• No results found

Arrangements for the Preparation of the Report

In document CM_1999_G_4.pdf (1.625Mb) (sider 6-0)

5.2.1.2 ROTATIVIDADE DA CHEFIA (7x)

5.2.1.3 CONDUTAS PATRIMONIALISTAS (5x)

5.2.1.4 PENSAMENTOS DO TRABALHO PARA CASA (6x)

5.2.1.5 INFLUÊNCIA POLÍTICA (8x)

5.2.1.6 SOMATIZAÇÃO (6x)

5.2.1.7 INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO (3x)

5.2.1.8 INVISIBILIDADE ATIVIDADES MEIO (3x)

5.2.1.1 O estigma do servidor público

Há muito tempo existe o estigma que rotula o servidor público como ineficiente, improdutivo ou de modo pejorativo. Um clássico estereótipo que ilustra este fato é a figura do “Barnabé”, simbolizando o funcionário de baixo escalão, usando um terno preto amarrotado que passa o dia lendo jornal e tomando cafezinho ou então que “esquece” o paletó sobre a cadeira e sai, retornando para buscá-lo no final do expediente (RIBEIRO, 2011)

Contudo, apesar deste estigma estar presente em nosso país há muito tempo, a sua dimensão foi ampliada após o governo Collor, com a conhecida frase “caça aos marajás” diante

do que o cenário representava à época e após a reforma gerencial do Estado na gestão FHC, onde a mídia contribuiu fortemente para a responsabilização dos servidores públicos frente a todas as mazelas associadas ao governo e à máquina pública (RIBEIRO, 2011).

Em nossa pesquisa, os relatos revelam que o estigma que abarca a figura do servidor público induz a maioria dos servidores ao sofrimento. Os servidores apontaram, entretanto, que a despeito desta consideração, esta questão justifica-se no comportamento de parte da categoria, como é o caso dos relatos seguintes:

Infelizmente a gente vê muitos colegas que tem posturas que são prejudiciais para a nossa imagem e que não correspondem à totalidade. Eu sempre fui muito crítica

nisso, porque a sociedade acaba vendo o que é negativo e não o que é positivo (S2). [...] Como em toda a profissão, eu acho que nós temos laranjas podres na caixa, e infelizmente, o não ter avaliações periódicas, que eu arrisco dizer que mesmo com o risco de perseguição e de assédio, eu acho que é uma ferramenta que ajudaria, talvez não por produtividade, mas algo poderia ser pensado neste sentido (S5).

[...] toda a hora você vê alguém falando que servidor público é vagabundo. Mas o servidor público, se ele trabalhar, ah, trabalha muito! Então, a gente recebe este estigma

por alguns! Você vê aí toda esta roubalheira no governo e eles são servidores, informais

ou não, mas são servidores. Então me incomoda. Se estiver perto de mim ou se for pra mim, eu me defendo. Todo o lugar tem funcionário que não faz nada, até na empresa privada. Mas às vezes a pessoa denigre a imagem do servidor, mas bem que queria estar no meu lugar! Por causa da minha estabilidade; do meu salário [...] (S8).

Uma reação mais agressiva está presente no relato do Servidor S1:

[...] teve um episódio lá, que eu percebi que um servidor (de outro local da instituição) não fez um serviço por puro comodismo, ele foi lá para trocar a placa de patrimônio de um objeto, eu pedi para ele fazer de outro objeto. E ele disse que tinha tido um dia muito corrido, enfim, se recusou, pois havia sido chamado por conta de uma outra solicitação de serviço. Então eu disse: “Cara, custa você fazer isso? É por conta disso que o

servidor público tem a fama de vagabundo!” (S1).

Situações onde o estigma abarca inclusive amigos próximos ou familiares, afetando a subjetividade dos servidores. Uma das entrevistadas (S7) relatou um caso de quanto a sua família a tratava como se não fizesse nada no seu trabalho. Ela sentiu-se mal diante deste julgamento vindo de familiares:

Esta questão de ser mal visto fora como funcionária pública. Que você não trabalha ou vem quando quer. Eu faço as minhas oito horas desde que entrei. E não adianta tentar rebater, não adianta! Mesmo na minha casa viu, por exemplo, às vezes eu chego para o meu marido e falo, “ai hoje eu estou cansada”, então ele diz: “ Do que?” (gargalhada). Ai meu Deus, eu acho que eu trabalhei mais que ele alguns dias e ele ironiza. Então

você se sente um pouco rebaixada, até mesmo por pessoas próximas. Isso é muito ruim. Por causa de alguns funcionários (S7).

