3. Theory
1.5 Applications of TCE in shipbuilding
Ao finalizar esta seção de análise, cumpre salientar mais uma vez que não se tratam de conclusões ou respostas regulares para a problemática das reestruturações curriculares da psicologia e a governamentalidade neoliberal, seus desafios e efeitos. Ao longo do trabalho foram feitas considerações analíticas que pretendem um lugar de abertura de perspectivas e não fechamento do debate. Peste sentido, o ALEPH nos permite um ponto de acesso ao universo das reestruturações onde a visibilidade é dependente da implicação do autor e das configurações possíveis a partir de ferramentas teóricas.
Espera-se que tenha ficado clara a intenção de não ser capturado pelas dicotomias, pelos lugares ou classificações, mas cumprir com um exercício de análise sobre as contingências que provocaram determinadas formas de ser. Pão é intenção deste trabalho situar-se na comodidade da neutralidade, nem tampouco apaziguar a dificuldade em aceitar o impacto da mercantilização do ensino e da governamentalidade neoliberal sobre a educação superior. Mas, ao mesmo tempo, existe a preocupação de tomá-la como força viva, como uma intensidade de produção subjetiva e tudo o que isto pode significar na construção dos sujeitos docentes, discentes, gestores, entre outros que estão implicados com a formação em psicologia. Esta preocupação baseia-se também no cuidado para não subestimar, do ponto de vista deste autor, o que se quer combater. Colocar o neoliberalismo em uma dicotomia entre nós e eles seria uma estratégia equivocada e que já foi superada pelo próprio conceito de governamentalidade.
Assim, esta análise permitiu considerações sobre como a graduação em psicologia e as reestruturações curriculares recentes, tomando o neoliberalismo enquanto uma forma de governar. Suas condições de possibilidades de ser o que é ou em que medida poderia ser outra enquanto potência de diferenciação. As considerações realizadas nesta seção versam sobre pontos visíveis no ALEPH que - dentro do tempo que durou o olhar, sob as condições que este autor tem de significar o que vê - constituíram uma paisagem, uma perspectiva distante de uma verdade natural, mas que se apresenta como uma possibilidade do real.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Me gusta El cine. Me gusta todo tipo de films. Pero todo los tipos de films están todavia por crear. (Artaud, 1961-1995, p. 7)
Em 2009 os diretores Karin Aïnouz (Madame Satã e O Céu de Suely) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) lançaram um filme que foi classificado por muitos como um road movie inovador, chamado Viajo porque preciso, volto porque te amo. O protagonista da história é o geólogo José Renato que narra sua viagem pelo sertão nordestino com o objetivo de pesquisar o solo por onde passará um canal de transposição de águas. Esta narrativa tem algumas características peculiares.
Em primeiro lugar o narrador nunca aparece na tela. Mesmo assim, sua forte presença através da proposta narrativa, do texto, das imagens e da capacidade dramática do ator Irhandir Santos faz com que ao final do filme, mesmo sem vê-lo, seja um personagem muito conhecido e familiar ao espectador. São através dos olhos deste personagem que se pode ver a estrada, os lugares, as pessoas. É através de sua escuta que ouvimos as falas, o vento, os ruídos e os silêncios. Ou seja, o personagem apresenta o universo desta viagem emprestando seus sentidos (como percepção e como significados) para quem vê o filme.
Outra característica é a forma como ficção e realidade se misturam o tempo todo e tensionam os seus limites (se caso existem) através da participação de pessoas convidadas ao longo do trajeto de viagem que não são atores, mas personagens de suas próprias vidas. Vidas que imprimem simplicidade e beleza, crueldades e desigualdades, resignação e superação, alegria; vidas que não precisam de muito para se considerar feliz. A estética do filme deixa clara sua posição ética a favor da afirmação da vida, “mesmo quando é assim pequena a explosão como a ocorrida; mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida Severina” (Melo Peto, 1994, p. 60).
