E: Chaotic deposits
8.4 D EPOSITIONAL STYLE OF THE EASTERN PART OF THE A INSA B ASIN
8.4.1 The Arro system
3.1 A EXPERIÊNCIA: UM CONCEITO FILOSÓFICO
Para esclarecermos o que estamos chamando de experiências religiosas, convém neste primeiro momento conceituarmos o termo experiência. Vemos que do ponto de vista etimológico, há vários significados para este termo, conforme estudo feito por Edênio Vale. Mas pensaremos este conceito a partir de sua origem grega empeiria, que é uma matriz de empirismo, e que se aproxima da proposta da fenomenologia, que é empírica e cujo foco é o mundo da vida, que se dá pela experiência.
Segundo Martins (2015), o significado de ‘experiência’ merece uma investigação etimológica2 bem feita, tal como a seguinte:
Na palavra portuguesa ‘ex(peri)ência’, temos o radical latino peri, que, como o seu correspondente grego peira, significa ‘obstáculo’ e ‘dificuldade’. Este significado aparece claramente na palavra latina periculum (que significa ‘perigo’) e no verbo
aperire (que quer dizer ‘abrir’). Nos dois casos, temos a ideia de uma ação que enfrenta
dificuldades ou remove obstáculos. Portanto, em sua significação etimológica, a palavra experiência quer dizer: ‘vencer dificuldades’, ‘superar obstáculos’, ‘abrir novas perspectivas’ e, por conseguinte, enriquecer-se e fortificar-se na luta e no sofrimento com que nos deparamos na vida.
Pela língua alemã, temos dois termos que consideramos captar o sentido primeiro de experiência: Erlebnis e Erfahung. Segundo Vale (1998), o primeiro é construído a partir da palavra leben (=vida). O autor nos diz que sempre que a experiência é algo fundo, vivenciado desde dentro e dotado de um sentido ou valor evidente em si para o sujeito, os alemães dizem Erlebnis, palavra que traz em si um quê de emocionalidade e é traduzida nos dicionários por experiência. Pensamos com Vale (op.cit.) que talvez fosse melhor traduzí-la por experienciar, para indicar que se trata de uma experiência que é mais vivenciada pela pessoa do que ensinada ou aprendida a partir de fora, a partir dos sentidos fisiológicos ou de pessoas coletivas.
Usando termos mais filosóficos, Vale (op.cit) nos diz que erlebnis é o processo da consciência por meio do qual o homem é totalmente envolvido pelo peso do sentido e do valor de dado objeto. Caracteriza-se pela imediaticidade e pela excitação do sentimento, mas não exclui a
2 Zeferino Rocha; “A experiência psicanalítica: seus desafios e vicissitudes, hoje e amanhã” in Ágora: Estudos em
Teoria Psicanalítica, Print version ISSN 1516-1498, Ágora (Rio J.) vol.11 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2008.
elaboração e penetração mais profunda pelo pensamento. Já a erfahrung é uma forma peculiar do conhecimento que se origina não do pensamento discursivo e sim da recepção imediata de uma impressão. Possui um extraordinário senso de certeza ou evidencia, devido ao caráter mais imediato de irresistível presença do que é experimentado. Pensamos juntamente com o autor que para captarmos e explicitarmos a experiência religiosa em sua inteireza, necessitamos dos dois termos: erlebnis e erfahrung, que envolve, além dos sentidos do objeto, as suas impressões.
Assim, quando lemos a autobiografia de Yokaanam, precisamos compreender o significado de suas experiências para ele, ou seja, o sentido, a percepção, a consciência e os sentimentos envolvidos nestas experiências, tendo como premissa nosso processo intuitivo, que nos possibilita evidenciar as impressões.
