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3 Approximate Bayesian inference

Sob a ótica dos endereços com mais registros, restou provado que os criminosos procuram locais com maior oferta de vítimas potenciais para o tipo de delito em que são especialistas, afinal, é comum o delinquente ter preferência por um tipo de atividade ilegal e passar a executar apenas aquela modalidade. Por exemplo, traficantes não assaltam ou dão golpes de estelionato, salvo em casos de extrema necessidade ou mudança de ramo para outro em que os resultados são mais compensadores.

Partindo da premissa que o local é escolhido de acordo com as características que possui em termos de atrativos para os criminosos, talvez a pergunta a se fazer para os estrategistas de segurança pública e os pesquisadores é: o que falta para uma boa segurança de determinado local?

A fim de melhor ilustrar o problema vamos contar de forma sintética um caso real narrado no livro “O poder do Pensamento Matemático” de Ellenberg (2014). A história é mais ou menos assim:

O matemático Abraham Wald foi contratado pelo Grupo de Pesquisa Estatística do governo norte americano para ajudar no combate aos países do Eixo durante a segunda guerra mundial. Um dos trabalhos de Wald foi ajudar a escolher onde blindar os aviões de combate, haja vista que vários estavam alvejados pelos Nazistas, alguns caiam e os que voltaram tiveram os furos de projéteis contados.

O senso comum diz que o melhor a fazer seria blindar as partes com mais furos, no caso as asas, já que não é viável blindar um avião inteiro, sobretudo porque nos anos 1940 a tecnologia não era avançada ao ponto de prover blindagem sem elevado incremento no peso. Wald subverteu o senso comum ao dizer que não deveriam blindar onde havia mais perfurações e sim o contrário: no local onde havia menos furos significava que os aviões que ali foram mais alvejados caíram e, portanto, não voltaram. No caso concreto, os locais com menos furos eram os motores. Os militares seguiram as recomendações de Wald até as Guerras da Coréia e do Vietnã, dado que leva a crer que Wald estava certo.

Retornando ao problema dos locais com mais registros, talvez a linha de pensamento de Wald possa ajudar. A ideia base é: se os locais preferidos pelos criminosos têm alguns

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atributos importantes do ponto de vista do mundo criminoso, e em geral são características também valorizadas pelos urbanistas, tais como movimento de pedestres (locais mais acessíveis ou integrados), comércio vibrante, diversidade de uso, amplos espaços públicos etc. e que por isso mesmo não podem ser eliminadas sob o argumento de que irá diminuir as ocorrências policiais, a pergunta a ser respondida é: o que falta nesses locais para inibir criminosos e aumentar a segurança?

A ideia é partir dos pontos positivos para os criminosos, avaliar se podem ser evitados, e propor alternativas para torná-los negativos para os mesmos criminosos. Locais e vantagens para os criminosos:

1) Locais com grande fluxo de pessoas. Vantagem um, maior leque de opções par escolher as vítimas; vantagem dois, alta probabilidade de fuga no meio da multidão, vantagem três, anonimato garantido, por exemplo, num local como a rodoviária do Plano Piloto por onde passam em média 700.000 pessoas/dia, é quase impossível ser reconhecido por alguém, a não ser no ponto do ônibus onde você embarca com frequência;

2) Comércio vibrante: vantagem um, grandes quantias em dinheiro nas mãos de clientes e comerciantes; vantagem dois e três, semelhantes ao primeiro caso; 3) Diversidade de uso: em geral possibilita as mesmas vantagens do primeiro caso; 4) Amplos espaços públicos: permitem agir sem serem vistos, via de regra para furtar

peças de automóveis, estepe, ou objetos deixados no interior do veículo. Sendo assim, o que falta nesses locais?

I) Para todos existe uma resposta em comum: policiamento eficiente, aqui em lato

sensu, quer dizer segurança provida pelo Estado ou por empresas de segurança

privada. Sempre que essa falha é apontada a resposta da Polícia é a mesma: não há como estar em todos os lugares ao mesmo tempo. De fato, com um volume de registros como os que ocorrem no DF todos os dias é uma tarefa difícil, mas de posse dos dados que indicam os hotspots41, a SSPDF tem melhorado a vigilância

e, principalmente, o serviço de inteligência policial no sentido de identificar e prender os criminosos contumazes. Ainda no campo da vigilância, o uso de câmeras de alta definição e espalhadas por todo o local já é por si só um fator de

41 Do inglês seriam as zonas quentes. Em termos de segurança pública são os pontos georreferenciados que

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intimidação para os delinquentes, sobretudo se forem efetuadas prisões em flagrante, evidenciando a eficácia do sistema;

