra forma: a mídia e os seus gêneros (televisão, rádio, jornal etc.), produzem materiais mediante os quais o passado é representado. Assim, a comunicação constrói memória. Ao mesmo tempo em que constrói, reconstrói, e, ao (re)construir, define no campo social os temas de lembrança e de esquecimento, o que com o advento da modernidade, tornou-se cada vez mais mediada, transferindo em grande parte para a mídia esse papel.
83 Portanto, se a mídia, compreendida como processos comunicacionais, define a pauta (agenda setting), por consequência também define o que será validado. As situações potencialmente comunicativas são tratadas como contratos de comunicação, o que explica a relevância da memória para definir o passado, os objetivos dos povos e a identidade e também, o interesse de atores políticos em controlar a mídia. Quem controla a mídia (ou o seu conteúdo) tem uma posição privilegiada para assumir o poder.
Partindo do pressuposto de que a mídia, dentre outros aspectos, define a identidade dos grupos, leva à afirmação segundo a qual as situações potencialmente comunicativas geradas pelo jornal Folha de S. Paulo e validadas a priori como contratos de comunicação gera uma representação aos indígenas (no caso da RIRSS), provocando uma diferenciação que se traduz em uma avaliação positiva do endogrupo em relação ao exogrupo.
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