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7 SNØHETTAS FORMALE UTTRYKK

7.4 Arkitektur blir språk, symboler

Para Enders (1997), apesar da contestação cada vez maior nos fóruns mundiais, como na ONU, Portugal manteve uma política intransigente de uso da força, sendo obrigado, já no início dos anos 1960, a defender militarmente suas colônias contra os grupos independentistas em Angola, Guiné Bissau e Moçambique. No início dos anos 1970 o regime autoritário do Estado Novo continuava pesando sob Portugal. Salazar, o seu fundador, foi destituído em 1968 por incapacidade física, decorrente de uma queda, e veio a falecer em 1970, sendo substituído por Marcello Caetano. As tentativas de reforma política eram impedidas pela própria inércia do regime e pela atuação da sua polícia política (PIDE). O regime isolava-se, envelhecido no mundo ocidental, obrigando Portugal a defender pela força das armas o “Império Português”, instalado no imaginário dos ideólogos do regime. No auge da Guerra Fria, as nações tanto do bloco capitalista quanto do comunista apoiaram e financiaram as guerrilhas das colônias portuguesas, em uma tentativa de atraí-las para a zona de influência americana ou soviética. Em quase todas as colônias do ultramar português surgiram movimentos de independência, que se manifestaram na forma de guerrilhas que pegaram em armas para lograr seus objetivos. Excetuando-se o caso da Guiné-Bissau, que se tornou independente ainda em 1973, o império colonial português acabou sendo desmantelado no segundo semestre de 1975.

O governo de Portugal, que veio a tornar-se a mais duradoura ditadura europeia em todo século XX, recusa-se a via diplomática e prossegue na defesa até o limite possível, daquele que era o último grande império colonial europeu. Para África foram mobilizados centenas de milhares de soldados:

Durante a década e meia em que a atenção do mundo esteve voltada para o Sudeste Asiático, travou-se uma luta mais renhida na África portuguesa. Em 1974 mais de 1 milhão de portugueses haviam prestado serviço militar no ultramar. Um de cada quatro homens adultos estava nas forças armadas. Na África o exército português mobilizava quase 150 mil homens e ainda assim estava sendo derrotado na Guiné-Bissau, sofrendo graves pressões em Moçambique e se atolando em Angola (MAXWELL, 2006, p. 40).

Conforme Maxwell (2006), numa situação de guerra colonial em todos os territórios (exceto Cabo Verde, onde a luta armada deu-se de forma indireta via ação do PAIGC em território da Guiné-Bissau), Portugal foi derrotado tanto na esfera política quanto ideológica.

Portugal foi a última potência europeia na África a aferrar-se tenazmente à panóplia da dominação formal. Isso não foi acidental. Durante muito tempo, o país disfarçou com êxito a natureza de sua presença com um engenhoso amálgama de mitificação histórica, pretensões multirraciais e boas relações públicas. [...]. A fraqueza econômica em casa tornou inevitável a intransigência na África (MAXWELL, 2006, p.39).

Essa derrota contribuiu, em Portugal, para a Revolução dos Cravos, em 1974, que derrubou o governo salazarista, levou o país a sua redemocratização e permitiu que se negociasse a retirada dos colonialistas derrotados.

Em sua obra “O Atlântico Negro”, Paul Gilroy sugere que a cultura e a identidade negra, cuja tomada de consciência foi fundamental para as lutas nacionalistas africanas, são criadas e se redefinem através de uma troca de símbolos e ideias, que se dá no triângulo cujos vértices são a África, o Novo Mundo e a Europa. Para Gilroy este é um processo de construção das culturas negras, o qual adquire contornos de uma área cultural transnacional, multilinguística e multi- religiosa. O autor considera que esse processo dá às culturas e também às etnicidades negras, um status especial no mundo das relações interétnicas. O fluxo transatlântico de pessoas, mercadorias, símbolos e ideias, unindo as Américas do Sul e do Norte, a Europa e África, tornaram o Atlântico Negro uma espécie de “espaço social transnacional”.

