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A partir do exposto, alguns elementos primordiais tornaram-se presentes para conjecturarmos acerca do lugar da criação e da estabilização para a direção do tratamento. Ora, como bem compreendemos a partir dos casos tratados, cada forma singular de manifestação da estrutura vai promover uma saída com relação àquilo que desorganiza e inflige sofrimento no âmbito psíquico. Mas, de que forma os analistas podem pensar a criação no âmbito do tratamento? Como essa questão poderia ser referenciada com relação à paranoia? E à esquizofrenia?

Partindo dos elementos discutidos no capítulo anterior sobre a constituição da paranoia é factível que a criação nesses casos, como já pressupúnhamos envolva, principalmente, a criação de uma metáfora delirante. Nesses casos, o analista não deve obstacularizar a criação do delírio nem interpretá-lo, pois, na clínica com psicóticos a interpretação é realizada pelo paciente. Ocupar o lugar do Outro também não é aconselhável. Quando se leva o tratamento – já que não podemos falar em análise propriamente dita de um psicótico – da mesma forma de um neurótico, há grandes riscos de se desencadear uma passagem ao ato (STEINMETZ, 2010), já que alguns elementos da cura analítica para neuróticos são desestabilizadores no que concerne à estrutura psicótica (MALEVAL, 2009).

Como vimos anteriormente, a principal diferença no âmbito criativo para fins de estabilização encontra-se na metáfora delirante: a paranoia é detentora de elementos que possibilitam a construção de tal metáfora como uma elaborada saída substitutiva à foraclusão da metáfora paterna. O paciente paranoico facilmente utiliza o recurso à construção de um delírio, o qual o sustentará (CALLIGARIS, 1989). No caso da esquizofrenia, o caso de Arthur Bispo do Rosário nos foi bastante ilustrativo para compreendermos a hiância entre ambas as formas de psicose, uma vez que o delírio de Bispo foi elaborado de forma rudimentar e insuficiente, atrelando ainda seu talento artesanal para contribuir com sua estabilização.

Para elaborar estratégias no âmbito clínico é necessário compreender o que possibilita a estabilidade do sujeito, seja pela via da construção de um ideal, adesão a uma imagem, posse de uma fórmula funcional eficaz, a criação de uma prótese do

sistema simbólico, o estabelecimento de uma lógica de exceção, o exercício de atividades capazes de limitar e denominar a libido. Em suma, Lacan (1955-56 [2010]) acredita que o psicótico consegue estabilizar-se por meio da identificação com o ideal materno, já que a partir de sua carência de significação de ordem simbólica, o que lhe resta são as próteses imaginárias, mas “a prática de ortopedias imaginárias tem seu limite e, sobretudo, não aporta nenhuma resposta ao problema de uma abordagem autenticamente psicanalítica do tratamento dos piscóticos.” (MALEVAL, 2009, p. 366). As condições de seu surto também devem ser conhecidas, pois quanto mais se sabe acerca do(s) desencadeamento(s) anterior(es), mais podemos supor sobre a possibilidade simbólica daquele paciente e isso pode ajudar a evitar uma direção errada (LEADER, 2013).

O trabalho de discutir sobre a situação do desencadeamento do surto pode ajudar o sujeito a construir sua história e já ter um efeito, principalmente no âmbito temporal, com momentos que demarcam o antes e o depois do acontecimento e permitem a localização do sujeito nesse acontecimento. A inscrição de elementos simbólicos e a denominação de fatos pode ajudar o psicótico, principalmente, o esquizofrênico a deter a deriva do sentido. Muitas vezes, a nomeação do sintoma ou doença – a exemplo do que faz a psiquiatria com seus manuais – pode ser útil por proporcionar a estabilização do sentido, pois são uma forma de nomear e ordenar experiências.

Todas as estratégias citadas acima que possibilitam a estabilização se mostraram eficientes para que o sujeito venha a promover seu apaziguamento, mas a criação, principalmente pelo estudo dos casos abordados, mostrou-se benéfica, duradoura e com grandes possibilidades de agregar valor ao sujeito tanto de forma pessoal, quanto cultural.

Nesse contexto, diversos são os lugares que o analista pode ocupar no tratamento com psicóticos (como já abordamos), mas isso ainda é passível de experiência e compreensão singular de cada caso. De toda forma, a proposta é incitar a criação. Criação de algo que possa advir como suplência onde exista um buraco, criação de uma metáfora ou do que puder tornar o que é invasivo em algo mais suportável. Em suma, podemos entrever o trabalho com a psicose como uma forma de tratar aquilo que retorna no real até tornar suportável para o sujeito (SOLER, 2007). Como Quinet (2011) bem pontua, trata-se tanto de uma escuta da relação do sujeito com o significante quanto de secretariar e servir de testemunha da relação do sujeito com o Outro.

No trabalho com o psicótico, o surgimento de um destinatário também é muito positivo, uma vez que pode abrir possibilidades para o endereçamento da criação de uma história, de um nome, de uma obra, etc. Esse lugar é importante mesmo que não seja ocupado pelo analista. Schreber destina sua obra a todos que tenham interesse científico, já que seus objetivos era esclarecer e oferecer sua obra (e seu corpo) para o estudo e progresso da ciência. Nesse sentido, pensemos a dedicatória do livro escrito por Schreber que é destinado “a todas as pessoas cultas que se interessam por questões relacionadas com o além”. Bispo tem como destinatário de sua obra o próprio Deus, que seria o avaliador de toda sua produção no dia do juízo final.

Ao fim do trabalho com psicóticos, a estabilização é o objetivo almejado e elas podem ser dos mais variados tipos. O delírio se constitui na forma mais elaborada de estabilização, conseguindo emoldurar o gozo, levando em consideração os significantes e ideais envolvidos na história de vida dos sujeitos promovendo a possibilidade de relações com a realidade – como bem nos ensina a metáfora delirante de Schreber. A estruturação de um delírio pode vir a ser o que resulta de favorável no tratamento com psicóticos. (MALEVAL, 2009). Assim, o trabalho da construção delirante é autoterapêutico, sendo por isso mesmo importante que ninguém além do sujeito o faça. O analista se contenta em organizar e incitar esse processo, mas não introduz elementos a partir da posição paterna no real – na verdade, isso poderia causar uma injunção e o desencadeamento de uma crise (CALLIGARIS, 1989).

De todo modo, a aposta lacaniana no trabalho com psicóticos direciona-se para a capacidade do próprio sujeito para construir uma suplência. O que importa é que o psicótico precisa produzir algo, reinventar-se e, nesse ato, além da fala incluir, também, a criação material: escrita, desenho, pintura, escultura ou qualquer tipo de inscrição. Esse tipo de atividade ocupa um lugar significativo no mundo do sujeito (LEADER, 2013). O incentivo e facilitação dessas atividades e atos é o cerne de um tratamento das psicoses, o caminho para a criação é algo que deve ser oferecido aos que assumem esse compromisso terapêutico.