II) Fazer com que as pessoas cuidem da sua própria segurança. Nos dias atuais, sobretudo depois do advento dos smartphones as pessoas não mais caminham admirando a paisagem, cumprimentando-se mutuamente, buscando reconhecer amigos. Em verdade grande parte anda totalmente alheio ao que ocorre ao seu redor, inclusive tornaram-se frequentes atropelamentos, quedas, acidentes em buracos e trombadas em razão da atenção dada ao aparelho celular e a desconexão com o ambiente ao seu redor. Esse tipo de comportamento é um convite aos criminosos, menos mal quando se trata de furtos, mas pode ser um roubo, um sequestro relâmpago ou coisa pior. A solução passa por uma conscientização da população para usar seus smartphones apenas em locais seguros e em posição parada, jamais caminhar ou dirigir manuseando seus aparelhos. Além disso, é preciso convencer as pessoas a usarem menos os celulares e conversarem mais com pessoas reais, frente a frente e não apenas no mundo virtual;

III) Fazer com que as pessoas colaborem com a segurança coletiva. A situação descrita no parágrafo anterior também se relaciona com a segurança coletiva; se você não cuida da própria segurança como será capaz de cuidar da coletividade? Ademais, a vida moderna tem conduzido ao que SANDEL (2016, p. 264) descreve como “individualismo moral”:

Para o individualista moral, ser livre é submeter-se apenas às obrigações assumidas voluntariamente; seja o que for que se deva a alguém, deve- se em virtude de algum ato de consentimento – uma escolha, uma promessa ou um acordo que se tenha feito, seja ele tácito ou explícito. A concepção de que nossas responsabilidades se limitam àquelas que deliberadamente assumimos é libertadora. Ela presume que somos, como agentes morais, seres livres e independentes, livres das limitações de restrições morais preestabelecidas e capazes de definir sozinhos nossos objetivos.

O problema é que o individualismo leva ao egoísmo e à desagregação social. Na questão da segurança o individualismo moral é bem evidente: pessoas fingem que não estão vendo um crime para não se meter e correr o risco de ser ferido ou roubado também. Outros

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não denunciam com medo de represálias. Alguns não aceitam ser testemunhas por falta de tempo. Não atentam para crimes contra terceiros porque não é problema seu.

Segundo Sandel (2016), viver em sociedade presume a aceitação das obrigações de solidariedade, quase o oposto do individualismo moral. Para explicar as obrigações de solidariedade são elencadas as obrigações familiares, de grupos e de patriotismo. Nos três casos você tem a obrigação de auxiliar pessoas mesmo não existindo nenhum documento por você assinado se comprometendo a fazê-lo.

As obrigações familiares são mais fáceis de serem aceitas e cumpridas pelas pessoas chamadas a essa responsabilidade.

Quando se fala em obrigações de grupo a coisa começa a complicar, fica difícil convencer as pessoas que elas têm compromisso com os problemas do grupo a que pertencem, os moradores da sua cidade por exemplo, e com cada um dos seus cidadãos caso necessitem sua ajuda e lhe se possível ajudá-las. Ocorre que o próprio sentimento de pertencimento tem se diluído no mundo moderno. Aqui, nitidamente se encaixa um grande problema da segurança pública, falta de apoio e informações fornecidas pela comunidade, além da falta de atuação dos cidadãos quando se deparam com crimes em curso e nada fazem. Não se está reivindicando que seja feito um linchamento público do criminoso, mas, ao menos, que a pessoa que presencia um crime possa filmar ou fotografar o fato para depois, em local seguro, remeter à polícia e colaborar na elucidação dos fatos.

A obrigação de patriotismo também tem sido relegada a segundo plano por muitos. Algumas pessoas confundem a nação com o governante de momento, e assim, diante de políticos quase sempre poucos honrados e honestos, os cidadãos passam a desprezar o patriotismo e desdenhar do próprio país. A consequência nefasta é o sentimento de que o país não tem jeito e que o melhor é cada um por si, de acordo com o provérbio popular, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. O impacto direto na segurança coletiva é o “cada um com seus problemas” e “eu não vou me meter nisso”.

É fácil perceber que o individualismo moral e a falta da responsabilidade moral afetam a segurança e desfalcam o combate à violência num de seus meios mais essenciais, informações privilegiadas de quem está no meio onde as coisas acontecem. Reduz ainda a ajuda em momentos de necessidade e desespero das vítimas. Um tipo de violência comum de ser tolerado é a violência contra a mulher, mais uma pérola dos provérbios populares incentiva tal prática ao ensinar “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Nada mais falacioso, nenhuma luta física deve ser permitida, contudo, numa briga em que uma das partes é sempre mais frágil fisicamente que a outra, sempre deve haver uma intervenção urgente da polícia.

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