Entre as diversas manifestações e correntes de pensamento sobre a cidade, surgidas na Europa no final do século XIX, o urbanismo alemão destacou-se pelos seus princípios e pioneirismo com o qual tratou os desafios apresentados pela cidade industrial. Neste contexto, busca-se compreender o ideário da construção de cidades desenvolvido pela Alemanha nos anos 1871 e 1933, que correspondem, respectivamente, à formação do II Império Alemão e à República de Weimar84.
Calabi85 refere-se ao urbanismo alemão como uma disciplina que procurava
tratar, por um lado, do controle da ampliação da cidade e, por outro, da organização da cidade já existente, por meio de uma série de instrumentos analíticos, de projetos e de normas que ainda hoje são utilizados, em parte, na prática urbana corrente deste país. Nesta época, foram definidas as grandes “questões” do urbanismo, bem como os seus setores, como capital, fontes de financiamento e gestão, por meio dos quais a cidade do século XIX foi projetada e construída.
Segundo Ladd86, os primeiros experimentos de zoning (zoneamento)
ocorreram em consequência dos esforços da municipalidade alemã para melhorar as condições de moradia, regulando, entre outros aspectos, a densidade habitacional. Pretendiam, com isso, a divisão funcional da cidade e não o seu uso como instrumento de controle do uso da terra. Lersch87 menciona que a discussão tipológica se dividia
entre a edificação unifamiliar, solta no lote ou geminada, não superior a dois pavimentos, e as edificações em altura, que permitiam densidades habitacionais mais altas. Os dois tipos eram chamados de edifícios Offene Bebauung (abertos) e de edifícios Geschlossene Bebauung (fechados), respectivamente (Figura 9).
84 Id., ibid., p. 19.
85 CALABI, Donatella. Op. cit., 2015, p. 3.
86 LADD, Brian. Urban planning and civic order in Germany (1860-1914). London: Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 1990, p. 189.
Figura 9. Exemplos de edificações habitacionais
Legenda: Edificações abertas (Offene Bebauung), em Mainz, à esquerda; edificações fechadas (Geschlossene Bebauung), em Colônia, à direita.
Fonte: Stübben(1934); Salomon (1913)88.
Alguns estudiosos da Alemanha destacavam, por meio de manuais89, uma
série de propostas formuladas para orientar um crescimento equilibrado das cidades naquele país. De acordo com Calabi90:
Os manuais – que nascem para servir como instrumentos de consulta para profissionais e técnicos municipais, para os que possuem um problema de atuação prática de urbanismo e de aplicação das normas jurídicas – examinaram a questão da renda fundiária. Alguns examinaram temas gerais, como a expansão física da cidade, a propriedade do solo, a edificação residencial para diversas classes de renda, o trânsito, o plano, o zoneamento funcional e tipológico. Outros examinaram questões particulares, específicas e setoriais, como habitação ou transportes. Seus enunciados são muitas vezes de uma clareza elementar: "são dois os escopos perseguidos por um plano de ampliação urbana: criar habitações e facilitar o trânsito", diz Baumeister, em 1876.
Considera-se óbvio que o principal problema do urbanismo fosse o crescimento da cidade. Tratou-se, então, de gerir tal crescimento, pondo à disposição um número maior de habitações e regulamentando o trânsito trazido pela nova dimensão. A Alemanha alcançou concretamente um nível de modernidade urbanística maior que qualquer outro país. A expansão ferroviária que a acompanhou foi o motor da iniciativa industrial; a colaboração dos bancos foi decisiva; o aumento da população foi análogo ao de outros países europeus, porém, as passagens de uma região para outra ou de um setor para outro se tornaram particularmente velozes. A estrutura urbana modificou-se de forma radical: novas e grandes cidades cresceram em ritmo acelerado e outras foram praticamente abandonadas91.
88 STÜBBEN, Joseph. Op. cit., 1924, p. 37; SALOMON, Hermann. Gartenstädte. In: BRIX, Joseph; GENZMER, Felix (Hrsg.). Städtebauliche Vorträge aus dem Seminar für Städtebau an der Königlichen Technischen Hoschule zu Berlin. Berlin: Verlag von Wilhelm Ernst & Sohn, 1913, p. 35. Disponível em: <http://www.margarethe-krupp-stiftung.de>. Acesso em: ago. 2017.
89 Isto é, sob a forma de sugestões operativas. 90 Id., ibid., p. 43.
O urbanismo não teria se desenvolvido em passo tão rápido se não houvesse o pressuposto de uma herança administrativa de origem pré-industrial. Já bem antes, os Länder (entidades regionais) tinham o poder de desenvolver novas vias em torno de áreas edificadas, mesmo que estivessem fora do perímetro de atuação municipal. De fato, por inexistir um Estado nacional, eram as autoridades que representavam os Estados territoriais, mais do que as cidades, e intervinham na expansão urbana. Em 1871, com a constituição do Reich e a política unificadora de Bismarck, foi instaurado um regime constitucional com inovações jurídicas que introduziu reformas liberais em uma situação de crise econômica, de desenvolvimento industrial e de medo dos fomentos socialistas. Muitas das maiores cidades da Alemanha foram reconstruídas como capitais para mais de 200 Estados saídos da guerra. O urbanismo alemão refletiu esse contexto: uma ideologia burguesa progressista, confiante nas possibilidades de resolução da técnica e na sua imparcialidade em relação aos conflitos sociais92.
