Visando o estímulo à aprendizagem pela experiência de vida dos próprios participantes, o processo de desenvolvimento de líderes do CPL é baseado em:
a) leituras;
b) atividades semanais, divididas em dois grupos: um grupo maior e outro menor;
c) desenvolvimento de relatórios pelos participantes, como instrumento de autorreflexão pela escrita.
As leituras servem para a aquisição de fundamentos para a atuação do líder na organização. A bibliografia recomendada inclui obras de filosofia ocidental e oriental, história, sociologia, gestão, psicologia organizacional e de grupo. São indicadas também obras artísticas, como filmes, poemas e romances, com a finalidade de representação dos principais aspectos envolvidos com a atuação do líder (HEIFETZ; SINDER, 1991).
O processo formativo é desenvolvido em dois tipos de grupos de pessoas: os grupos grandes, compostos pelo total de participantes, com um número entre 80 e 130 participantes; e grupos pequenos, também chamados de grupos seminais, compostos entre oito e 11 participantes.
A ideia de fundo, no uso dos diferentes grupos, é permitir que os participantes, pouco a pouco, percebam que as experiências vividas nos encontros, em cada um dos grupos, representam, de certa forma, as que eles vivem nas suas organizações. Estimula-se, desse modo, um processo reflexivo sobre os conceitos preestabelecidos dos participantes, confrontando-se as novas experiências com as já vividas no passado (HEIFETZ; SINDER, 1991).
Após uma introdução do instrutor e seus assistentes e a apresentação de uma linguagem comum a ser adotada, as atividades tanto nos grupos maiores, quanto nos menores, não são limitadas à relação educador-educando. Busca-se, no programa, continuamente a participação e o compartilhamento de experiências dos participantes, assim como o cumprimento de tarefas específicas e a realização de grupos de discussão sobre determinados assuntos (HEIFETZ; SINDER, 1991; PARKS, 2005). Nesse sentido, o que acontece durante a reunião dos grupos é a própria matéria utilizada para a aprendizagem e para a prática da atuação do líder. A classe é considerada como um sistema social, constituído por diversos grupos de pensamento e conduzido por forças múltiplas (PARKS, 2005).
As atividades do grupo menor são pautadas na testagem das ideias do curso, a partir da resolução de casos da prática profissional dos participantes. Cada semana é dedicada a um caso, e os participantes se revezam entre três papéis: a) presidente da discussão; b) relator do caso; c) membros consultivos. Ao final do curso, todos os participantes do grupo menor terão se revezado nesses papéis. É tarefa do grupo prestar consultoria ao relator do caso, oferecendo opções de diagnóstico e de intervenção, como alternativas às que foram aplicadas no caso e deram errado (HEIFETZ; SINDER, 1991).
As atividades semanais do grupo maior são divididas por temas e não adotam, desse modo, um formato de sala de aula. Por essa característica, geralmente há uma tensão inicial por parte dos participantes, que esperam ser conduzidos pelos professores. A explicitação dessa expectativa frustrada serve para levar os participantes a questionar a crença de que o líder é aquele que provê as respostas, servindo de caso para o estudo em grupo. Os instrutores, assim, mais questionam os alunos do que dão respostas, conduzindo-os ao processo reflexivo esperado, para que, em grupo, o conhecimento seja construído pelos participantes, a partir das experiências de vida de cada um (PARKS, 2005).
O instrutor, ao invés de transmitir o conteúdo planejado aos participantes, permanece atento às atividades do grupo, para assim identificar o momento mais adequado para introduzir o assunto e estimular o processo reflexivo. Esse momento está condicionado à explicitação da questão pelo grupo. Desse modo, o instrutor se questiona continuamente: “existe algum modo de utilizar o que está acontecendo com o grupo aqui e agora para ilustrar o conteúdo que eu quero que todos aprendam hoje?” (PARKS, 2005, p. 148).
