neste capítulo, procurámos mostrar como a epistolaridade marcou as primeiras manifestações da imprensa, tendo vindo a estabelecer-se, com um espaço próprio e delimitado nos jornais, a partir do século xix. actualmente, quando um leitor envia uma carta a uma publicação impressa, tem a expectativa de adquirir visibilidade, através da publicação, e de alcançar um destinatário amplo. no entanto, para chegar a esse receptor plural, ou seja, os leitores da publicação, o seu texto é obrigatoriamente submetido ao olhar e às decisões de um editor ou jornalista, que, por sua vez, se encontram profundamente enraizadas na cultura organizacional e social da redacção.
Tomando consciência de um conjunto vasto de critérios de selecção e de edição, podemos caracterizar o debate efectuado na secção das cartas dos leitores como uma construção, altamente mediada (cfr. bromley, 1998: 150), na qual a intervenção dos editores e, em termos mais gerais, a própria cultura da redacção são fundamentais na decisão sobre quem e como sepode ter acesso a este fórum (cfr. Wahl-Jorgensen, 1999b: 9). Enquanto “representantes” do público, os
jornalistas acabam por ter um mandato livre para controlar o acesso aos media (cfr. splichal, 2002: 175).
as regras de selecção demonstram, com efeito, que os jornais privilegiam certas formas de expressão em detrimento de outras: os editores concordam no que faz com que uma carta seja boa ou má, publicável ou não publicável; ao seguirem essas convenções, determinam e podem limitar o tipo de debate que ocorre na secção e as vozes e os assuntos privilegiados. Com os critérios de selecção, tal como estão definidos pela cultura de redacção, os editores parecem estar a perguntar “O que queremos ouvir?” e não tanto “O que é que os leitores querem dizer?” (Grey et al., 1970: 451).
para José luiz braga, os controlos editoriais e as limitações de espaço reduzem a acção crítica das cartas (cfr. braga, 2004: 13). Mas há autores que vão, porém, mais longe no reconhecimento do controlo da organização jornalística sobre os textos dos leitores – para ericson, baranek e Chan, o que aparenta ser o componente menos mediado, mais aberto e mais democrático de um jornal é, na prática, tão mediado, fechado e anti-democrático como outros aspectos que o integram (ericson et al., 1989: 338). segundo os autores, o tratamento que é dado às cartas sublinha o poder dos media noticiosos, já que estes têm a possibilidade de incluir ou excluir determinadas fontes da conversação pública.
uma das principais linhas de pesquisa deste trabalho consiste em, precisamente, verificar se o tipo de critérios utilizados pelas publicações impressas objecto de estudo se coaduna com o ideal de debate crítico-racional e com os próprios fundamentos da democracia deliberativa. podemos dizer que a existência de regras de selecção, por si só, não é impeditiva da sua concretização – o cerne da questão reside, sobretudo, na atitude dos editores em relação aos seus leitores e na forma como estes critérios podem (ou não) ser utilizados para favorecer determinados tipos de expressão.
segundo Wahl-Jorgensen, a secção das cartas dos leitores privilegia determinadas vozes, mas não devido a escolhas editoriais deliberadas, até porque os editores utilizam, na maior parte das vezes, regras puramente procedimentais – apenas um número muito pequeno de decisões são feitas com base no conteúdo da carta (cfr. Wahl-Jorgensen, 2007: 161). o problema essencial reside, na opinião da autora, no facto de estas regras beneficiarem, em última análise, quem
possui capital cultural suficiente para conhecer e se enquadrar nestes critérios, em detrimento daqueles que pretendem entrar no debate público “com boas intenções, mas poucas maneiras” (cfr. ibidem: 159). “o problema é que aqueles que têm pouco capital cultural ou eficácia política são menos passíveis de entrar na discussão (...). os indivíduos que têm tempo para escrever e as capacidades para se convencerem a si mesmos que são capazes de participar, em primeiro lugar, estão simplesmente em melhor posição para jogar o jogo da democracia segundo as regras (cfr. ibidem: 161). a participação política acaba, assim, por ser estruturada pelas desigualdades e exclusões que formam a sociedade como um todo.
não discordando da posição da autora, sublinhamos, porém, a existência e a importância de critérios de selecção que não são meramente procedimentais ou formais. Obviamente, as próprias regras de escolha das cartas podem beneficiar os leitores privilegiados em termos de capital cultural, mas os constrangimentos da actividade jornalística podem não justificar, a nosso ver, a forma como determinado tipo de decisões são tomadas. e, acrescentamos, enquanto certas escolhas terão a ver com as práticas da redacção, outras ultrapassam esse âmbito. a valorização de valores-notícia como a controvérsia ou a relevância em termos de actualidade do tema são factores de selecção das cartas que estão relacionados, de facto, com o seu conteúdo, ao contrário do que preconiza Wahl- Jorgensen. podemos questionar: entre uma carta que não suscite polémica e uma carta que a fomente, qual das duas escolheria o editor? entre uma carta que aborde um problema social, de forma abstracta, e outra que o aborde, mas tomando como ponto de partida uma notícia do jornal, por qual das duas se decidiria o editor?
por outro lado, através da revisão de literatura existente e da nossa própria pesquisa (estudo de caso), verificámos que o estatuto social e a autoridade do leitor são também factores que entram em linha de conta nas decisões editoriais – entre uma carta escrita por um leitor “anónimo” e um texto escrito por alguém que poderá dar o seu contributo pela sua autoridade numa determinada matéria, qual das duas escolheria o editor?
O chamado “idioma da insanidade”, referido por Wahl-Jorgensen e que mencionámos no Capítulo 3, é também um factor de rejeição automática da
expressão que não se adeqúe aos standards da redacção (cfr. ibidem: 159) e, acrescentamos, está relacionado com a própria maneira como a participação do público acaba por ser entendida pelos jornalistas e editores. perguntamos: considerar um leitor como “irracional” será meramente uma regra procedimental?
são de referir ainda as próprias idiossincrasias do responsável pela selecção das cartas, ao preferir determinados temas ou leitores para a secção das cartas – no nosso estudo de caso, verificámos que a pessoa encarregue de as seleccionar expressou, por diversas vezes, a sua preferência pela publicação de um tema em particular (a educação em portugal) e, também, por determinados leitores- escritores (cfr. silva, 2007: 93-6).
será que a secção das cartas, apesar de todas as suas potencialidades democráticas, pode transformar-se num palco de visibilidade exclusivo a actores “profissionais”? Será que os critérios de selecção, ao invés de fomentarem a diversidade, acabam por criar um espaço onde o acesso é limitado a um número muito restrito de vozes? e será que esses mesmos critérios permitem a existência de um pluralismo dentro da rubrica de correspondência, quer ao nível dos assuntos abordados e pontos de vista, quer ao nível das formas de expressão?
Todas estas questões são objecto de análise na nossa pesquisa empírica, de forma a verificar como se constroem os diversos espaços de cartas dos leitores na imprensa portuguesa. no próximo capítulo, analisaremos a actividade jornalística, tal como ela é entendida actualmente, mas também a forma como as cartas dos leitores poderão constituir um meio de assegurar a responsabilidade social dos media e, ainda, outros veículos de participação dos cidadãos nos media, fomentados pelas novas potencialidades tecnológicas.
[as Cartas dos leitores na imprensa portuguesa:
uma forma de comunicação e debate do público, pp.139 - 176]