Sobre este aspecto intuitivo, remontamo-nos a Kant (1781), que preconiza os dois pilares epistemológicos pelos quais se constrói o conhecimento empírico, a sensação e a razão. Vemos que o tema central da crítica de Kant (op.cit.) consistiu em demonstrar a validade do saber científico e em interrogar sobre a possibilidade da metafísica como ciência. Ele trouxe uma investigação de ordem crítica acerca dos limites da razão, analisando esta como a faculdade humana do conhecer em geral. Porém Kant nos diz que este conhecimento humano compreende além da razão, a sensibilidade e o entendimento, que nos permitiria descobrir estruturas a priori. No início de sua obra “Crítica da razão pura’, Kant (op.cit.) nos mostra que estes pilares tinham uma origem comum, mas foram afastados em prol do discurso racional da ciência. O surpreendente é a constatação de que, para se fazer ciência racional, é imprescindível a esfera sensível, com risco até de se perder o objeto de estudo, como é o caso das ciências psicológicas, que acabam encontrando os seus limites ao tratar da experiência humana. Esta constatação nos leva a repensar nossa postura e modelo de se fazer ciência, sobretudo quando estamos diante de experiências religiosas, que nos fazem lembrar as limitações do nosso conhecimento.
Com Figueiredo (1991), vemos que Husserl não reconheceu no pensamento kantiano um projeto de crítica epistemológica, pois, para Husserl, não há uma natureza gratuita e contraditória em si, para além da experiência humana, mas somente o objeto da experiência possível: os fenômenos. Figueiredo (op. cit.) aponta que, no curso da história da psicologia, a produção e a validação do conhecimento é o incremento do domínio técnico sobre a natureza, que pressupõe a fiscalização, o autocontrole e a autocorreção do sujeito, mas estas produções deram origem às
preocupações epistemológicas e, principalmente, metodológicas, características da nossa época, com um consequente projeto de psicologia como ciência natural do subjetivo.
Em decorrência desta situação, Figueiredo (op. cit.) nos diz que o sujeito é atravessado por uma sucessão de rupturas: num primeiro nível, a sensibilidade, a afetividade, a intuição, a vivencia pré reflexiva etc, conflitam com a razão instrumental; num segundo nível, é a própria razão que se desdobra em discursos de suspeita que procuram identificar e extirpar dos discursos com pretensões racionais os vestígios cada vez mais dissimulados da subjetividade.
Segundo Figueiredo (1991), quanto mais se avança, mais a razão descobre motivos para duvidar de sua própria integridade e auto-suficiência. Neste sentido, o autor diz que a psicologia precisaria renunciar à ambição de ter uma história que se conformasse ao ideal do progresso das ciências naturais que, se não exclui revoluções e rupturas, pode ainda assim, ser concebida como uma aproximação infinita da verdade e, numa certa medida, como acúmulo do conhecimento. Porém, ao radicalizar o projeto de auto-controle do sujeito, nos quadros das ciências naturais, a psicologia assumiria uma natureza auto-reflexiva que acabaria transpondo e negando os limites deste mesmo quadro.
Vê-se, então, que temos muitas questões epistemológicas mal resolvidas no campo da psicologia e estas questões acabam por repercutir na práxis cotidiana do clínico, que muitas vezes se vê agindo em prol de discursos construídos historicamente, que não contêm, necessariamente, toda a verdade das coisas em si, mas refletem também, e em muito, os próprios valores de quem produz essa ciência, em geral comprometida com uma cultura hegemônica do saber. Sabemos que é a partir de pontos de vista que a ciência se constitui, sobretudo a partir do modo como deixamos que um determinado fenômeno se apresente a nós e do modo como nos dirigimos a ele, na especificidade deste encontro. Talvez a dificuldade da ciência humana e, dentro dela, a psicologia, esteja em insistir em padronizar e classificar o homem a partir de pontos de vista que não conseguem abarcá-lo em sua complexidade.
Pensando especificamente na relação entre ciência e religião, que propomos discutir neste trabalho, vemos que a ciência do século XIX talvez tenha incidido em um erro de perspectiva ao supor uma insanável contradição epistemológica entre estes campos do saber. Mas reconhecemos que tal erro serviu para a emancipação da ciência humana se constituir. Isto porque, pela perspectiva positivista de se fazer ciência, há a necessidade de tornar palpável e manejável nosso objeto de estudo.
Neste sentido, reconhecer as limitações desta ciência, e se desfazer de pressupostos antes de conhecer um fenômeno específico, talvez seja um começo para fazermos a clínica deste ser complexo que é o homem, inserido num universo muito particular, permeado por símbolos, crenças, valores, identidades, que formam sua cultura e que precisam ser criteriosamente considerados. Com esta perspectiva em vista apresentamos a noção de experiência religiosa.
3.2 A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA NA PSICOLOGIA E SENSO RELIGIOSO: UMA