3.1 Materials and Reagents
3.1.2 Supplementations and serum enrichment of basal medium
Apesar de a jornalista Suzana Tatagiba (2010) afirmar que o jornal O Diário surgiu com a proposta de ser uma terceira via, independente, desvinculado de grupos políticos, conforme descrito no início desse capítulo, ao consultar outros autores verificamos que a história da referida publicação manteve estreita ligação com a trajetória de políticos de relevância no Espírito Santo.
Já foi mencionado que tanto o jornal A Tribuna quanto A Gazeta possuíam estreitas relações com grupos políticos. Com O Diário não foi diferente. Pedro Maia (1998) nos conta que em 1956 o jornal O Diário havia sido comprado pelo empresário Mário Tamboridégui, da cidade de Campos, no Rio de Janeiro, e repassado, em seguida, ao amigo e governador do Espírito Santo, Francisco Lacerda de Aguiar, popularmente apelidado de Chiquinho. Este, por sua vez, nesse momento da aquisição, passou a atuar e ser reconhecido como o grande porta-voz e responsável pela direção e comando do jornal O Diário. Sob sua gestão, muitas matérias foram produzidas para favorecer os seus interesses políticos e atacar deliberadamente seus adversários, sobretudo, Carlos Lindemberg, proprietário do jornal A Gazeta.
Figura 18 – Edições do jornal A Gazeta dos dias 16/08/1968 e 14/12/1969.
Fonte: Lindenberg Neto (2008, p. 114-115).
Consideramos válido oportunizar uma breve contextualização acerca da trajetória de Francisco Lacerda de Aguiar antes de adentrar nas tramas e nos enredamentos políticos que envolvem o jornal O Diário. Segundo Fonseca (2009), Chiquinho tornou-se conhecido pelos capixabas por ser uma figura bonachona e simpática. Buscava aparentar uma despreocupação natural, contrária aos entraves burocráticos e se mostrando muito acessível à população mais carente. Foi governador do Espírito Santo em duas ocasiões: em 1954 e em 1963, pela Coligação Democrática, uma frente de partidos composta basicamente pela União Democrática Nacional (UDN) e pelo Partido Republicano Progressista (PRP).
Um dos entrevistados, que teve um relacionamento profissional muito estreito com Chiquinho, tanto no jornal O Diário como nos governos, define o político como um sujeito “[...] bonachão, não gostava de pompa, de excelente formação e educação. Não era de perseguir ninguém. [...]”. A seguir relata algumas das máximas de suas práticas políticas: “Candidato político que fizer comício que não tiver criança e bêbado está derrotado. Criança transmite o que ouve dentro de casa. Já o bêbado é o gozador, o povão em última escala”. 20
Esse mesmo jornalista nos revelou que Chiquinho de Aguiar além de tomar café diariamente em um bar bem popular próximo ao Palácio Anchieta, ladeado pelos frequentadores habituais do estabelecimento, tinha o hábito de carregar no porta-malas do seu carro muitas balas para serem distribuídas às crianças. Apesar de o entrevistado classificar esse comportamento de Chiquinho como um traço de um homem simples, nós, no papel de pesquisadores, decidimos, por cautela, colocar em suspeição essas considerações pessoais sobre o político, por acreditarmos que essas práticas poderiam ter sim motivações claramente eleitoreiras.
O maior inimigo político de Chiquinho era, de fato, Carlos Lindenberg, do PSD, que comandava o jornal A Gazeta. De acordo com Fonseca (2009), em período de campanha política era recorrente nas páginas de A Gazeta a promoção de ataques a Chiquinho, e vice-versa.
A fim de ilustrar quão partidário foi o jornal O Diário e carregado em tintas pró- Chiquinho, encontramos Calixte:
Entre 1955 e 1958, o jornal foi usado para torpedear Carlos Lindenberg, Jones Santos Neves e todo mundo que não fosse Chiquinho. [...] As manchetes eram agressivas, do tipo „Políticos querem lotear o ES‟, „Oligarquias do PSD...‟, Oligarquia de Carlos Lindemberg...‟, „Aos ricos querem dominar o pequeno Estado do ES” (1998, p. 17).
