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Os cinco professores selecionados para observação das oficinas ministradas aos familiares e as crianças abordaram todos os tópicos propostos durante o planejamento. Além disso, os professores abordaram estes tópicos de maneira adequada, com atividades e linguagem adequadas aos participantes.

Referente às oficinas para os pais, os conteúdos propostos, durante a fase de planejamento com os professores foram os seguintes: Conceituação do abuso sexual (o que é abuso sexual?); Conseqüências do abuso sexual para o desenvolvimento da criança; Como identificar a suspeita de abuso sexual, ou seja, os sintomas específicos e inespecíficos que a criança poderia apresentar; Legislação em vigor (como proceder segundo o ECA diante de uma suspeita de abuso sexual); Como denunciar (onde e o que dizer). Dentre as oficinas proferidas para os pais, em todas elas os professores abordaram os cinco conteúdos propostos, sendo que não houve negligência de nenhum dos tópicos a serem abordados.

Com relação à adequação dos conteúdos, linguagem utilizada e atividades para desenvolvê-los, em todas as oficinas com os pais, os professores utilizaram linguagem simples e compreensível considerando a população alvo, além de atividades simples, objetivas e diretas.

Nas atividades para o primeiro conteúdo, o que é abuso sexual, a maioria dos professores (p1, p2, p4 e p5) fez uma exposição oral da conceituação. Os cinco professores (p1, p2, p3, p4 e p5), apresentaram a conceituação de forma adequada, expondo-a de maneira clara, com linguagem simples e não houve questionamentos após o encerramento da discussão (o que poderia sugerir entendimento entre os participantes). A professora 3 utilizou uma atividade diferente das demais: antes de expor os conceitos, propôs que os familiares falassem o que entendiam por abuso sexual, e em seguida fez explicações do que era e o que não era considerado abuso com base no que foi apresentado por eles. Nesta oficina os pais realizaram um amplo debate, fizeram muitas questões e após o término não

questionaram mais (o que poderia sugerir o entendimento). Se forem comparadas as dinâmicas, aquela utilizada por p3 parece ter “envolvido mais” os pais e propiciado maior freqüência de questionamentos.

Em relação às atividades sobre as conseqüências do abuso sexual para a criança, p1, p4 e p5 fizeram uma exposição oral sobre quais seriam essas. P2 entregou uma lista contendo as conseqüências para que os pais pudessem ler e discutir entre eles se concordavam ou se tinham algumas outras idéias e em seguida fez uma ampla discussão no grupo todo. A estratégia utilizada por p2 foi bastante interessante no sentido de dar espaço para as pessoas falarem e questionarem, uma vez que os familiares estavam em grupos menores e puderam se colocar com mais facilidade do que no grupo maior. P3 fez um exercício semelhante ao realizado por ela quando tratou da conceituação de abuso sexual: os pais deveriam listar quais as conseqüências para a criança decorrentes de sofrer abuso sexual que eles já sabiam e, posteriormente, a professora identificou aquelas corretas e as incorretas, explicando o porquê. Neste item também, a estratégia utilizada por p3 gerou bastante discussão e levantamento de questionamentos.

A estratégia utilizada pelo professores para tratar da identificação de possíveis sintomas da criança que sofre ou tenha sofrido abuso sexual foram idênticas em todas as oficinas. P1, p2, p3, p4 e p5 repetiram o mesmo exercício utilizado com eles no curso ministrado pela pesquisadora: passar uma lista com os sintomas e pedir que separassem os sintomas específicos e inespecíficos, justificando a escolha. Posteriormente, foi feita uma discussão no grupo todo sobre quais seriam os sintomas específicos e os inespecíficos e por que. Em todas as oficinas os familiares participaram ativamente neste exercício, apresentando uma série de questionamentos.

Exceto por p1 que apresentou oralmente as leis do ECA e depois fez um exercício sobre o que a legislação diz e o que os participantes efetivamente fariam diante de uma suspeita, todos os demais professores (p2, p3, p4 e p5) utilizaram um mesmo exercício para

abordar os dois últimos conteúdos, legislação e como denunciar. Este exercício foi utilizado com os professores no curso ministrado pela pesquisadora e encontra-se no capítulo 3 descrito na 2ª parte do 4º. Encontro.

