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Part 1: Extended abstract

2  Theory

2.2  Argumentation, rhetoric, language

Os dados do inglês e do holandês deixam claro que médias não-marcadas não correspondem, necessariamente, a uma média sem a representação de um Agente. O que a tradicional divisão entre médias marcadas – derivadas a partir de uma estrutura passiva em línguas românicas – e médias não-marcadas – derivadas a partir de uma estrutura transitiva/inergativa – deixa explícito é que as médias do primeiro grupo têm um argumento implícito projetado, enquanto médias do segundo grupo parecem ter algum ingrediente semântico que deriva alguns efeitos de agentividade, mas não todos. As médias não-marcadas do PB, por outro lado, não possuem esse ingrediente semântico encontrado em médias do inglês e do holandês e são sentenças inacusativas genéricas. A pergunta que deve ser respondida, então, é se médias podem não envolver agentes. Ou

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mais explicitamente: se, com a perda do SE, pode-se afirmar que o PB continua a ter eventualidades médias ou que sentenças como Essa roupa lava fácil são, somente, inacusativas genéricas. Consultemos alguns trabalhos para discutir essa questão.

Schäfer (2008:211-245) desenvolve uma análise diferente da de trabalhos prévios para médias do alemão. Para o autor, médias nessa língua são sentenças anticausativas que devem ser marcadas para que a implicatura de um agente seja construída na interface conceptual-intencional. Alguns exemplos parecem demonstrar isso. Verbos que formam anticausativas marcadas serão também marcados quando formam médias e, portanto, não podem nos dizer muito sobre a estrutura de médias genéricas (nessa língua). Os grupos interessantes a serem explorados são: verbos inacusativos puros – que não participam da alternância causativa – e verbos que não são marcados em anticausativas.

Prestemos atenção no primeiro grupo, os verbos inacusativos puros (internamente causados na terminologia de Levin e Rapapport, 1995). Eles são representados por verbos como florescer, por exemplo. Como esses verbos não alternam, eles não podem formar anticausativas marcadas em alemão, como (121) mostra. Em consequência, médias não- marcadas também não podem ser formadas (122). A única possibilidade é uma sentença como (120), que pode se analisar como média, a depender da teoria seguida, mas que se comporta como uma inacusativa genérica.

(120) Blumen vertrocknen leicht

flowers wither easily

‘Flores murcham fácil.’

(121) *Hans vertrocknet die Blumen John withers the flowers ‘João murcha flores.’21

(122) *Blumen vertrocknen sich leicht

Flowers wilt refl easily

21 Uma sentença como (121) é boa em várias línguas (inglês, hebraico, grego e português brasileiro, por exemplo) se a interpretação for de que João faz algo para causar que a flor fique murcha. Por exemplo, João pode colocar as flores perto do fogo ou deixar de colocar água nelas por um tempo. Perceba que, nesses

casos, João é uma causa, já que ele facilita o processo de ‘murchamento’ das plantas ao fazer ações que

acelerem tal processo (colocar as flores perto do fogo) ou ao não fazer ações que impediriam tal processo (deixar de colocar água nelas). Quando verbos internamente causados alternam, isso é o que acontece: o DP argumento externo é sempre uma Causa, mesmo que a referência seja a um humano. O DP sempre fará uma ação que acelerará um processo natural da entidade correspondente ao DP objeto.

Presumivelmente, a sentença (121) foi julgada como agramatical em uma interpretação agentiva ou, em alemão, verbos internamente causados não podem aparecer em sentenças causativas compatíveis com a descrição dada acima.

151 ‘*Flores se murcham fácil.’

(SCHÄFER, 2008:227)

É, então, curioso que verbos que não podem ter um Agente como argumento externo não possam formar médias marcadas no alemão. A marcação parece, de fato, estar relacionada com a implicação – para usar um termo de Schäfer (2008) – de agentividade. Uma outra evidência a favor dessa ideia é o fato de que anticausativas não- marcadas podem formar médias marcadas. As sentenças (123) e (124) mostram que o verbo schmelzen ‘derreter’ alterna entre uma forma causativa e uma anticausativa. A forma anticausativa em (124) é agramatical, se marcada.

(123) Hans schmilzt das Eis.

Hans melts the ice

Joao derrete o gelo.

(124) Das Eis schmilzt (*sich).

The ice melts (*refl) O gelo se derrete.

(SCHÄFER, 2008:226)

Como esse é um verbo que tem implicatura de Agente, a sentença média feita a partir dele pode ser marcada. Se marcada, a interpretação de Agente se torna disponível. Assim, (125) teria uma interpretação de sentença inacusativa genérica, enquanto, em (126), a interpretação de agente está envolvida.

