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8. HUMAN AND ANIMAL BONE FROM SØMME

8.4 SITE 9

8.4.1 Area A

A poesia de Cabral e a de Jorge Guillén são exemplos de que o processo poético não consiste exclusivamente na explosão de sentimentos. Nesse sentido, a razão existe e é necessária para regular não apenas o sentimento, mas também delimitar os níveis da composição entre fantasia e realidade. Nessa direção, a atuação da razão vai mais adiante, no sentido de trazer para o poema formas lógicas, tais como: sua estrutura, as organizações do raciocínio e não apenas elementos intelectuais. Caso a intelectualidade prevalecesse, não haveria objeção possível contra a essência racional da poesia.

Essa talvez seja a razão do riguroso horizonte, referendado na epígrafe do poema “Psicologia da Composição” (1947), que desperta em João Cabral o fascínio pela estética da poesia de Jorge Guillén. O verso epígrafe da obra cabralina abre o poema “El horizonte”, do livro Cántico, obra publicada pela primeira vez em 1928, com 75 poemas. De acordo com as assertivas de Díez de Revenga (1993), a produção poética de Jorge Guillén está distribuída em cinco séries: Cántico, Clamor, Homenaje, Y outros poemas, Final, e todo o conjunto da obra recebe o título genérico de Aire Nuestro. Cántico ampliou-se a cada edição até alcançar 334 composições que constituem a quarta e definitiva edição, em 1950, tendo como subtítulo Fé de vida, sendo uma exaltação à perfeição do universo.

“El mundo está bien hecho” (o mundo está bem feito), assim disse Guillén diante do espetáculo da realidade da criação. Atento apenas ao essencial, a linguagem poética de Guillén caracteriza-se por sua extraordinária concisão, uma vez que elimina os excessos, os elementos decorativos (a música, a cor), faz uso de extrema economia expressiva, de forma que sua poesia, convertida em pura emoção lírica, adquire tanta densidade que sua leitura resulta numa difícil compreensão, conforme observaremos nos versos de El horizonte33, a

seguir:

33 GUILLÉN, Jorge. El horizonte. In: Obra Completa: Aire nuestro; Cántico; Clamor. Barcelona: Tusquets

El horizonte Riguroso horizonte.

Cielo y campo, ya idénticos, Son puros ya: su línea. Perfección. Se da fin A la ausencia del aire, De repente evidente. Pero la luz resbala Sin fin sobre os límites. ¡Oh perfección abierta! Horizonte, horizonte Trémulo, casi trémulo De su don inminente. Se sostiene en un hilo La frágil, la difícil Profundidad del mundo. El aire estará en colmo Dorado, duro, cierto Trasparencia cuajada. Ya el espacio se comba Dócil, ágil, alegre Sobre esa espera – mía.

O horizonte Rigoroso horizonte. Céu e campo, idênticos, São puros já: sua linha. Perfeição. Dá fim À ausência do ar, Subitamente evidente Mas a luz desliza

Sem fim sobre os limites. Óh! Perfeição aberta! Horizonte, horizonte Trêmulo, quase trêmulo De seu dom iminente. Se sustenta num fio A frágil, a difícil Profundidade do mundo. O ar estará cheio

Dourado, duro, certo Transparência solidificada. Já o espaço se curva Dócil, ágil, alegre

Sobre essa espera – minha.

Guillén (2010, p. 191)34

No poema “El horizonte” – apesar de tratar-se de um poema de contexto contemplativo –, encontramos elementos que trazem componentes no seu léxico, os quais apontam para a concretude do poema, como os substantivos que sintetizam a objetividade poética, ao mesmo tempo, configuram a materialidade do poema, são eles: cielo y campo, aire e luz, respectivamente adjetivados por: puros, dourado, duro e certo, atingindo sua perfeição métrica numa transparência solidificada. Esses elementos semânticos compõe, dentro do seu contexto lírico, uma unidade perfeita quase sufocante, conforme expressam os versos da segunda estrofe: Perfección. Se da fin/ a la ausencia del aire,/ de repente evidente.

A proposta de Guillén em traduzir por meio de seus versos o lado riguroso da poesia leva-o a selecionar os elementos sintáticos configurados por signos concretos, é o caso do uso do substantivo que tem lugar destacado e que estabelece uma relação de concretude com o

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objeto poético. Nesse caso, o nome indica uma área de concentração estabelecida pelo poeta, isto é, sua zona de consciência física, pois, apesar de parecer uma poesia metafísica, o poeta tem consciência da materialidade poética articulada pelos processos de linguagem. Desse modo, ao passo que a “pura linha” traça El horizonte como elemento unificador do poema, configura-o como sujeito que aproxima os vínculos de construção do espaço contemplativo, devidamente identificados: cielo y campo.