Ao algoz político Carlos Lindenberg, a redação do Diário criou alguns apelidos de caráter pejorativo.
Aí nasceram os apelidos de “chapéu preto”. Depois, veio o segundo apelido, o de “papa-terra”. Pelo fato de ser proprietário de terras ao norte do Estado, dizia-se que ele as tinha roubado quando era governador. Essa acusação, entretanto, nunca ficou provada, até porque ele tinha documentação que chegou a publicar nA Gazeta (CALIXTE, 1998, p. 18).
O jornalista Pedro Maia nos apresenta mais um artifício deveras amador e pueril utilizado pela equipe do Diário para atingir o jornal A Gazeta e, principalmente, desqualificar a figura de Carlos Lindenberg diante dos leitores.
No Diário era proibido escrever o nome de Carlos Lindenberg em letra maiúscula, só em letra minúscula. A gente esquecia, porque afinal de contas desde o útero se sabe que nome próprio se grafa em letra maiúscula. Daí chegava alguém e repreendia: “Já não falei que é em letra minúscula?” (1998, p. 66).
Uma curiosidade que exemplifica a estremecida e antagônica relação entre os jornais O
Diário e A Gazeta pode ser visualizada na forma como esse último referia-se a
Francisco Lacerda de Aguiar: “[...] Mesmo com Chiquinho no Governo, A Gazeta evitava ao máximo citar seu nome. Quando não tinha outro jeito, dizia “o governador do Estado” e só. Em raríssimas vezes citava “o Sr. Lacerda de Aguiar‟” (CALIXTE, 1998, p. 18).
A contenda era tão frequente que, segundo Paulo Maia, quando Carlos Lindenberg sucedeu Chiquinho como governador do Espírito Santo, os jornalistas do Diário foram orientados pela redação no sentido de torpedeá-lo sem trégua. A situação tornara-se tão insustentável que em dada situação Lindenberg ordenou a invasão e destruição do jornal que tanto o atacava. “Só que alguém lá de dentro do Palácio, que não devia ser do PSD, ligou para O DIÁRIO e avisou que os jagunços estavam a caminho” (MAIA, 1998, p. 67).
Maia comenta que era comum, nessa época, os jornalistas andarem armados. Assim que souberam que seriam enfrentados, ficaram de tocaia à espera dos capangas do governador. E, realmente, logo depois, apareceram dois carros, que pararam em frente ao jornal.
Tinha uns caras de chapéu, um esquemão mesmo. Aí os caras pararam, um deles meteu o braço pra fora pra abrir a porta, e alguém da redação gritou: “Não desce que morre”. Até hoje não sei quem gritou. Só sei que os carros desceram aquele morro numa velocidade que quase bateram num bonde lá embaixo (MAIA, 1998, p. 68)
Essa rivalidade exposta e pública entre Chiquinho de Aguiar e Carlos Lindenberg põe por terra o depoimento de um dos entrevistados, conforme já mencionado anteriormente, que atribuía ao proprietário do jornal O Diário um comportamento altamente civilizado: “[...] podia ser o pior inimigo que ele não perseguia ninguém”.
Refletir a fundo, contemplando o momento político e histórico, sobre as fontes bibliográficas e os depoimentos dos entrevistados leva-nos a concluir que havia uma orientação clara de Chiquinho a também torpedear e a buscar tornar vulnerável o seu rival, Carlos Lindenberg.
Em 1963, quando Chiquinho de Aguiar retomou o poder e assumiu o segundo mandato como governador, havia uma grande expectativa de crescimento e benefícios para o Espírito Santo, basicamente motivado pelo alinhamento político com o presidente João Goulart.