Em muitas das publicações feitas por Amílcar Cabral em nome do PAIGC (e dos povos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau), o grande líder africano deixa antever uma concepção de nação como algo que resulta da reação de uma parcela da população frente ao meio social e aos problemas, desde que tendo uma aspiração compartilhada20, um esforço consciente em produzir uma experiência comum de

20 Das muitas vertentes possíveis para se pensar a nação e o nacionalismo nos PALOP, tendo em

vista a natureza e as especificidades dessa experiência, nos parece importante destacar a opção pela concepção de nação enquanto comunidade de destino, com base na experiência comum de seus membros e de sua constante interação, a qual se renova através de valores culturais que perpassam gerações. Bauer (2000) permite observar que a nação vista desta forma (como resultado de uma comunhão de destino) se daria a partir de uma interação mútua de seus membros, implicando justamente em uma experiência comum de destino. Para aprofundar a questão, sugerimos dentre outros: Bauer (2000) e Fanon (2005).

destino21, que no contexto de tais publicações era conquistar a independência e a

soberania nacional22.

[...] o movimento de libertação nacional representava, para Amílcar

Cabral, “a expressão política organizada da cultura do povo em luta”. A direção do movimento deveria centralizar o foco na defesa do valor da cultura no contexto da luta e no reconhecimento profundo da cultura do povo. É fundamental, portanto, perceber a sociedade como

“portadora e criadora de cultura e do ‘caráter popular da cultura’”, a

despeito das reais condições materiais dessa mesma sociedade. A cultura, todavia, não é uniforme, distribuindo-se em níveis variados, estabelecidos pelos interesses econômicos. Desse modo, tem-se a compreensão do comportamento dos indivíduos – ou das categorias socioeconômicas - diante do movimento de libertação (SPAREMBERGER, 2011, p. 7).

Em Fanon (2005), encontramos essa abordagem da nação como uma estratégia de enfrentamento, uma vez que esta última (a nação) nasce da ação organizada do povo, encarnando suas aspirações reais e influindo na cultura, a qual seria justamente a primeira expressão de uma nação.

A nação não é apenas condição da cultura, da sua efervescência, da sua renovação contínua, do seu aprofundamento. Ela é também uma exigência. É primeiro o combate pela existência nacional que desbloqueia a cultura, abre-lhe as portas da criação (FANON, 2005, p. 280).

Se considerarmos o fato de que a administração colonial portuguesa estava centrada em uma política de assimilação cultural, sem a qual os “portugueses africanos” não poderiam receber sequer o estatuto de civilizados, ficando na sua condição original de “indígenas”, vamos entender a opção feita pelos nacionalistas africanos por centralizar sua concepção de nação através da via da cultura, a qual foi empregada como ferramenta de consciencialização e emancipação:

Por serem africanos assimilados, logo, portugueses e por não terem lugar na sociedade multirracial que se apregoava [...] poucas saídas restavam senão lutar pela destruição do sistema (sic). Ao criarem, anos mais tarde, os movimentos de libertação que contribuíram para o fim do colonialismo, Amílcar Cabral e os seus companheiros fundaram novas nacionalidades (TOMÁS, 2008, p. 25).

21 Bauer (2000) também chama atenção para o fato da nação não ser produto de mera semelhança

de destino, mas brotar da comunhão de destino, numa constante interação dos que partilham esse destino. Assim a nação é definida por ele como uma comunhão de caráter que brota de uma comunhão de destino, e não apenas uma mera semelhança de destino.

22 Para aprofundar a questão, veja-se um documento de 9 páginas, de autoria de Cabral, intitulado “A

África e a luta de libertação nacional nas colónias portuguesas”. Disponível em: casacomum.org/cc/visualizador?pasta=04341.001.005.

Os problemas decorrentes do racismo e do colonialismo foram um dos principais fatores que permitiram aproximar e unir esses estudantes. A capital portuguesa foi talvez o maior de todos os “cadinhos” (ainda que outros tenham existido) onde fundiram-se os metais que formariam a “liga” dos movimentos libertários e nacionalistas dos PALOP. Tomaram conhecimento da Negritude e do Pan-africanismo, tomaram conhecimento de ideias e de organizações políticas e suas doutrinas, com destaque para o comunismo, passando a contestar todo o sistema colonial, reivindicando direitos e igualdade.

O longo processo de conscientização, mobilização e luta para obter as independências foi marcado pelo transnacionalismo de seus elementos: a circulação de pessoas nas três margens do Atlântico, a circulação de ideias (Como a reafricanização dos espíritos, idealizada e proposta por Amílcar Cabral) através da poesia, da literatura em geral, dos panfletos, manifestos e discursos nacionalistas. Se essas identidades nacionais foram inventadas ou redescobertas, se são autênticas ou mera reprodução tardia do nacionalismo europeu, é uma discussão não consensual. O indiscutível é que o papel de tais ideias foi fundamental para a derrocada do colonialismo português, culminando com a Revolução dos Cravos e a independência de todas as colônias africanas.