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Ao final deste estudo, tecemos algumas considerações que julgamos pertinentes destacar e como forma de síntese. Iniciamos com a caracterização do grupo pesquisado. Os participantes tinham diferentes características sociais, demográficas e históricas de uso de drogas, com histórico de uso pesado de álcool e vivência de conseqüências adversas à sua saúde, com interferência negativa em todos os aspectos de sua vida: pessoal, familiar, social e econômica. Desequilíbrios, estes, tão bem conhecidos, quando se fala de dependentes químicos, independente do tipo de droga abusada.

Ao longo do processo saúde-doença, os sujeitos demoraram a buscar o tratamento para o alcoolismo por vários motivos, dentre eles se destaca o fato de não reconhecerem estar convivendo com tal problema. Antes da chegada no AA, os participantes mencionaram a busca de ajuda espiritual/religiosa, dos serviços de saúde e de um grupo de auto-ajuda para o das conseqüências do alcoolismo.

Nos relatos, não houve menção ou ênfase dos serviços de saúde como dispositivos de apoio eficazes no tratamento do alcoolismo, fato que pode ter contribuído para o primeiro contato dos participantes com AA através, principalmente, da indicação de outros membros desse grupo.

Por motivos como aceitação e acolhimento, os sujeitos identificaram-se com o programa proposto pelo AA e inseriram-se no mesmo, objetivando a sobriedade. Relataram como era sua vivência no grupo de auto-ajuda, enfatizando a contribuição deste para a saúde, não somente pelo fato de favorecer o restabelecimento da saúde, mas, também, por ofertar subsídios para o empowerment e proporcionar reinserção social de pessoas com histórico de exclusão social.

O grupo de auto-ajuda funcionava como dispositivo de apoio aos sujeitos estudados desde o acolhimento, perpassando pela oferta de um programa que possui metas atingíveis e por funcionar como espaço para que o alcoolista pudesse expressar-se, incluindo a expressão das adversidades que ainda surgiam no convívio com uma doença incurável, como o alcoolismo.

Além disso, apontamos o grupo de auto-ajuda enquanto dispositivo de apoio para o alcoolista à medida que se articulava com os demais dispositivos da rede de apoio, fortalecendo-se enquanto tal.

As políticas públicas de saúde que versam sobre o uso de drogas psicoativas indicam essa articulação entre os diversos dispositivos para a organização de uma rede de apoio ao dependente químico. No entanto, como os grupos de auto-ajuda, uma vez que os vários serviços de saúde estão conectados através de estratégias, como a referência e contra-referência, que, muitas vezes, não acontece na prática assistencial.

O AA é um grupo que se articula sem fins lucrativos e sem qualquer auxílio que não proceda de um membro do grupo. Ele tem se mostrado eficaz no lidar com o alcoolismo de algumas pessoas e avaliado como uma estratégia positiva, por isso merece ser valorizada e ser utilizado por outros dispositivos de apoio a esta clientela.

Consideramos que este estudo traz contribuições importantes ao desvelar o universo do alcoolista inserido no AA e o modo como este grupo de auto-ajuda se constitui como dispositivo de rede social de apoio ao dependente químico. Reforçamos ainda, que o presente estudo voltou-se para a apreensão do modo como um grupo de auto-ajuda se constitui como dispositivo da rede de apoio social a partir dos relatos de alcoolistas, em detrimento da expressão quantitativa do fenômeno estudado, o que o torna limitado neste aspecto. Ao mesmo tempo, é necessária a realização de outras pesquisas que tragam mais subsídios teóricos e práticos para que profissionais da saúde possam melhor atuar no contexto da dependência química.

Conhecer as várias possibilidades de ajudar a resolver tão complexa problemática, favorece, também, a reflexão sobre o que está definido como política pública e a prática assistencial que vem se delineando no novo cenário da atenção em saúde mental, representado pelos novos dispositivos de atenção, como os CAPS AD e outros serviços especializados para lidar com este tipo de clientela.

Com base na realidade apreendida, refletimos, ainda, sobre a necessidade de, nós profissionais de saúde, notadamente os enfermeiros, nos engajarmos mais na luta contra o uso de drogas psicoativas, tendo uma

atuação mais decisiva na construção de políticas e práticas que percebam e atendam esta condição como uma problemática de saúde pública, complexa e que necessita de ações intersetoriais. Dada esta complexidade, esta participação necessita de algumas condições primordiais, entre elas: atuação resolutiva nos vários níveis de atenção, notadamente no primário; competência técnica, ética e política para se fazer resolutivo; reconhecimento da importância de outros conhecimentos e dispositivos de apoio; realização de parcerias como estratégia de cuidado e inserção social.

Outro ponto que queremos destacar é a necessidade de investir na construção de mais serviços públicos que assistam estas pessoas e na formação de profissionais com competência específica para tal atenção.

Ao final de todo este processo de tecer a trajetória destas pessoas, na sua relação com a dependência química e sua inserção no AA, e construir teoricamente a realidade apreendida, deixamos como contribuição final a partilha de uma de nossas inquietações, questionando: Como que a dependência química se constitui como problemática de saúde e temos em um dispositivo informal de apoio o mais eficiente instrumental de recuperação do usuário?

Consideramos que temos muito a aprender com estes dispositivos, destacando-se, o modo como acolhem, respeitam e lidam com esta pessoa, considerando-a, antes de tudo, alguém com potencial para mudar e reverter a condição de sofrimento vivenciada, não só por ela, mas por todos que a cercam.