Os conteúdos abordados pelos professores nas oficinas para as crianças foram: como manifestar opiniões sem ser agressivo ou passivo (treino de assertividade), o que fazer em situações de ameaças e segredos e saber nomear pessoas em quem confia. Dentre as oficinas proferidas para as crianças, os professores abordaram os conteúdos pertinentes em todas as oficinas.

Com relação à adequação dos conteúdos, linguagem utilizada e atividades para desenvolvê-los, em todas as oficinas com as crianças, os professores utilizaram linguagem simples e compreensível considerando a população alvo, além de atividades simples, objetivas e diretas.

Para o treino de assertividade, p1 utilizou histórias, situações do dia a dia da criança e algumas brincadeiras para ensiná-las a dizer não e pedir para a outra pessoa parar quando estiver fazendo algo que a criança não goste. Os demais professores utilizaram histórias e situações do cotidiano da criança. A história mais utilizada foi “Maria vai com as outras” (Orthof, 2000), em que a personagem principal é uma garotinha que não sabe dizer não e concorda sempre com o que os outros dizem. Os professores liam a história com as crianças e discutiam sobre estar correto ou não sempre concordar com os outros e o que a criança poderia fazer caso não concordasse. Foram também trabalhadas situações corriqueiras, envolvendo fatos possíveis de acontecer no dia a dia da criança (ver os exemplos de situações utilizadas no capítulo 3 nos encontros 10, 11 e 12 referentes ao planejamento das atividades práticas). P1 utilizou também uma brincadeira chamada “Siga o chefe”, em que discutia se as crianças deveriam fazer tudo o que os outros mandavam.

Em situações de ameaça e segredo, p2, p3, p4 e p5 utilizaram histórias e situações do dia a dia da criança, enquanto que p1 além dessas utilizou também desenhos como uma das

atividades. A história mais utilizada foi “Pinote o fracote e Janjão o fortão” (Orthof, 1999), em que dois personagens retratam as diferenças de força e poder em uma relação e o que o mais fraco pode fazer em uma situação desta.

Para nomear pessoas em quem confiaria, a maioria das professoras usou histórias do dia a dia da criança, exceto por p1 que também utilizou desenhos e brincadeiras. Uma atividade que ela utilizou combinava brincadeira e desenho - “Gente que mora dentro da gente” - em que as crianças têm de desenhar pessoas que “moram” dentro dela, ou seja, em quem ela confiaria.

O planejamento com os professores acerca das atividades práticas e a observação de algumas oficinas permitiu identificar o grau de envolvimento dos profissionais com as atividades. As estratégias utilizadas foram selecionadas com cuidado a partir de critérios de adequação ao assunto e ao público alvo. Além disso, os próprios professores selecionaram o material (histórias, situações corriqueiras, músicas, brincadeiras) e trouxeram para discussão durante o planejamento. A interferência da pesquisadora somente se deu na discussão sobre a adequação do material.

Durante a realização das oficinas com as crianças houve um caso que ilustra os resultados dessas oficinas. A pesquisadora teve acesso ao relato de uma criança que participou das oficinas, pois esta é sobrinha de uma funcionária da Universidade. A criança ao chegar a casa disse à mãe que se acontecesse algo de que ela não gostasse ou alguém pedisse para ela guardar segredo ela iria direto contar para a sua mãe e para a professora.

Outro dado obtido por meio de conversas informais com os professores que ministraram as oficinas, e que foi registrado no Diário de Campo foi a informação de que os professores pretendem dar continuidade às oficinas, realizando tanto as oficinas para as crianças quanto para os familiares nos anos seguintes. Estudos futuros poderiam verificar quantos professores se mantiveram realizando tais oficinas e quais os motivos de dar

continuidade ou não, além do formato dessas oficinas (se continua o mesmo ou sofreu alterações) e medidas de verificação do desempenho dos participantes.