Durante os encontros do grupo maior, são adotadas também estratégias como: exercícios experienciais, a assistência a filmes e também o uso da música. Heifetz e Sinder (1991) e Parks (2005) destacam que um dos trabalhos mais provocativos à mudança nos participantes é o exercício com a música. Os participantes são desafiados a trazer um poema ou texto em prosa (podendo ser composição própria ou não) para declamar em público. Durante a atividade, o facilitador pede, então, que o participante produza uma música do texto, sem o uso de palavras, e a represente para os demais participantes. Essa atividade faz com que os participantes lidem com o improviso e se preparem para superar o medo, quando estiverem diante de um problema que pede inspiração para se encontrar a melhor
resposta, e ainda ilustra as funções do líder de reduzir o desequilíbrio em situações de crise.
As atividades do grupo maior envolvem também os seminários de arguição, onde são reunidos os instrutores, os relatores de caso e os presidentes da discussão dos grupos menores, além dos participantes em geral. Nesse ato, permite-se então aos participantes do grupo maior analisar os sucessos e as falhas identificadas nos grupos de discussão menores, revisando os conceitos obtidos no curso e possibilitando-lhes acompanhar a intervenção do instrutor nos casos e nos grupos (HEIFETZ; SINDER, 1991).
O programa adota, ainda, um sistema de desenvolvimento de relatórios semanais como forma de autorreflexão pela escrita. Nesse relatório, cada participante analisa as dinâmicas do processo de trabalho de resolução de casos. O relatório pode adotar três formas: uma, focada na observação das habilidades discutidas; uma segunda, focada nos processos de trabalho e nos papéis dos participantes; e uma terceira, focada no diagnóstico para a intervenção. Ao final do curso, os participantes desenvolvem também um relatório final, de 20 a 25 páginas, que permite que eles discutam um problema envolvendo liderança, e reavaliem suas causas, falhas e opções de solução (HEIFETZ; SINDER, 1991).
Quadro 3 - Processo de desenvolvimento de líderes do CPL
Leituras Obras científicas e artísticas – fornecimento de base teórica, assim como de exemplos das atividades desenvolvidas pelo líder. Grupo
maior
Reunião de todos os participantes, sem um caráter de sala de aula. Organizadas por temáticas, nessas reuniões semanais são realizados exercícios experienciais, assistência a filmes, atividades com música, assim como os seminários de arguição.
Grupo
menor Divisão do trabalho entre um presidente, um relator e o grupo de consultores, com um revezamento semanal entre esses papéis. O relator apresenta um caso de sua experiência prática, que será discutido e analisado pelo grupo, propondo-se possíveis soluções. Relatórios Dividido em:
- relatórios semanais, que podem focar nas habilidades discutidas; nos processos de trabalho e nos papéis dos participantes; ou ainda no diagnóstico para a intervenção;
- relatório final, onde o participante apresenta um caso próprio e o discute e avalia com base nos conhecimentos obtidos durante o curso.
Desse modo, percebe-se que o programa do CPL promove a aprendizagem em seus participantes, através da criação de um ambiente que permita a eles refletir sobre o significado do liderar a partir das suas próprias experiências de vida e das dos demais participantes, confrontando-as com o conteúdo ministrado e também com as experiências vividas durante o programa. Busca-se, dessa forma, a promoção de uma visão sistêmica nos participantes, assim como o reconhecimento da constante necessidade de trabalho adaptativo para se liderar em um contexto de incertezas. As atividades desenvolvidas no processo formativo são consolidadas no quadro 3.
Nesse sentido, o processo de desenvolvimento de líderes proposto pelo autor é congruente com a sua visão de liderança, pois busca desenvolver o trabalho adaptativo e a capacidade de tomada de decisão que implique nas mudanças necessárias para que o grupo ao qual o líder se encontra vinculado possa corresponder aos desafios apresentados pela realidade (HEIFETZ, 1998; HEIFETZ; LAURIE, 2001; HEIFETZ; GRASHOW; LINSKY, 2009; PARKS, 2005).