Pode-se, ainda, observar que na construção do poema El horizonte, a delimitação de um espaço, embora contemplativo, é o primeiro efeito da materialidade substantivada e que provoca um falseamento da necessidade de sua determinação, ou seja, da concretização do espaço, apresentando-se das seguintes formas:

1) espaço extenso ou físico – céu e campo – que, apesar de delimitados e ligados por uma tênue linha, são idênticos;

2) espaço interior – podendo ser atemporal, medido pela ausência do ar, também delimita a infinitude entre os limites;

3) espaço ideal – infinito, configurado pelo horizonte que expõe a linguagem poética de forma pura, sem excessos metafóricos e rebuscamentos. Seria a construção estética do poema sem estar agregada aos limites, às normas, definida como a perfeição aberta, conforme referência na terceira estrofe: Pero la luz resbala/ sin fin sobre os límites35;

4) espaço da palavra – refere-se ao desdobramento do poema no contexto da sua estrutura e fazendo alusão à perda da transparência da palavra poética a qual adquire densidade própria. Nisso, os elementos semânticos fazem referência a outros signos dentro do poema e não a um significado.

Por meio de todas essas formas, poderíamos dizer que o espaço da palavra, em el horizonte está configurado nos versos El aire estará en colmo/ dorado, duro, cierto./ Trasparencia cuajada36. Metaforicamente, temos a palavra poética no seu contexto, pura, desnuda e totalmente solidificada. Assim sendo, temos, de fato, um exemplo da poesia pura da qual Jorge Guillén mostrou-se adepto.

A partir da segunda década do século XX, a literatura francesa criou uma nova discussão em relação à criação poética daquele momento, denominada de poésie pure. O conceito, no entanto, não tem significado bem definido. A poesia pura distingue-se pela utilização de todos os recursos da linguagem literária. Ela é, então, vista como um contrapeso

35 Porém a luz desliza infinita sobre os limites (tradução livre).

saudável para o lirismo tradicional, que enfatiza em demasiado a mensagem do texto em detrimento de sua forma e estilo.

Definida como uma poética de tessitura precisa e matemática, a poesia pura seria o despojamento da expressão poética de todo elemento contaminante e estranho ao contexto do poema, conforme o conceito do abade Henri Brémond, expresso no seu ensaio La poésie pure (1925). Define-se também como tessitura simples, que implica essencialidade na criação poética, tendo a seguinte relação: poesia pura = poesia simples. No entanto, não se trata de uma criação simplicista, desleixada, sem elaboração. Ao contrário, a tessitura da poesia pura mostra-se rigorosa na seleção dos elementos e complexa no processo de compor a unidade poética – poema e poesia – num contexto humano e realista sem realce demasiado, pois há todo um cuidado de não tornar sua composição sufocante e cansativa.

Esse contexto poético é observado na poesia de Guillén, que, pela sua atitude diante da linguagem, adota uma postura menos teórica e mais direta que a dos seus contemporâneos. Para Guillén, era indispensável identificar o grau máximo entre poema e poesia, por isso se preocupou com a palavra, seus efeitos e desdobramentos, foi criterioso na seleção e composição de frases e vocábulos, favorecendo a forma de como agrupá-las na tessitura do poema.

Conforme as inferências de Ricardo Gullon (1949), todo esse processo de mecanismos, significados e ritmos do signo poético, que provoca no leitor sensações distintas, faz da poesia de Guillén uma poética do intelecto. Por sua vez, os estudos de Alvar, Mainer e Navarro (2011) fazem inferências sobre o intelectualismo de Jorge Guillén, como resultado da influência absorvida pela tradição da poesia intelectual advinda da clareza e objetividade linguística e do rigor estético da poética de Góngora.

Outro traço vem da linha do simbolismo de Mallarmé. Observando a tessitura guilleniana, há quem afirme que o poeta espanhol não se preocupou com reflexões poéticas e sim em cantar a poesia. Outro indício de que a marca da intelectualidade da poesia de Guillén provém do conceito de poésie pure, de Paul Valéry, é que este, além de contemporâneo, foi atento receptor de sua obra, com quem mantinha afinidades literárias. Tais afinidades podem ser observadas na poesia guilleniana na qual, como em Valéry, além do hermetismo, percebe- se uma tendência à abstração que une o conceptual ao sensível, à ideia aos sentidos. Segundo Hugo Friedrich (1978), a lírica intelectual de Guillén configura a linha de uma poesia abstrata, a consciência da linguagem, a formulação matemática e um conceito de poesia objetiva.