O caso da servidora S5 também indica a visão estigmatizada do servidor público por familiares como fonte de sofrimento:

Quando eu entrei aqui, meus pais já diziam: “ah, agora você está sossegada porque você

é funcionaria pública, agora não precisa trabalhar”. Eu rebatia: “não fala isso!”.

[...] Mas tive esta conversa e fiz questão de não discutir com eles, mas por meio de conversa, tentar quebrar este estigma. Eles ainda brincam comigo, os amigos deles, mas

é uma coisa que me chateia muito, realmente me dói, porque eu tenho uma utopia

muito grande de defender o serviço público, porque eu vejo esta carreira como para servir o publico mesmo! E eu levo isso muito a sério (S5).

Sentimentos como a vergonha também aparecem relacionados ao estigma:

Eu tenho vergonha. Porque é comum ouvir: “Ah, funcionária pública não faz nada!”.

Só que eu trabalho pra caramba (risos), pra caramba! Tem funcionários assim, que não fazem nada? Tem! Eu já encontrei e tem outras pessoas que contam. Mas é difícil,

porque você fica como todo mundo, ganha a fama pelos outros! (S7).

Questões que relacionam um elo entre o estigma do servidor público e a impossibilidade de ação, como nos relata o servidor S4, onde o usuário do serviço público chega com a opinião (pré) formada acerca deste serviço:

O estigma principal é a de que o servidor vai dificultar a vida do cliente, porque ele simplesmente não quer trabalhar [...] e vi uma justificativa, por um desgaste cívico com

o público, porque o cara também já chega com opinião formada do servidor publico. E você ouve reclamações por decisões que não foram nossas e o fulano se exalta,

acontece (S4).

E também, relatos que demonstram a insatisfação do servidor em face da impossibilidade de mudanças no trabalho, o que os leva a desenvolverem possíveis mecanismos de defesa. É o caso do servidor S4 que alega uma tendência dos servidores públicos em desenvolver indisposição:

O que eu concluo da minha experiência, com o servidor público em geral, não somente daqui, é que eu acredito que os servidores se tornam amargos e indispostos com o

passar do tempo na UFSCar. Eu não acho que isso seja algo que ocorre

necessariamente, mas é algo que possa ocorrer! Há pessoas que ficam até mais eficientes e dispostas com o passar dos anos, mas assim, eu acho que a tendência é, que se o trabalho é insatisfatório, afeta o servidor. No meu setor anterior, por exemplo, eu acho que se eu continuasse lá, eu iria me cansar e me tornar indisposto (S4).

Ou um caso emblemático, relacionado às possíveis estratégias de defesa da indiferença, da agressividade ou da negação, conforme aponta o servidor S3:

[...] eu acredito naquele exemplo dos três jegues: Alguns não fazem nada, alguns dão

coice para todos os lados, e outros fazem tudo. Tudo depende do serviço. O serviço te faz querer não fazer nada, querer dar coice, ou querer ficar estressado o tempo todo. Eu já ouvi de um servidor aqui na instituição, que ele andava com um taco de

baseball no porta-malas do carro, ele era muito estressado e um dia iria acabar

fazendo uma besteira. Hoje ele trabalha em outro setor na UFSCar e está bem. Então na UFSCar eu vejo isso: quem sabe fazer faz a mais; quem não sabe fazer é deixado de lado! Existe uma premiação ao contrario na UFSCar. Se o cara assume o serviço

ele recebe serviço a mais e se o cara não faz, ele é deixado de lado. [...] O cara é deixado de lado mesmo, sem fazer nada, ai começa a ficar estressado e começa a dar coice em todo mundo, ai ninguém mais procura ele e ele vai continuar dando coice, porque pelo menos ele se vê livre disso (S3).

Os relatos apresentados corroboram as evidências de Ribeiro (2011), que em sua tese aponta a imagem do serviço público associada a elementos como a ineficiência, o desperdício, a falta de controle e a corrupção. Outra evidência também apontada pela autora é que esse estigma negativo contribui para a valorização do privado em detrimento do público. Como ocorreu em épocas anteriores, não nos surpreende a “parcialidade” da grande mídia em situações pouco lisonjeiras que envolvam a participação da máquina pública. Diante do atual momento em que a política brasileira vivencia, tal aspecto possa ganhar um peso ainda maior, principalmente no que tange a corrupção, a deficiência de possíveis mecanismos de accountability e pela própria repercussão social que o momento representa.

Assim, requisita-se do servidor público um grande esforço no combate a esta visão estereotipada e pejorativa que a sociedade (influenciada) constrói a seu respeito. Para Ribeiro (2011) identifica-se deste modo um preocupante cenário que gera significativos impactos na produção de subjetividade da categoria, impondo grandes desafios para o enfrentamento de tais contingências.

In document CM_1999_G_4.pdf (1.625Mb) (sider 6-0)