Com a lei tradicional dos solos, todo o terreno na jurisdição direta de uma cidade pertencia ao município e podia ser alugado (ou concedido) aos usuários. Sob o governo absolutista, a propriedade passou a ser do Estado. Na prática, as áreas construídas não foram tocadas, mas nas áreas de novo desenvolvimento não foi difícil reservar os terrenos necessários para as vias ou edifícios públicos – uma vantagem concreta e um estímulo para realizar um amplo planejamento de algumas cidades. A administração pública foi a protagonista em todas as propostas urbanísticas, uma autoridade que possuía o controle de equidade, com a presunção de uma justiça ilimitada porque estava acima das partes93.
Foi nos primeiros anos do século XX que em toda a Europa foram publicados manuais dedicados especificamente ao aspecto emergente da cultura urbanística da época, representado pela estética urbana94. Devido à industrialização foram
necessários investimentos na construção de vilas operárias, que partiram da iniciativa de algumas grandes indústrias que reinvestiam o lucro da fábrica na edificação de habitações para os próprios empregados, permitindo que estes morassem nas proximidades do local de trabalho95.
Na Alemanha, a ideia da cidade-jardim inspirou a política urbanística antes da guerra. As outras iniciativas de baixa densidade foram realizadas no quadro nacional
92 Id., ibid., p. 44. 93 Id., ibid., p. 45. 94 Id., ibid., p. 100.
das sociedades imobiliárias de interesse público, e constituíram o núcleo essencial das entidades alemãs ativas em matéria de habitação popular. O objetivo da descentralização certamente não foi o de colocar as grandes cidades em debate, mas limitar o anel da especulação para construir no seu exterior, em terrenos de menor custo96.
Na década de 1980, a empresa Krupp, em Essen, constituiu, para a época, a concentração mais ampla de casas já realizada por iniciativa de um industrial europeu, além de outras, como a Solvay-Werke, ambas citadas por Stübben (Figura 10). Em 1910, as colônias Krupp chegaram a abrigar cerca de 46 mil pessoas. Verificam-se momentos distintos na tipologia das habitações, sendo que o primeiro se dá entre 1870 e 1875, com a construção de longos edifícios de três andares. Em um segundo momento, por volta de 1894, experimentou-se a construção de casas unifamiliares, seguindo alguns exemplos ingleses. Em 1907, passou-se à construção de edifícios de vários andares, em virtude de exigências da fábrica, cujo fato refletiu em uma economia na aquisição de terrenos. As colônias eram dotadas de serviços de nível considerado elevado para a época, como hospitais, bombeiros, estruturas de lazer, cultura e formação profissional, além de comércio, a tradicional praça do mercado e áreas verdes97.
Figura 10. Vilas operárias da década de 1980
Legenda: (1) Krupp Altenhof, em Essen; (2) Solvay-Werke. Fonte: Stübben (1924)98.
96 CALABI, Donatella. Op. cit., 2015, pp. 58-59. 97 LERSCH, Inês Martina. Op. cit., 2014, p. 70. 98 STÜBBEN, Joseph. Op. cit., 1924, p. 37.
Outra política urbanística adotada na Alemanha cresceu com muita força por meio do movimento das cidades-jardins (Gartenstädte). A cidade-jardim era um conjunto de habitações projetadas sobre terrenos baratos de propriedade da sociedade (Estado, comunidade, sindicato, etc.), de modo a evitar a especulação de terrenos ou o aumento de seus valores. Essa proposta social e econômica trouxe o jardim à nova cidade – próprio para os menos abastados – justificando a sua denominação99.
A Associação Alemã de Cidades-Jardim (Deutsche Gartenstadtgesellschaft) foi fundada em 1902 por um grupo de intelectuais berlinenses de tendência socialista, com o intuito de lutar em favor da melhora das condições de moradia. Em 1904, no Congresso sobre Habitação, realizado em Frankfurt, “esta entidade defendeu uma reforma baseada no princípio da descentralização planejada em torno de grandes cidades”100. No contexto germânico, uma das iniciativas que se destaca é a cidade-
jardim de Hellerau, próxima a Dresden, datada de 1908 (Figura 11).
Figura 11. Cidade-jardim de Hellerau (1908)
Fonte: Salomon (1913)101.
Servem, também, de exemplo, as cidades-jardim de Manheim e de Margaretenhöhe. Esta última foi mais um empreendimento da Krupp, em Essen. Como se pode observar, o traçado orgânico predominava, mas também podiam ser encontradas propostas com princípios bastante geométricos102 (Figura 12).
99 SALOMON, Hermann. Op. cit., 1913, p. 8. 100 CALABI, Donatella. Op. cit., 2015, p. 54. 101 SALOMON, Hermann. Op. cit., 1913, p. 30. 102 LERSCH, Inês Martina. Op. cit., 2014, p. 89.
Figura 12. Gartenstadt de Manheim (1909) e de Margaretenhöhe, em Essen (1912)
Fonte: Salomon (1913)103.
Pode-se observar, portanto, que a sistematização dos princípios do urbanismo germânico e sua publicação em manuais teve grande contribuição tanto para as características da cultura urbanística germânica, como para o zoneamento urbano, planos e estrutura sanitária.