• No results found

1 Introduction

1.5 Arabidopsis thaliana clock

A CHEGADA

Ser-se estudante, ser-se enfermeiro, ser-se pessoa, ser-se...diferentes pessoas que co-habituam dentro de uma só. Nesta fase, uma fase que descrevo como exploratória, de novas descobertas e procuras, chega até mim uma imagem de um terreno virgem e fértil, pronto para receber e dar novos frutos de conhecimentos. Ao leitor, pode ressoar a ideia de multiplicidade de papéis sociais/profissionais que parecem viver na atualidade algum género de conflito. E assim é. Um conflito entre papéis e os ‘ser-se’ que vivem em mim. Decorridos os primeiros quatro momentos de contato no contexto clínico, sinto-me à procura do meu espaço, num espaço que não é meu, mas sim de outros...de outros que progressivamente vou conhecendo e adaptando-me. Talvez possa eu sentir este espaço como sendo também um pouco meu, no decorrer desta jornada...

Terminadas as duas primeiras semanas de estágio, emerge a necessidade de “formalizar” o processo reflexivo que fui realizando e apresentar, através da concretização deste primeiro diário de aprendizagem, os pensamentos, sentimentos e os movimentos internos que me fui dando conta ao longos destes dias, procurando descrever uma situação que tenha despertado em mim um interesse particular e viável para ser discutido neste diário. Para isso, afigura-se como fundamental, sustentar o momento reflexivo de acordo com os pressupostos definidos pelo ciclo de Gibbs. Mas antes de resgastar a importância que representa a prática da reflexão na profissão de enfermagem, será importante partilhar a forma como tenho vivido esta nova experiência. Uma experiência enquanto estudante de enfermagem que exerce a sua profissão há 5 anos e que inicia um percurso de prestação de cuidados a uma população que lhe é desconhecida – crianças e adolescentes com doença mental.

Neste diário de aprendizagem seria possível trabalhar e apresentar muitas das inquietações que foram surgindo ao longo destes dias. Na sua generalidade representam momentos/interações que depoletaram em mim questões como: que impato terá em mim a prestação de cuidados de enfermagem a crianças e adolescentes com doença mental? Que impato terá a minha intervenção na população internada? Quais serão as minhas resistências e aspetos facilitadores?

Como será a integração na equipa? E, finalmente, em que medida trabalhar com crianças e adolescentes poderá mudar a minha perspetiva de cuidados prestados a adultos com patologia mental?

À medida que as questões vão emergindo vou, também, me dando conta da forma como me posiciono na relação que estabeleço com os colegas e com os jovens internados. O início das relações estabelecidas tem sido vivida de forma globamente tranquila, onde tenho procurado integrar-me na equipa e compreender o funcionamento do serviço e participado ativamente nas dinâmicas realizados com os jovens. Ainda que o meu papel no internamento seja diferente dos colegas, tem sido importante procurar identificar-me com os estilos de abordagem diferentes que são usados pelos mesmos, uma vez que me ajuda a procurar o meu próprio estilo e clarificar o meu papel enquanto estudante.

Os dias têm sido ricos quanto às aprendizagens e, por conseguinte, também quanto ao número significativo de reflexões e pensamentos que têm surgindo. Refletir na e sobre a prática cliníca: que ganhos representam para o profissional de saúde e para os cuidados prestados?

“A reflexão enquanto atividade emerge (...) como condição para ir mais além (...) estratégia utilizada para ultrapassar dificuldades, pois permite a identificação das mesmas e o diálogo consigo próprio, no sentido de encontrar resposta para essas mesmas dificuldades.” (Rua, 2011).

