volvido pela instituição, a população cigana que frequenta as instituições em que trabalham os entrevistados é muito jovem, compõe-se, sobretudo, por crianças, jovens adolescentes e jovens adultos.
Notam-se algumas diferentes de frequência por género, é o caso de instituições mais ligadas à saúde, em que as mulheres são as que mais aderem às atividades; enquan- to nas que estão mais ligadas à educação, são os rapazes/homens. A partir dos 30 anos, a presença nos espaços é mais esporádica e mais orientada para a resolução de necessidades concretas ou para a participação em cursos ou outras atividades mais formalmente orga- nizadas. As pessoas com quem conversámos referiram, na generalidade, conhecer bem as famílias que são “suas utentes”.
A morar aqui próximo do bairro e que frequentem a Associação, só temos uma família sénior. O resto das famílias são famílias até aos 40 anos e com todos os miúdos em idade escolar. Os jovens mais velhos têm 18, 19 anos. (Técnica do
Projeto Escolhas, 35-39 anos).
Também declararam que a maioria dos ciganos residentes nos espaços de abran- gência dos projectos é, efetivamente, de nacionalidade portuguesa, ainda que nos tenham referido a presença residual de alguns ciganos de nacionalidade espanhola e que reflecte a rede de parentesco com ciganos espanhóis. Curiosamente, não foi referida a presença de ciganos de outras nacionalidades, embora saibamos que em Portugal residem ciganos estrangeiros.
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São todos daqui, só uma família atualmente, uma família nómada, que está a acampar perto, mas não costuma acontecer. Aliás, é uma coisa que é comum a todos os ciganos com que temos contactado, já há muitas gerações que não são nómadas. (Técnica do Projeto Escolhas, 35-39 anos).
No entanto, em alguns locais ainda se verifica alguma sazonalidade de deslocações familiares.
(…) Nós também temos aqui muitas famílias que são, digamos, flutuantes ou
viajantes que, que durante o período de verão, isto é sazonal, aparece muito mais famílias que nós não conseguimos... Apesar de recebermos aqui crian- ças... (…) são da comunidade cigana mas que, durante o Verão esta zona, vem muitas famílias de outros locais (…) Do país para aqui, sobretudo do Alentejo.
(Coordenador de projeto, 35-39 anos).
De acordo com a perceção dos entrevistados a maior parte das pessoas ciganas em idade ativa encontra-se formalmente desempregada. Todavia existirá um número não negligenciável de trabalhadores por conta própria, desenvolvendo a sua atividade como fei- rante e/ou vendedor ambulante que, de acordo com alguns testemunhos, evitam declarar os rendimentos obtidos por essa via, sobretudo temendo o corte do RSI. Porém, pelo retrai- mento de os negócios nas feiras com a crise económica muitos já desistiram dessa ativida- de. Há outros que estão em efectiva situação de desemprego ou desocupação. Em termos de trabalho por conta de outrem, verificaram-se alguns casos que se destacam desses cenários: são indicados casos de quem exerça atividade como auxiliar de ATL e empregado de café e de outros que já procuram formações que lhes permitam enveredar por uma profissão.
Muitos deles [jovens] ajudam os pais nas feiras e não tenho conhecimento, mesmo aqueles com quem trabalhei há mais tempo, que estejam noutro tipo de área. Estão todos a trabalhar nas feiras ou alguns estão desempregados e estão com o subsídio de desemprego. (Coordenador da instituição, 30-34 anos).
O insucesso e abandono escolares são fenómenos praticamente generalizados a partir do 2º ciclo, designadamente entre os indivíduos mais velhos que possuem no máxi- mo o primeiro ciclo completo. Praticamente todas as crianças ciganas estão inseridas no 1º ciclo do ensino básico. Os rapazes permanecem mais tempo na escola face às raparigas, mas é pouco frequente passarem do 6º ano (2º ciclo do ensino básico). As raparigas sofrem
uma pressão maior para sair da escola porque as turmas são mistas e as famílias não gostam que, numa fase de início da adolescência, elas possam conviver com rapazes, sobretudo não ciganos e sem a supervisão de adultos, quer ciganos, como não ciganos de sua confiança. Estas observações são consonantes com os estudos disponíveis em Portugal e que atestam que as pessoas ciganas apresentam níveis de escolaridade obrigatória baixos e elevadas ta- xas de abandono (Bastos, Correia e Rodrigues, 2007; Mendes, 2007; Nicolau, 2010).