Calixte (1998) nos traz um dado curioso e extremamente relevante ao se referir a esse momento político. Paralelamente à expectativa de maior atenção federal ao Espírito Santo por conta do alinhamento ideológico entre governador e presidente, esperava-se também que o jornal O Diário se beneficiasse, por meio de recebimento de anúncios oficiais, além do consequente respaldo e apoio político que se vislumbrava. Segundo ele, nada disso se concretizou de fato. A inabilidade e o desinteresse de Chiquinho para gerir o seu próprio veículo de comunicação impedia um maior crescimento e participação no mercado capixaba.
Mais uma vez O DIÁRIO sonhou, porque Jango era muito amigo de Chiquinho. Mas nada aconteceu. Pelo contrário: piorou. Chiquinho não dava importância aO DIÁRIO porque não entendia daquilo. [...] Os outros diretores e acionistas não se interessavam pela empresa. O jornal tinha dinheiro porque o prestígio do Governo fazia entrar anúncio no jornal. Os diretores se contentavam em ter esse dinheiro provisório. Sonhamos que Brizola viria com uma mala cheia de dinheiro, mas isso nunca aconteceu (CALIXTE, 1998, p. 21).
Logo após a posse, Chiquinho sofreu grande oposição de vários focos: empresários, que pleiteavam o imediato desenvolvimento da economia capixaba; o setor público, que reivindicava a quitação dos salários; bem como das esquerdas, que, devido ao alinhamento político ao Governo Federal, exigia medidas similares às Reformas de Base, implantadas por João Goulart (FONSECA, 2009).
Em abril de 1964, os militares tomam o poder e depõem o presidente João Goulart. Obviamente, era questão de espera até que os reflexos da mudança atingissem o Espírito Santo, então governado por Francisco Lacerda de Aguiar.
Não obstante ter sido reconhecido com um declarado aliado de Jango, e apesar da tomada do poder federal pelos militares, Chiquinho de Aguiar ainda conseguiu, no primeiro momento, exercer o seu mandato sem maiores sobressaltos. Fonseca classifica a queda do governador como um processo gradual. “[...] a interceptação do governo estadual não foi imediata ao golpe, mas consolidada na medida em que os militares se estabeleciam o plano federal” (2009, p. 5).
A autora comenta que além da oposição dos militares, um outro ator colaborou para engrossar o coro dos insatisfeitos: o jornal A Gazeta, que utilizou suas páginas de forma ostensiva e deliberada para cobrar ações do governador, além de denunciar casos de nepotismo, corrupção administrativa e insinuações de que Chiquinho e seu grupo político estariam associados a membros simpatizantes da esquerda.
A tese anteriormente citada é confirmada por um dos jornalistas entrevistados que relatou que “[...] Em 66, Chiquinho foi obrigado a renunciar. Uma série de pressões, reuniões, assembleias. Acusações de corrupção pesavam contra o governo Chiquinho”.21
Enfraquecido, Chiquinho renunciou ao cargo de governador em abril de 1966, por meio de uma carta. Assumia, então, o novo governador indireto Cristiano Dias Lopes, eleito pela Assembleia Legislativa.
Pouco antes da renúncia, Chiquinho acertou a venda do jornal O Diário com três empresários: Fernando Jakes Teubner, Edgard dos Anjos e Cacau Monjardim. Segundo Teubner (1998), a partir daquele momento começava na publicação uma verdadeira reviravolta na gestão tanto comercial como jornalística. Teubner e Dos Anjos possuíam à época, juntos, três agências de propaganda, além de experiência também como jornalistas. Já Cacau Monjardim, jornalista, tinha no seu currículo um amplo
conhecimento dos meandros da política, uma vez que já havia sido Secretário de Comunicação, inclusive de Chiquinho Aguiar.
Juntos, esses três sócios promoveram grandes mudanças no jornalismo capixaba e capitanearam a mais marcante, representativa e áurea fase do Diário.