Rua remete-nos para duas funções principais: a reflexão como um veículo para colocar o profissional em contato consigo próprio e como facilitador para pensar na e sobre a ação como modo de atingir novas compreensões sobre um determinado assunto. Acerca da oportunidade de contato e aproximação com o próprio, vale a pena relembrar uma das quatro competências que o enfermeiro especialista em saúde mental deve desenvolver “Detém um elevado conhecimento e consciência de si enquanto pessoa e enfermeiro, mercê de vivências e processos de auto-conhecimento, desenvolvimento pessoal e profissional” (Ordem dos Enfermeiros, 2009). Compreende-se desta forma o sentido dos momentos reflexivos no processo de formação do enfermeiro especialista em saúde mental. Pensando agora na prática reflexiva como um meio de aprendizagem, importa referir a intencionalidade da mesma. A reflexão sobre as práticas é definida por Kim (1999), como uma retrospetiva intencional, o que traduz uma intenção clara da pessoa que

reflete: refletir é, portanto, um processo consciente que melhora a compreensão da prática/ato e proporciona novos momentos de aprendizagem.

Entre outras técnicas, o ciclo de Gibbs concorre para o desenvolvimento pessoal, uma vez que após a descrição da experiência vivida, convida o “relator” a sistematizar os pensamentos e sentimentos que foram surgindo durante a experiência, propõe um caráter avaliativo “o que foi bom e mau desta experiência”, ajuda a pessoa a compreender o sentido e significação da mesma bem como a compreender o que foi ou não feito perante o acontecimento relatado. (Documento Orientador de Estágio, 2014). Através da última etapa do ciclo, procura-se planear o futuro e compreender em que medida esta experiência proporcionou uma mudança na prática clínica. Na minha perspetiva, entendo esta última etapa como um mediador entre o passado-presente-futuro, que reflete a nossa posição enquanto enfermeiros prestador de cuidados contínuos.

Após este breve enquadramento, faz agora sentido remeter-me para a experiência que mais eco provocou em mim durante estes dias. Tratava-se de uma segunda feira, dia em que se realiza a reunião multidisciplinar onde se discute de forma minuciosa o caso clínico de cada jovem. Estão presentes o diretor do departamento de saúde mental da infância e adolescência, o diretor clínico do serviço de internamento, um enfermeiro, assistente social,psicólogos, e os pedopsiquiatras que acompanham os jovens internados. Serve como mote para a reunião, a palavra do enfermeiro que partilha com a restante equipa o comportamento que cada jovem tem apresentado no internamento. Dá-se primazia à discussão e reflexão acerca do comportamento do jovem nas atividades mais individuais (como exemplo, o grau de organização nas suas AVD’s), como também o seu envolvimento nas atividades terapêuticas desenvolvidas em grupo. Não esquecendo a importância que a família tem no processo saúde/doença do jovem, é também abordado a forma como decorrem as visitas.

Foram discutidos o caso dos 10 jovens internados, realizadas novas propostas de atuação e planos terapêuticos. À medida que a informação ia sendo relatada, sentia-me cada vez mais desconfortável e incomodada e pensei “eu olho para cada miúdo que lá está e estou tão longe de imaginar o sofrimento e pesar de cada um deles.” E senti empatia pela dor, pela história, pelo sofrimento de cada um deles. Durante aquela reunião que durou cerca de 4 horas foram várias as vezes em

que “saía” do meu papel e tentava colocar-me no papel deste jovens. “Se isto tivesse acontecido comigo, como seria eu agora?” “Talvez não estaria formada, talvez não fosse eu...o eu que agora reconheço em mim. Com estas experiências emocionais que me parecem tão marcantes, como seria se fosse eu a vivê-las na primeira pessoa?”. Tocou-me particularmente o caso de uma adolescente de 13 anos que terá iniciado episódios de recusa escolar, com comportamentos parasuicidários, crises de ansiedade coincidentes com uma ruptura amorosa com um homem de 37 anos. Filha única de uma família nuclear (pai e mãe) que se viu obrigada a separar-se por questões financeiras. Atualmente o pai encontra-se a trabalhar na Bélgica e a mãe, desempregada, vive com a adolescente em Portugal. Há história de personalidade do tipo permissivo da mãe, conhecedora desta relação afetiva entre a menor e o homem de 37 anos, sob a qual se refere “eu nunca achei bem mas também nunca pensei que isto fosse acabar assim.” (sic). À medida que se ia relatando a história, foram vários os sentimentos e pensamentos que foram surgindo. É dificil abstermo-nos de juízos de valor, pelo menos para mim naquele momento foi. Perante esta situação que me é nova, foi dificil controlar os meus pensamentos e não pensar, à partida “Que tipo de mãe permite um relacionamento da sua filha menor com um homem de 37 anos? Para onde se remete a função protetora que a mãe deve ter com a sua ‘cria’? Qual o estilo de relacionamento entre os pais e a filha?

