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3. REVIEW OF LITERATURE

3.2. Corporate communication

Nesta dimensão é possível perceber no discurso dos professores entrevistados, uma definição ampla de leitura ao apontarem as diversas linguagens que constituem o universo do sujeito; contínua abarcando todas as séries e níveis de ensino e dinâmica por extrapolar a simples decodificação ou decifração incluindo elementos como produção de significados, de sentido, leitura de mundo, posicionamento do leitor, etc. Para a professora de Geografia, a leitura é uma fonte de informação que leva ao conhecimento e que propicia a interação com o mundo. Para os professores, ler é atribuir significado, é a forma de ver o mundo, de interpretar, de compreender, de conhecer. Nessa perspectiva, todos se aproximam do que Foucambert propõe como leitura:

Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é [...] o ato de ler em qualquer caso, é o meio de interrogar a escrita e não tolera a amputação de nenhum de seus aspectos. (FOUCAMBERT, 1994, p.5)

A definição de leitura enfatizada por Foucambert refere-se exclusivamente a leitura do texto escrito, no entanto os professores deixam indícios em suas falas que tudo o que está no

mundo pode ser lido, transitando entre a leitura do código escrito e das diversas linguagens que constituem o universo da leitura na sociedade contemporânea. As professoras de Ciências e de Língua Portuguesa citam Paulo Freire e sua concepção do ato de ler, assim, definem a leitura como uma forma de ver o mundo, de entender a realidade; a leitura da palavra dependendo da leitura de mundo, das experiências vivenciadas por cada pessoa para atribuir sentidos ao que lê. Comungando com Freire (2006), elas entendem a leitura como

[...] uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. (FREIRE, 2006, p. 11)

Em relação à leitura do código escrito as professoras de Geografia e Matemática apontam que ler é saber interpretar, compreender o que está sendo lido. O professor de História ao definir a leitura busca elementos no processo histórico de construção da escrita para explicar sua compreensão, afirmando que a escrita é a materialização do pensamento e a leitura é a decodificação desse pensamento. No entanto, sua compreensão não se restringe apenas a decodificação da escrita, extrapola para a decodificação que se faz nos diversos ambientes internos e externos à escola.

Para esse professor, a leitura na escola não tem levado em consideração a cultura local do aluno, especificamente a cultura oral, silenciando-a por meio de práticas impositivas. Segundo o professor, a escola tenta matar a tradição oral, quando deveria fazer a ponte entre a oralidade e a escrita. Referindo-se ao contexto em que seus alunos estão inseridos, ele aponta algumas tradições culturais que tem como meio de comunicação a oralidade, que não são valorizadas pela escola a exemplo da “Bata do feijão” 39, indicando assim uma oposição entre cultura oral dos alunos e cultura escrita escolar que não deveria existir. Nesse sentido, suas posições estão de acordo com o trabalho de Frago (1993) ao afirmar que a sociedade alfabetizada:

[...] ignora e desvaloriza – como não sendo cultos – os modos de expressão e pensamento das culturas orais. Uma sociedade que parte do suposto – errôneo e pernicioso suposto – de que a alfabetização e a cultura escrita podem organizar-se – construir-se, viver a margem da linguagem e cultura orais ou assentar-se sobre o olvido e a depreciação de ambos. (FRAGO, 1993, p.20)

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Para o autor, a prática usual da escola, ao exigir que o aluno fale como o livro, tem convertido a fala em silêncio. No entanto:

[...] a linguagem é um fenômeno oral, porque o homem é um ser que fala – que pensa com a fala e que fala como e quando pensa –, porque só uma mínima parte das línguas faladas possuíram ou possuem textos escritos, porque a quase totalidade dos textos literários - desde a Ilíada e a Odisséia até, ao menos, o Renascimento – foram elaborados a partir da oralidade e recriados, transmitidos e recebidos por via oral e porque em todo texto escrito – mesmo naqueles lidos de modo silencioso ou mental – ressoa o eco do oral [...] (FRAGO, 1993, p. 21)

De maneira geral, percebe-se nas definições de leitura, expostas nos dados, diversas práticas de leitura. Essas definições convergem para os estudos de Chartier (1999) sobre as “práticas de leitura”. Para este autor, a leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados, assim, toda leitura supõe, em seu princípio, a liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor. Sendo que esta liberdade não é absoluta, é cercada por limitações derivadas das capacidades, convenções e hábitos que caracterizam, em suas diferenças, as práticas de leitura.

Com base em Silva, aqui é importante destacar que:

Todo ser humano normal possui um potencial biopsíquico para atribuir significados as coisas e aos diferentes códigos (verbais e não verbais) que servem para expressar ou simbolizar o mundo. Esse potencial é desenvolvido no seio do grupo social através de práticas coletivas específicas e dentro de condições concretas que estabelecem a sua potencialidade.[...] A leitura é, fundamentalmente, uma prática social. Enquanto tal, não pode prescindir de situações vividas socialmente, no contexto da família, da escola, do trabalho, etc...Todos os seres humanos podem se transformar em leitores da palavra e dos códigos que expressam a cultura[...] (SILVA, 1993, p. 47 – grifo do autor)

Nessa perspectiva, pode-se afirmar que todo aluno pode aprender a ler, a atribuir significados, cabendo à escola criar situações concretas de leitura – rodízios de leitura para que o aluno possa manusear os diversos portadores de textos em sala de aula; empréstimos de livros disponíveis a biblioteca; criação de um ambiente alfabetizador na escola por meio de murais, cartazes, etc., leitura oral pelo professor de textos diversos em sala de aula; – saindo da superficialidade e assumindo uma posição mais próxima da realidade dos alunos, em que os motivos para ler sejam verdadeiramente compartilhados.