Todos eles têm muito fracasso escolar não é? Muitas dificuldades de aprendi- zagem, mas enquanto as meninas têm de sair por questões culturais os rapa- zes não têm que sair obrigatoriamente, muitas vezes saem por uma questão de fracasso, reprovações e acabam por… por abandonar. Pronto é o insucesso!
(Coordenadora de um Centro Comunitário, 30-34 anos).
Alias são poucos os que eu conheci, mesmo os miúdos são muito pacatos, no 1º
ciclo há muitos que não passam do 2º, 3º ano, não chegam a concluir o 1º ciclo.
(Técnica do Projeto Escolhas, 35-39 anos).
Não obstante esses relatos de abandono e insucesso escolar, começam a surgir si- tuações que se destacam por serem singularidades sociais: “(…) tenho 7 com o 3º ciclo do
ensino básico. E tenho dois jovens a terminar mesmo o 3º ciclo. E as outras 6 ou 7 pessoas têm o 9º ano. Os resultados mais frequentes na comunidade é o 6º ano. (Presidente da Associação/
Técnico no Projeto Escolhas, 30-34 anos). Assim, entre as gerações mais velhas são muito frequentes os casos de pessoas que não sabem ler e escrever, enquanto entre as pessoas mais novas já se encontram situação mais diversificadas com a existência de alguns casos de prolongamento escolar e já uma adesão significativa ao ensino pré-escolar.
No que toca à família, os casamentos ciganos e as uniões acontecem em idades mui- to precoces, quando comparados com as pessoas não ciganas. Segundo os nossos informa- dores privilegiados, os ciganos casam normalmente entre os 13 e os 15 anos. Há até quem tenha referido que antes os “casamentos” aconteciam mais tarde, entre os 15 e os 17 anos e que, na atualidade, estes acontecem em idades ainda mais precoces o que contraria em certa medida resultados que apontam para o aumento da idade do casamento (Mendes, 2007; Magano, 2014). Continua a ser dado grande valor ao “casamento cigano”, pese embora se comece a ouvir relatos sobre casos de uniões entre ciganos e não ciganos e de muitos
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É quase unânime a opinião de que as mulheres ciganas neste momento já recor- rem, na generalidade, a métodos de controlo da natalidade.
É recente, é recente! [N]Estes últimos anos elas estão a casar as filhas. Porquê… uma criança cigana não pode namorar. Faz parte da sua cultura! Elas são “pe- didas” praticamente à nascença. Elas vão crescendo sempre com o tal menino. Pode ser até o primo. A maior parte deles casam primos com primos direitos e por aí a fora. Depois quando chega a altura, por exemplo, agora dos 13 anos, os telemóveis e outras coisas, mas principalmente os telemóveis… há aqui uma coisa muito estranha porque eles quererem-se contactar uns com os outros por telemóveis. E combinam-se! Imaginem que agora estou aqui eu e combino com o namorado «Olha, vamos até ali». Basta isso, já têm que os casar! Porque eles saíram juntos e não podem. Não acontece nada. Mas para eles, aquilo já ficou uma marca. (Responsável de Centro, 50-54 anos).
Piscam o olho e depois fogem! Estão dois, três dias quando voltam já são assu- midos como casal perante eles, e então já não há necessidade depois do casa- mento, porque eles já são marido e mulher. (Animadora no Projeto Escolhas,
30-34 anos).
A tendência para a realização de casamentos precoces surge por vezes apontado como se trate de um traço cultural herdado, naturalizado: “É. Notamos mesmo entre as mi-
údas novas, porque… 12,13 anos, elas já estão sempre a falar nisso, isso é uma coisa que elas têm, é mesmo, está entranhado. (Técnica do Projeto Escolhas, 35-39 anos).