Senti que algumas destas inquietações teriam que ser primariamente trabalhadas por mim. Antes de as expôr e partilhar com alguém, precisei de as “processar” de modo a diluir os juízos de valor (era este o valor do meu pensamento). E depois, senti que seria útil perceber também porquê e em que medida este caso particular me trouxe tanto incómodo: em primeira mão, é-me difícil aceitar que uma jovem, no início da sua adolescência, procure um relacionamento com um homem desta idade. São claramente fases de evolução diferentes, em estadios de maturidade cognitivo-emocionais também distintos. O que aproxima/une estas duas pessoas? Depois, estamos a falar de uma vulnerabilidade de uma adolescente, que se expõe a situações de risco ou estamos a abordar a psicopatologia de um adulto que procura um relacionamento com uma menor? Ou estaremos nós a abordar as duas situações em simultâneo? Senti-me confusa e com uma necessidade (importante ou não?) de tentar perceber melhor em que

circunstâncias terá começado a aproximação entre eles. Foi como se estivesse à procura de racionalizar as questões em torno de tudo isto, talvez para me afastar de sentimentos como: zanga perante uma mãe que permite que isto aconteça, zanga perante um homem que procura uma menor para manter uma relação afetiva...pior, foi o sentimento ambíguo que tive em torno da jovem. Enquanto descrevo esta necessidade de racionalizar, reconheço em mim exatamente esta minha tendência: racionalizar constantemente as emoções e tentar suprimir, por vezes a qualquer custo a zanga...por um lado sentir compaixão, que me faz, no limite da minha atividade profissional, proteger, trabalhar e aceitar a sua vulnerabilidade, mas por outro sentir alguma incompreensão perante o seu comportamento. Traduz este sentimento alguma resistência da minha parte? Não consigo ainda responder a esta questão....

Destas últimas palavras que partilho, gostava de realçar e refletir, em primeira instância, a questão do limite da nossa intervenção profissional. As questões levantadas pela própria equipa revelaram essa preocupação, uma vez que sendo um relacionamento de uma menor e com um homem adulto, teria que ser, à partida, reportado para outras instâncias superiores. Pergunto-me: estando a adolescente internado no serviço de pedopsiquiatria quem deve reportar o caso? Os pais ou a equipa técnica? Depois, como podemos garantir que os pais, nomeadamente a mãe que tinha conhecimento deste relacionamento, irá mesmo reportar e formalizar uma queixa? E, muito importante...sendo a equipa a reportar e formalizar a queixa, que implicações teríamos na relação terapêutica estabelecida entre a equipa e a adolescente?

A minha posição de estudante, o fato de ser o primeiro dia em que me estava a apresentava à equipa foram fatores que concorreram para que tivesse adotado uma postura mais reservada durante a discussão, mas sem que isso significasse que eu própria não estivesse a refletir acerca das preocupações partilhadas.

O ciclo de Gibbs propõe uma reflexão avaliativa,o que foi bom e mau da experiência. Gostaria de trocar o “mau” pelo “menos positivo”. Começo por destacar os aspetos talvez menos positivos da experiência: dificuldade em conseguir pensar de forma clara e objetiva quanto à resolução para o problema; sentimento de culpa que se foi assolando em mim aquando dos pensamentos que surgiram como “que leva a uma adolescente com esta idade aproximar-se de um homem de 37 anos?”.