(125) Zinn schmilzt leicht

Solda derrete fácil.

(126) Zinn schmilzt sich leicht

Solda derrete SE fácil.

(SCHÄFER, 2008:226)

Isso leva o autor a formular um quadro em que as condições em que uma interpretação de agente em sentenças médias vai ser formada na interface conceptual- intencional são estabelecidas. O quadro abaixo é uma tradução adaptada do quadro em Schäfer (2008:230).

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Estrutura sintática Implicatura do Agente

a. [V...] Não b. GEN+[V...] Não c. [Voice–expl. [V....]] Não d. GEN+[Voice–expl. [V....]] Sim

e. [Voiceag [V....]] Não se aplica/Agente já

está presente na sintaxe

Quadro 4: formação de implicatura no agente

A tendência geral que se vê no quadro é a de que a interpretação de Agente só estará presente se a projeção de Voice e genericidade estiverem presentes. Assim, somente um verbo, como em ‘a’, ou um verbo abaixo de um operador genérico (lembrando que sentenças médias são genéricas), como em ‘b’, não levariam à implicatura de agente. Se Voice estiver presente, mas não a genericidade, como em ‘c’, por exemplo, a sentença não será interpretada como uma média, já que tem tempo especificado.

A estrutura em ‘b’ é a estrutura de sentenças inacusativas genéricas e se uma língua, como o PB, faz uso desse expediente para formar médias, pode-se falar que não há médias nessa língua, só sentenças inacusativas genéricas. Levando essa discussão em consideração, então, pode-se reformular o que foi dito anteriormente. Ao invés de se dizer que as médias não-marcadas do PB são inacusativas genéricas, pode-se dizer que o PB perdeu a possibilidade de expressar um evento médio, tal como definido aqui, em virtude da perda de SE e, consequentemente, de pro. Como também foi salientado acima, repare que esse não é o único caminho de uma língua quando perde Voice. O PB poderia ter adotado uma estrutura tal como se vê em inglês ou em holandês, em que, supostamente, há uma projeção de Voice sem uma morfologia característica. Até o momento, essa estratégia não vingou em PB, contudo.

Essa não é a única possibilidade de análise. Schäfer (2008) e Lekakou (2005, 2008), seguindo uma pronunciada tendência em estudos sobre sentencas médias, concebem esse tipo de sentença como dotado de um Agente. Como Fábregas e Putnam (2014:240) apontam, entretanto, com o abandono de regras estruturais de formação (phrase structural rules, no original), é incoerente que concebamos que um dado tipo de sentença tenha de ter todas as características notadas em uma língua ou em outra língua. Assim, características semânticas que foram associadas às construções médias à medida que os estudos avançavam, como i) disposicionalidade (dispositionality), ii) propriedades

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internas do objeto facilitam a ação descrita pelo verbo (by-virtue-of reading), iii) leitura de propriedade e não de evento (kind-denotation) e iv) sujeitos não-agentivos (porque médias descrevem um estado e não um evento) não precisam estar juntas. Obviamente, deve-se encontrar propriedades básicas para as construções em estudo. Uma das contribuições deste capítulo, então, é mostrar que agentividade não é tal propriedade.

Fábregas e Putnam (2014) também separam as médias das línguas em dois grupos: aquelas em que Agentes estão disponíveis e aquelas em que não estão. Diferentemente de Lekakou (2005: cap.3), que argumenta que o Agente presente em médias se deve à presença ou não de morfologia imperfectiva na língua, 22 ou de Schäfer (2008; cap.6), que correlaciona a existência de médias marcadas ou não-marcadas com a marcação de anticausativas, Fábregas e Putnam (2014) argumentam que a presença do Agente ou não está ligada à presença de uma variável de evento na estrutura.

Mais explicitamente, se a língua se utilizar de uma construção em que uma variável de evento esteja presente, o Agente também estará sintaticamente presente, já que um Agente pressupõe um evento. Por outro lado, se a língua se utilizar de uma construção estativa para derivar médias, o Agente não estará presente, porque Agentes não se combinam com estados. O estudo se concentra em médias do norueguês e do sueco. Os testes de gramaticalidade que os autores fizeram sugerem que: em estágios anteriores, tanto o norueguês quanto o sueco empregavam passivas adjetivais para formar médias. As gerações mais jovens de noruegueses, todavia, atribuem leituras médias a passivas verbais. Passivas adjetivais não mostram indícios de um Agente sintaticamente representado, enquanto passivas verbais sim.