A narrativa do filme é marcada pelo diálogo e pelas cartas que José Renato escreve para sua mulher que ficou para trás. Po início como uma mulher que espera a volta deste viajante consumido pela paixão e pela saudade. Ao longo do filme uma mulher que segue sendo desejada, mas que não espera, pois antes desta jornada já abandonou o viajante. A trilha sonora marcadas por baladas apaixonadas consideradas bregas, a forma como a câmera pára sobre uma cena, o ritmo da narrativa, a decupagem artesanal afirmam esta viagem como uma experiência existencial da solidão. Provoca uma lembrança, do meu ponto de vista, da solidão
como aparece em Rilke, R.M. (1995) nas Cartas a um jovem poeta. Solidão que não é possível deixar ou tomar, que nos define e que pode ser um ponto de partida para uma existência. “Po fundo só esta coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar” (p. 66). Enfim, um filme que não é considerado fácil, mas para aqueles, que como eu, foram afetados, mobilizados, suspensos pela sua proposta é um filme estranho, belo e imprescindível.
A referência a este filme foi a melhor maneira encontrada para iniciar estas considerações finais. Pão como adorno ou enfeite, mas como construção de uma referência para leitor, com contornos muito mais estéticos e éticos do que explicativos científicos, sobre o lugar e a implicação deste autor no momento da finalização da tese.
É obvio que não espero comparar diretamente este trabalho com o filme. Além da diferenças de linguagem e proposta, da capacidade e talento dos diretores, editores e atores, a comparação entre esta tese e o filme não é possível pelas condições de possibilidades presentes no cinema como produtor de significados44, o que as teses acadêmicas não têm.
Mesmo assim, existem algumas possíveis aproximações. Por exemplo, um protagonista/autor que constitui o ponto de acesso, de implicação com o texto para leitor. Uma perspectiva que considera a ficção/invenção como constitutivo da realidade. Um cenário de práticas simples naturalizadas pelas verdades possíveis e acessíveis aos personagens, e, não com isso, menos complexas. A evidência de uma felicidade pouco exigente e as contingências de um governo da vida. Uma viagem que o protagonista/autor começa sentindo-se seguro pela estabilidade das relações e das coisas, esperando com ansiedade o seu fim. E tem dificuldade de terminar pela dissolução das referências sobre si mesmo e desconfiando que não queira ou não saiba pôr um fim. Pão há como voltar ao ponto de partida, ele não existe mais.
Como última convocação ao filme como recurso de inteligibilidade, imediatamente no início da viagem é dada ao expectador a oportunidade de conhecer a identidade e a motivação do personagem protagonista, mesmo sem vê. Pão foi diferente neste trabalho. Ao longo do filme esta identidade e a motivação vão sendo desacomodadas, deslocadas, contrariadas, reinventadas e até mesmo destruídas. A beleza do filme reside também nos recursos que esgota para colorir e dar visibilidade a estas transformações sem explicá-las à luz de um discurso linear ou de demonstração empírica.
Tampouco este trabalho pretende explicar ou demonstrar quais as transformações pelas quais o autor passou. Até porque uma análise de implicação, mesmo que tenha
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Sobre isso ver GUATTARI, Félix. Más Allá del significante. In Erotismo y destrucción. Edición de Vottorio Boarini. Madri: Editorial Fundamentos, 1983 e GUATTARI, Félix. O Divã do Pobre. In: Psicanálise e Cinema. Coletânea do nº 23 da Revista Communications. Comunicação/2. Lisboa : Relógio d' Água, 1984.
compromisso com uma racionalidade, debruça-se sobre as afecções e intervenções que nem sempre partem de uma hipótese científica. Pestas considerações finais, a primeira pretensão é de apresentar algumas motivações para a construção de um personagem fundamental implicado nesta tese: o psicólogo professor de cursos de graduação em psicologia.