Gostaria de não ter passado por alguns momentos de angústia durante a discussão, por um lado sentia que por vezes me perdia no meu próprio pensamento “não é justo estares a pensar desta forma sobre a família. Não podes tirar conclusões ou ilações, uma vez que não conheces todas as circunstâncias.” Por outro lado, acalmava-me pensar “é uma situação nova, é natural que te sintas perdida e não podes dissociar os teus pensamentos dos teus sentimentos. O importante é tomar consciência da existência deles e saberes o que podes fazer com isso.” Depois disto, a experiência emocional mais marcante foi recear imaginar que pudesse eu adotar uma postura defensiva para com a adolescente ou com a sua mãe, ao saber deste relacionamento entre a menor com o senhor. A história tinha-me incomodado, sentia-me zangada com a mãe, e embora sentisse compaixão pela adolescente, também me questionava acerca do seu comportamento.

Quanto aos aspetos positivos, o fato de ter havido uma discussão rica em torno desta questão “como reportar e formalizar a queixa”, o fato de ter sentido que todos os elementos da equipa estavam empenhados na resolução do problema e no bem-estar da família e adolescente. Quanto aos ganhos mais direcionados para mim, de destacar a tradução deste acontecimento num momento reflexivo acerca dos aspetos éticos e legais inerentes à prática dos cuidados, questão da vulnerabilidade e mecanismos de resiliência do próprio adolescente.

Remetendo-me agora para o significado atribuído à experiência, posso pensar sob três perspetivas: significado atribuído acerca do que senti durante a discussão do caso, significado dado quanto ao meu posicionamento durante a experiência, receios quanto ao condicionamento da relação terapêutica entre mim e a adolescente e sua mãe.

A verdade é que foi a primeira vez que ouvi e presenciei um relato tão próximo de um abuso de menores e, por ser novidade, a minha inquieitação poderá também ser fruto do meu desconhecimento quanto à resolução legal do aconteicmento relatado. Como referi, a zanga foi estando presente ao longo da experiência, mais dirigida para o homem de 37 anos e a mãe adolescente. Talvez por tentar imaginar que a relação entre mãe e filha deve ter um cariz protetor e que, neste caso, penso que poderá ter sido descurado. Pensado noutra perspetiva, a zanga contra mim também esteve presente e atribuo ao fato de me ter sentido, enquanto enfermeira, alguma impotência para solucionar o problema. Mas, não

poderei eu, contribuir para o bem estar da adolescente e arranjar outras formas de a ajudar a compreender e a mudar o seu comportamento futuro? Será uma perspetiva interessante e diferente ( e não remeter-me exclusivamente para as questões legais) para abordar a temática em questão. Portanto, os receios supracitados não passaram de fantasias não concretizadas, mantive uma relação próxima com a adolescente e desenvolvi algumas atividades terapêuticas com a mesma, perfeitamente distanciada dos meus pensamentos iniciais.

No que concerne ao que poderia ter feito durante esta situação, senti que podia ter procurado explorá-la com a equipa de enfermagem, nomedamente com a minha orientadora, uma vez que foi algo me deixou desconfortável. Teria sido interessante também abordar e discutir com os colegas como poderia ter sido esta questão trabalhada com a adolescente. Ou talvez primeiro pensar se de fato esta informação partilhada tem assim tanto peso e pode definir o rumo dos cuidados prestados à adolescente?

No futuro, perante situações semelhantes, espero poder ter uma resposta mais interventiva e participar com soluções mais efetivas. Para isso, contribui o fato de me propor a procurar documentos que me possam conferir segurança do ponto de vista teórico. Seria interessante também no futuro estar presente em entrevistas familiares, onde pudesse compreender e tentar traduzir o significado de questões deste tipo no seio familiar. Talve me pudesse ajudar a desconstruir algumas ideias/pensamentos que fui espelhando durante esta reflexão.

Ficam por partilhar outras questões, outras ideias e até emoções que foram surgindo ao longo destas semanas... Haverão outras reflexões, outros momentos e outras oportunidades que certamente me ajudarão a crescer pessoal e profissionalmente.