Observe os exemplos do norueguês abaixo que demonstram isso. Enquanto passivas verbais licenciam uma by-phrase, passivas adjetivais não licenciam tal elemento. Há uma série de análises para esse fenômeno. A justificativa dos autores para o licenciamento de uma by-phrase em passivas verbais, mas não em passivas adjetivais, é a presença da projeção de argumento externo (v, para eles), que, por sua vez, está ligada à presença de uma variável de evento.

(127)a. Dette stoffet vaske-s lett av alle fordi

Este tecido lava-pass facilmente de todos porque

det har en utforming som avviser skit.

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EXP tem uma composição que rejeita sujeira.

‘Esse tecido é fácil de qualquer um lavar porque a sua composição química repele sujeira.’

b. Dette stoffet er lett-vaske-t (*av alle)

Este tecido é fácil-lav-ado (*por todos)

‘Este tecido é facilmente lido por qualquer um.’

(FÁBREGAS & PUTNAM, 2014:198)

O sueco usa passivas adjetivais para formar médias, portanto uma by-phrase não está presente em médias, como (128) demonstra. Se a análise desses autores estiver certa, a by-phrase não é licenciada em médias do sueco porque a variável de evento não está presente.

(128) Den här boken är lätt-läst (*av nunnor)

Esse aqui livro-def é fácil-lido (*de freiras)

“Esse livro é facilmente lido por freiras.’

(FÁBREGAS & PUTNAM, 2014:198)

Um exemplo que evidencia melhor a análise de que a média do norueguês tem uma variável de evento, e a do sueco não, é a possibilidade de usar modificadores que atestam que o evento pode ser feito repetidamente.23 O licenciamento de tais

modificadores é possível em passivas verbais do norueguês, mas não em passivas adjetivais do sueco, as construções que essas duas línguas usam para fazer médias.

(129)Denne typen produkt bruke-s med hell mange

Esse tipo produto usa-pass com sucesso muitas

23 Repare que verbos estativos, os quais, na análise de alguns autores, também não possuem variáveis de evento (cf. Kratzer (1995)), também não aceitam expressões adverbiais que indicam repetição do evento em suas acepções neutras.

i. João sabe matemática #três vezes. ii. João conheceu a Maria #três vezes.

Em contextos metafóricos e com pequenas mudanças de significado, essas expressões são mais toleradas, por exemplo João soube da morte do pai três vezes, significando que ele foi comunicado sobre esse evento em três ocasiões diferentes.

Como o leitor pode ver, essa acepção é diferente da que se vê em (i), já que não se sabe matemática por meio de uma comunicação de um evento por alguém.

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ganger før det må bli erstattet.

vezes antes EXP deve ser reposto.

“Esse tipo de produto pode ser usado muitas vezes antes de ter de ser reposto.”

(130)Den här sortens produkt är (*mange ganger) lätt-använd.

Esse aqui tipo produto é (*muitas vezes) fácil-usado.

“Esse tipo de produto pode ser usado muitas vezes.”

(FÁBREGAS & PUTNAM, 2014:213-214)

Embora o estudo dos autores não trate da interessante questão de por que o sueco usa passivas adjetivas para formar médias se possui passivas verbais do mesmo tipo das do norueguês, esses fatos parecem mostrar que a ideia da obrigatoriedade de agentes em médias tem, de fato, que passar por uma revisão não só porque as construções que aparecem nas línguas não são mais concebidas como prontas desde o advento do Minimalismo, mas porque a presença de um agente, por exemplo, é fruto de um ingrediente mais básico, indicativo dos formativos de que a língua dispõe para fazer eventos.

Assim, médias marcadas e não-marcadas do PB indicam que, na falta de Voice, a variável de evento não é mais projetada e, consequentemente, o agente deixa de ser representado. Veja a diferença de gramaticalidade entre os exemplos (131), de uma média não-marcada quando modificada por muitas vezes, e (132), de uma média marcada.

(131) *Esse tipo de roupa usa muitas vezes antes de ter que jogar fora. (132) Esse tipo de roupa se usa muitas vezes antes de ter que jogar fora.

Como vimos, a perda do SE em PB acarretou uma série de mudanças em médias. Mais uma delas que talvez permita distinguir as médias do PB de médias do inglês é que, nessa última língua, as médias possuem uma variável de evento (o que se correlaciona com a presença de Voice nessas construções). Não parece adequado, então, assumir que as médias não-marcadas do PB não são médias só porque não têm Agentes expressos.

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